. “E dez chifres”. Que isto signifique muito poder vê-se pela significação de ‘chifres’, que é o poder do vero contra o falso e o mal, e, no sentido oposto, o poder do falso contra o vero e o bem (de que se tratou acima, n. 316 e 567); e pela significação de ‘dez’, que é tudo e todas as coisas, e também muitos e muitas coisas (de que também se tratou acima, n. 675). Daí se vê que por ‘dez chifres’ é significado muito poder. Que o ‘dragão’ tenha tido muito poder vê-se pela sequência, a saber, que por causa disso o ‘filho macho que a mulher pariu foi arrebatado para Deus’, que ‘a sua cauda arrastou do céu a terça parte das estrelas’ e também que ‘ele lutou contra Miguel e os seus anjos’; e, depois, que ‘suscitou Gog, Magog, e inúmeras nações em guerra contra os santos’.
[2] Que o ‘dragão’ tivesse tal poder era porque por ele se entendem os que separaram da fé os bens da caridade, que são as obras, e confirmaram isso pelo sentido da letra da Palavra, cujo sentido genuíno assim torceram e como que arrastaram do céu. E, no fim da igreja, de que se trata no Livro do Apocalipse, não há caridade. Daí, então, o dragão tem poder, porque, no fim da igreja, cada um quer viver para si, para o mundo e para sua inclinação, e poucos para o Senhor, o céu e a vida eterna. E o princípio da fé só, que é fé separada da caridade, favorece essa vida [???] e, assim como a corrente de um rio arrasta, ele desvia todos a assim crer e a assim viver. Daí é que no ‘dragão’, pelo qual se entendem tais pessoas e tais coisas, apareceram ‘dez chifres’.
[3] Foi dito anteriormente que os falsos do mal não têm poder algum, mas cumpre saber que os falsos do mal não têm poder alguma contra o vero do bem, pois o vero do bem procede do Senhor, e o Senhor tem todo o poder por Seu Divino Vero. Que, porém, os falsos do mal tenham poder, o qual é significado pelos ‘dez chifres do dragão’, é porque os falsos do mal prevalecem contra aqueles que estão nos falsos do mal, pois agem como um. E o homem está no mal e, daí, nos falsos pelo hereditário dos pais e, por conseguinte, pela vida ativa, principalmente no fim da igreja. E esses falsos do mal não podem ser expelidos do homem num só momento, mas pouco a pouco, porque, se o fossem num só momento, o homem expiraria, pois eles fazem a sua vida. E como o estado do homem é tal no fim da igreja, por isso os falsos do mal prevalecem, embora nada possam contra o vero do bem. O Senhor poderia, por Seu Divino Vero, num instante expelir os falsos do mal que estão no homem, mas isto seria lançar o homem num instante ao inferno, pois os falsos devem ser removidos antes, e quanto mais são removidos, mais se dá lugar para serem implantados os veros do bem e o homem ser reformado. Os mesmos que aqui se entendem pelo ‘dragão’ também se entendem pelo ‘bode’ que lutou contra o ‘carneiro’ em Daniel, capítulo 8; e também pelos ‘bodes’ em Mateus, capítulo 25, pois pelos ‘bodes’ aí são significados os que estão na fé separada da caridade, e pelo ‘carneiro’ e pelas ‘ovelhas’ os que estão na caridade.
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