AE 794

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E foi-lhe dada uma boca falando grandes coisas e blasfêmias”. Que isto signifique a doutrina que destrói os bens da Palavra e os seus veros completamente vê-se pela significação de ‘boca’, que é a doutrina, da qual vem a instrução, a pregação e o raciocínio (de que se tratou acima, n. 782); que a doutrina seja significada pela ‘boca da besta’ é porque no versículo logo precedente foi dito que ‘adoraram o dragão e a sua besta’, e por isso são significados o reconhecimento desse dogma e a recepção na doutrina, e porque foi dito também acima que ‘a boca dessa besta era como a boca de leão’, e por ela são significados a instrução, a pregação e o raciocínio, que são pela doutrina recebida; pela significação de ‘falar grandes coisas’, que é ensinar os males que destroem os bens da Palavra, pois ‘grande’, na Palavra, se diz do bem e, no sentido oposto, do mal, mas ‘muito’ se diz do vero e, no sentido oposto, do falso (vide acima, n. 336, 337 e 424); visto que pela ‘besta’ se entendem aqueles que por meio de raciocínios separam a fé da vida, e os que fazem isso destroem os bens da Palavra, e visto que por sua ‘boca’ é significada a doutrina deles, por isso, ‘falar grandes coisas’ significa destruir os bens da Palavra; e pela significação de ‘falar blasfêmias’, que é falsificar os veros da Palavra (de que se tratou acima, n. 778). Daí é evidente que ‘foi-lhe dada uma boca falando grandes coisas e blasfêmias’ significa a doutrina que destrói os bens da Palavra e falsifica os seus veros completamente. Se se diz ‘que falsifica os seus veros completamente’ é porque a falsificação da Palavra até a destruição do Divino Vero tal como está nos céus e no sentido espiritual da Palavra é significada pela ‘blasfêmia’ (vide acima, n. 778). É isto, pois, que significa falsificar os veros completamente.
[2] Foi dito que ‘a boca da besta falando grandes coisas’ significa a doutrina - e, daí, a instrução, a pregação e o raciocínio – que destrói os bens da Palavra. Dir-se-á, pois, por qual modo ela os destrói. Destrói principalmente pelo fato de ensinar que a fé sem as boas obras justifica e salva, e eles confirmam isso pelo raciocínio de que ninguém pode fazer o bem por si, e porque o bem que o homem faz por si não pode deixar de ser meritório. E isto eles também reforçam pela Palavra, principalmente pelo fariseu e pelo publicando orando no templo,
Que este último foi justificado somente por ter dito: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador”, e não foi justificado o fariseu que disse que não era roubador, injusto e adúltero como os outros, e jejuava duas vezes na semana, e dava dízimos de tudo o que possuía (Lc. 18:10-14),
e, também, por estas palavras do Senhor:
“Porventura” o senhor “agradecerá ao servo, que fez as coisas que lhe foram mandadas? Não creio. Assim também vós, quando fizerdes todas as coisas que vos foram mandadas, dizei: De qualquer modo, somos servos inúteis, porque fizemos o que devíamos fazer” (Lc. 17:9, 10).
Mas aqueles que concluem que nada há de justificação e de salvação nas boas obras, mas na fé só, erram imensamente, pois não sabem o que são as boas obras. Porque há as obras que são feitas pelo homem – estas não são boas – e há as obras que são feitas pelo Senhor por meio do homem, e estas são boas. Na forma externa elas parecem semelhantes, mas são inteiramente dessemelhantes na interna. As obras que o fariseu enumerou eram obras dele e, assim, também meritórias, semelhantemente às obras que fazem por mandado os servos, que, não obstante, são chamados inúteis.
[3] Agora se dirá, pois, de que modo as obras são feitas pelo homem, de que modo as obras sã feitas pelo Senhor no homem e de que modo estas são distinguidas daquelas. Mostrou-se acima (n. 790) que o homem tem duas mentes, uma espiritual e a outra natural. A mente espiritual é o que se chama homem interno e espiritual, e a mente natural é o que se chama homem externo e natural. E visto que o homem é interno espiritual e externo natural, e o interno é conjunto ao céu e o externo conjunto ao mundo, segue-se que tudo o que o homem faz desse interno por meio do externo ele o faz do céu, isto é, do Senhor por meio do céu; mas tudo o que o homem faz do externo sem o interno ele o faz de si. Isto é o que se entende pelas palavras do Senhor em Lucas:
“Ora, vós, fariseus, limpais o externo do copo e do prato, mas vosso interno está cheio de rapina e malícia. Insensatos! Quem fez o externo também não fez o interno? Dai, porém, de esmola as coisas que estão dentro, e eis que todas as coisas vos serão limpas” (Lc. 11:39-41).
Diz-se externo ‘do copo e do prato’ e o interno deles porque pelo ‘copo’ se entende o mesmo que pelo ‘vinho’, e pelo ‘prato’ o mesmo que pela ‘comida’. Pelo ‘vinho’ é significado o vero, e pela ‘comida’ é significado o bem. Também se diz ‘dai de esmola’ e por esmola são significados o amor e a caridade. Disso é evidente que tudo o que o homem faz somente pelo externo é imundo, mas tudo o que faz pelo interno purificado pelo externo é limpo, pois este vem do Senhor, mas aquele, do homem. Exemplos, porém, ilustrarão este assunto. O interno é fazer o bem por causa do bem, falar o vero por causa do vero, agir sinceramente por causa da sinceridade, e fazer o que é justo por causa do justo. Quem faz o bem por causa do bem, esse o faz pelo bem, assim, pelo Senhor, que é o Bem mesmo e de Quem vem todo bem. Quem fala o vero por causa do vero, esse fala o vero pelo vero, assim, pelo Senhor, que é o Vero mesmo e de Quem vem todo vero. Semelhantemente, quem age sinceramente por causa da sinceridade e faz o que é justo por causa do justo, pois a sinceridade é o bem e vero moral, e o justo é o bem e vero civil, e todo bem e vero vem do Senhor e não do homem, porque são feitos do interno pelo externo. Se, porém, o homem faz e fala o bem, o vero, a sinceridade e o que é justo por causa de si e do mundo, ele faz e fala isso por si, porque o faz do homem externo sem o interno, e esses feitos ou obras são todos maus; e se neles se considera o céu, são meritórios, sendo, todos, iníquos. Se essas obras são oriundas do Senhor ou se são oriundas do homem é o que ninguém no mundo pode discernir, porquanto umas e outras parecem semelhantes na forma externa, mas são discernidas pelo Senhor, somente. Todavia, após a vida do homem no mundo, desvenda-se de que origem elas são (Mt. 10:26, 27; Mc. 4:22; Lc. 8:17; 12:2, 3, 8, 9). De modo, porém, é dado ao homem um interno e um externo a partir do interno, vide acima (n. 790).
[4] Por aí se pode ver agora que, se o homem cumprisse todas as coisas da lei, por exemplo, se desse muito aos pobres, fizesse bem aos órfãos e às viúvas, prestasse auxílio aos indigentes, mesmo se desse de comer aos famintos, de beber aos sedentos, acolhesse os estrangeiros, vestisse o nu, visitasse os doentes, convertesse gentios, frequentasse templos, ouvisse devotamente as pregações, participasse frequentemente do sacramento da Ceia todos os anos, dedicasse tempo às preces e muitas outras coisas, e seu interno não fosse purificado do amor de dominar e do orgulho da própria inteligência, do desprezo aos outros, do ódio e da vingança, da astúcia e da malícia, da insinceridade e da injustiça, da lascívia do adultério e dos demais males e dos falsos daí, todas essas obras seriam, contudo, hipócritas, e viriam do homem mesmo e não do Senhor. Essas mesmas obras, porém, quando o interno foi purificado, são todas boas, porque são do Senhor no homem. Isto me foi testificado por mil exemplos no mundo espiritual. Ouvi que a muitos foi concedido se lembrar dos atos de sua vida no mundo e enumerar os bens que tinham feito, mas, quando se abria o interno deles, descobria que estava cheio de todo mal e do falso daí, e então se lhes revelava que as boas obras que eles enumeraram eles as tinham feito por si, porque era por causa de si e do mundo. É diferente, porém, naqueles que se abstiveram pela Palavra de fazer os males e, em seguida, fugiram deles e os tiveram em aversão por serem pecados e contra o amor a Deus e a caridade para com o próximo. As obras desses, ainda que na forma externa tenham parecido semelhantes às obras daqueles de que se tratou logo acima, e também semelhantemente percebidas como se tivessem sido feitas por si, foram todas boas. São essas obras que na Palavra se entendem pelas ‘obras’ que fazem o homem espiritual e a felicidade na eternidade, e são essas que não podem de modo algum ser separadas da fé, pois a fé, se dela as obras fossem separadas, seria morta, e a fé morta é a fé do falso oriundo do mal.

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