. [Vers. 18] “E as nações se enraiveceram”. Que isto signifique o desprezo, a inimizade e o ódio dos maus contra o Senhor e contra as coisas Divinas que vêm d’Ele, que são as coisas santas do céu e da igreja, vê-se pela significação de ‘nações’, que são os que estão nos bens da igreja e, no sentido oposto, os que estão nos males; aqui, são os que estão nos males, porquanto se diz que ‘se enraiveceram’; (que as ‘nações’ signifiquem os que estão nos bens e os que estão nos males, e, abstratamente, os bens e os males da igreja, e que ‘povos’ signifiquem os que estão nos veros e os que estão nos falsos, e, abstratamente, os veros e os falsos da igreja, vê-se acima, n. 175, 331 e 625); e pela significação de ‘enraivecer-se’, quando se diz dos maus que são significados pelas ‘nações’, que é estar no desprezo, na inimizade e no ódio contra o Senhor e contra as coisas Divinas que vêm d’Ele, as quais são as coisas santas do céu e da igreja.
[2] Que essas e várias coisas semelhantes sejam significadas por ‘enraivecer-se’ é porque cada um se inflama e se ira quando são atacados o seu amor e o prazer do seu amor. Toda inflamação e toda ira vêm daí. A causa disso é que o amor de cada um é a sua vida, pelo que ferir o amor é ferir a vida, e quando esta é ferida dá-se a comoção da mente e, daí, a ira e a inflamação. O mesmo se dá com os bons, quando seu amor é atacado, mas com a diferença de que eles não têm inflamação e ira, mas zelo. Este, a saber, o zelo, é até chamado de ‘ira’, na Palavra, mas não é ira. Chama-se ‘ira’ porque na forma externa parece ser semelhante à ira, mas interiormente não é outra coisa senão caridade, bondade e clemência; por isso o zelo não persiste, como a ira, senão enquanto aquele, contra quem se acendeu, não se arrepende e se desvia do mal. Dá-se diferentemente com a ira nos maus. Visto que nela se encerre interiormente o ódio e a vingança, que eles amam, por isso ela persiste e raramente se extingue. Daí é que têm ira aqueles que estão nos amores de si e do mundo, pois esses estão também nos males de todo gênero, enquanto têm zelo os que estão no amor ao Senhor e no amor para com o próximo. Por isso o zelo visa a salvação do homem, mas a ira visa a sua danação; esta é a intenção do mau que se enraivece, mas aquela é a intenção do bom que é zeloso.
[3] Que as ‘nações enraivecidas’ signifiquem aqui o desprezo, a inimizade e o ódio dos maus contra o Senhor e contra as coisas Divinas que vêm d’Ele, portanto, contra as coisas santas do céu e da igreja, é porque no fim da igreja, pouco antes do juízo final, de que se trata aqui, muda-se o estado daqueles que estão no céu anterior e na terra anterior, o que se faz pela separação entre os bons e os maus. Isto feito, são fechados nos maus os externos pelos quais e dos quais tinham falado os veros e feito os bens fingida e hipocritamente, e são abertos internos que, neles, são infernais. Sendo abertos estes, irrompem-se manifestamente o desprezo, a hostilidade e o ódio, com afrontas contra o Senhor e contra as coisas santas do céu e da igreja, pois neles tais coisas jaziam ocultas, mas cobertas pelos amores de si e do mundo, que são tais que fazem o bem e falam os veros por causa de si e mundo, já que as coisas santas do céu e da igreja são para eles como meios para os fins que são a reputação, a glória, a honra, o lucro, em suma, eles mesmos e o mundo, e os meios são amados por causa dos fins. Como, porém, o fim – que é o amor do homem e, daí, de sua intenção e de sua vontade – é corpóreo e mundano, consequentemente, infernal, por isso os bens e veros, que são do céu e da igreja, estão somente nos externos neles, e nunca nos internos, porque ali estão os males e falsos, porque os bens e veros do céu penetram nos internos somente naqueles que fazem seus fins as coisas santas do céu e da igreja, isto é, fazem-nos com que sejam do amor e, daí, da intenção e da vontade. E quando este se tornam fins, então a mente espiritual do homem é aberta e por ela o homem é conduzido pelo Senhor. O contrário ocorre, porém, quando os bens e veros do céu e da igreja não são fins, mas meios, porque, como há pouco se disse, os fins são as coisas que pertencem ao amor reinante do homem, e quando este é o amor de si, também é o amor de seu proprium, que, considerado em si mesmo, não é outra coisa senão o mal. E tanto quanto o homem age por esse amor, mais age pelo inferno, portanto, também contra o Divino.
[4] Cumpre saber, além disso, que em todo mal existe a ira contra o Senhor e contra as coisas santas da igreja. Que isto seja assim é o que pude ver claramente pelos infernos, onde todos estão nos males e dos quais vêm todos os males. Ali, quando apenas ouviam nomear o Senhor, eles se inflamavam de veemente ira, não só contra Ele, mas também contra todos os que O confessam. Daí é que o inferno está diametralmente contra o céu e num esforço perpétuo de destruí-lo e de extinguir ali as coisas Divinas, que são os bens do amor e os veros da fé. Disso é evidente que os males se enraivecem contra os bens, e os falsos do mal contra os veros. Daí se vê, agora, que pela ‘ira’, na Palavra, é significado o mal em todo o complexo.
[5] Dá-se semelhantemente nas passagens que se seguem. Em Lucas:
“Ai das que estiverem gerando no ventre e das que estiverem amamentando naqueles dias, porque haverá grande angústia sobre a terra e ira no povo” (Lc. 21:23).
Essas palavras são a respeito da consumação do século, que é o último tempo da igreja. Que então o bem e o vero não possam ser recebidos é significado por ‘ai das que estiverem gerando no ventre e das que estiverem amamentando’; que o bem seja rejeitado por causa do mal que então domina na igreja e, também o vero seja rejeitado, por causa do falso, é significado por ‘porque haverá grande angústia sobre a terra e ira no povo’; ‘angústia’, aqui, é o mal dominante, e ‘ira’ é o falso dominante pelo mal, pois no fim da igreja os maus ficam oprimidos por causa do bem e enraivecidos por causa do vero.
[6] Em Isaías:
“Tão somente em Jehovah... há justiça e força; a Ele virão e ficarão envergonhados todos os que se inflamaram contra Ele” (Is. 45:24);
‘ficarão envergonhados todos os que se inflamaram contra Jehovah’ significa que todos os estiveram nos males e falsos se afastarão destes; ‘inflamar-se contra Jehovah’ significa estar nos falsos do mal.
[7] Em Moisés:
“Simeão e Levi são irmãos... na sua ira mataram um varão, e no seu bel-prazer jarretaram um boi. Maldita seja a ira deles, porque é veemente, e a inflamação deles, porque é dura. Dividi-los-ei em Jacob, e dispersá-los-ei em Israel” (Gn. 49:5-7);
por ‘Reuben’, ‘Simeão’ e ‘Levi’ são significadas a fé, a caridade e as obras de caridade, mas, aí, por ‘Reuben’ é significada a fé separada da caridade, donde não existe caridade nem obra alguma da caridade, pois essas três são coerentes, porque qual é a fé tal é caridade, e qual é esta, tal é a obra de caridade. Com efeito, são inseparáveis, e uma pertence à outra, de modo que uma é como a outra. E visto que Reuben foi amaldiçoado por causa do adultério com a escrava concubina de seu pai, por isso Simeão e Levi foram também rejeitados. A rejeição deles é significada por ‘serem divididos em Jacob e dispersos em Israel’. Ora, como a fé, que foi representada por Reuben, não devia ser aceita como a primeira coisa da igreja, mas o bem espiritual, que é o vero no entendimento e na vontade, por isso José foi recebido como primogênito da igreja, em lugar de Reuben, pois José representava o bem espiritual, que, em sua essência, é o vero no entendimento e na vontade. Daí se pode ver o que é significado pela ‘ira de Simeão e Levi, que era veemente’, e pela ‘inflamação deles, que era dura’, a saber, a aversão ao bem e ao vero, assim, o mal e o falso em todo o conjunto, pois quando a caridade se afasta da fé, então não há mais bem algum nem vero algum. (Mas essas coisas se vêm mais amplamente explicadas nos Arcanos Celestes, n. 6351-6361).
[8] Em Mateus:
Jesus disse: “Foi dito pelos antigos... Quem matar estará sujeito a juízo; mas digo-vos, quem se irar sem motivo contra seu irmão será sujeito a juízo” (Mt. 5:21, 22);
‘irar-se sem motivo contra seu irmão’ significa, também aqui, a inimizade e o ódio contra o bem e o vero. Aqueles em que há tal inimizade e tal ódio também matam continuamente pela intenção e pela vontade, pois realmente matariam, se somente lhes fosse permitido, isto é, se não os impedissem as leis e, daí, os temores por causa da pena e da vida, ou por causa da perda da reputação, da honra e do ganho,. Sem dúvida, o que o homem gera na mente, isto ele faz, quando lhe é permitido. Que ‘aquele que se irar sem motivo contra seu irmão estará sujeito a juízo’, assim como aquele que mata, é porque ‘irar-se’ significa pensar, ter intenção e querer o mal a outrem, e todo mal da vontade está na vida do espírito do homem, e retorna após a morte. Daí é que, então, ‘estará sujeito a juízo’, e o que é da intenção e da vontade é julgado como sendo feito. Mas não há necessidade de citar as muitas passagens sobre a significação de ‘ira’ e de ‘inflamação’ naqueles que estão no mal, porque está claro por si mesmo que todo mal encerra em si a ira contra o bem, pois quer extingui-lo e também quer matar aquele que está no bem, se não quanto ao corpo, por certo quanto à alma, o que se faz definitivamente pela ira ou com ira.
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