AE 800

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E os que habitam no céu.” Que isto signifique os bens e veros espirituais, dos quais vem o casamento celeste, vê-se pela significação de ‘blasfemar os que habitam no céu’, que é falsificar os bens e veros espirituais. Por aqueles que habitam no céu entendem-se os anjos. Como, porém, os anjos são anjos por causa da recepção do Divino Bem e do Divino Vero, e como o sentido espiritual é abstraído das pessoas, por isso, pelos ‘anjos’ aqui são significados os bens e veros pelos quais eles são anjos. Estes são significados pelos ‘anjos’ também em outras passagens na Palavra (vide acima, n. 130 e 302). Que sejam os bens e veros espirituais que são significados por eles é porque todos no céu são espirituais, e pensam e falam espiritualmente. Dá-se diferentemente, porém, com os homens nas terras. Como estes são naturais, pensam e falam naturalmente, pelo que também os bens e veros com eles são naturais. E visto que o bem e o vero se amam mutuamente e, por causa disso, não podem deixar de serem conjuntos, por isso também se diz: dos quais vem o casamento celeste. Isto é também significado por ‘aqueles que habitam no céu’, porque todos ali estão nesse casamento, pelo que também o céu é comparado na Palavra a um casamento. Que haja um casamento semelhante também em cada coisa da Palavra vê-se acima (n. 238, no fim, 288, 484 e 724; e que o anjo não possa ser um anjo do céu a menos que esteja nesse casamento, ou, a menos que nele haja esse casamento, semelhantemente ao homem da igreja, n. 660. Por aí é de novo evidente que o homem que separa da fé as boas obras não pode ser um homem da igreja. Por aí se vê agora que ‘blasfemar os que habitam no céu’ significa falsificar os veros e bens espirituais, dos quais vem o casamento celeste.
[2] Nos dois artigos precedentes tratou-se daqueles que separam da fé o bem da vida, e por esse modo falsificam de tal maneira a Palavra que fecham o céu para si mesmos. Tratou-se, depois, dos que adjuntam à fé os bens da vida, e por esse modo não falsificam tanto a Palavra a ponto de fecharem o céu para si mesmos. Agora segue-se em ordem que deve-se dizer alguma coisa daqueles que, embora estejam nas igrejas onde se reconhece a fé, só, não falsificam, todavia, a Palavra. Estes são: (1.) Os que não separam da fé a vida, mas conjungem, crendo que a fé e a vida fazem um, assim como a afeição e o pensamento, como a vontade e o entendimento, como o calor e a luz do tempo da primavera e do verão – de cuja conjunção existe toda germinação – e como o vero e o bem, se em ougar da fé se tomar o vero e em lugar da vida, o bem. Da conjunção destes se vê na Doutrina da Nova Jerusalém. Esses afirmam em si mesmos que ninguém que vive no mal pode ter a fé, mas quem vive no bem; e que quem vive no mal não pode receber a fé a menos que faça a penitência da vida, examinando seus males e desistindo deles. Também, que quem vive no mal não pode em seu espírito ter outra fé senão a fé do falso, por mais que de boca confesse a fé do vero. Aqueles que, portanto, conjuntam a vida e a fé por confissão e obra, a vida deles é a caridade, e a fé é o pensamento que assim é em verdade. A fé desses é tanto mais espiritual quanto mais conhecem os veros da Palavra e vivem segundo eles, pois a fé espiritual se torna da vida, e quanto mais o homem por aí se torna espiritual, mais lhe é aberto o céu.
[3] Tampouco falsificam a Palavra aqueles que não sabem nem querem saber que a fé não é outra coisa senão crer nas coisas que estão na Palavra e fazê-las, pois esses veem que crer e fazer é a fé, e crer e não fazer é a fé de boca e não de coração, estando, por conseguinte, fora do homem e não dentro dele. Esses, se praticam, creem que a fé é crer que há um Deus, que há um céu e um inferno, que há uma vida após a morte, que amar a Deus e amar o próximo e cumprir os mandamentos na Palavra. Então, quanto mais desistem dos males, fogem deles e os tem em aversão por serem pecados, mais fazem isso por Deus e não por si mesmos. Eles também creem que o Senhor veio ao mundo para salvar os que creem n’Ele e praticam as coisas que Ele ensinou.
[4] (3.) Esses, visto que não sabem nem querem saber que a fé é outra coisa, não reconhecem a justificação e a salvação pelo único fato de se crer que Deus Pai enviou Seu Filho, para que pelo sangue d’Ele fizesse propiciação, redenção e salvação. Com efeito, eles percebem que somente crer nisto e não viver vida da fé alguma, que é a caridade, mais condena do que justifica. Que mais condena é porque isto não é fé do vero, mas a fé do falso, pois é a fé que existe uma misericórdia imediata, que é a reforma e a regeneração sem os meios, o que é a imputação, a propiciação e a intercessão, nenhuma das quais, porém, existe. E, além disso, não é verdadeiro que o Filho nascido do Pai de eternidade tenha sido enviado ao mundo; nem é verdadeiro que o Pai Se faz propício pelo sangue do Filho; nem é verdadeiro que o Senhor transferiu os pecados para si e desse modo redimiu; além de muitas outras coisas. Enquanto essas coisas são aparência de vero do sentido da letra da Palavra, pode-se dizer e também pensar nelas, mas não confirmá-las até a destruição do vero genuíno que está no céu e que a doutrina da igreja oriunda da Palavra pode ensinar. Os que assim põem todas as coisas da fé nessa confissão não somente rejeitam para o lado todos os veros, que são inumeráveis e dos quais os anjos e os homens têm vida e sabedoria, e põem toda a teologia em algumas expressões enunciadas com confiança, nas quais não existem veros, mas, também, a fim de confirmar essas expressões, não podem deixar de falsificar a Palavra e, desse modo, fechar o céu para si mesmos. Todavia, a respeito deste assunto se dirá mais plenamente em outro lugar. Estas são, pois, as explicações a respeito daqueles que falsificam a Palavra e daqueles que a não falsificam.
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