. [Vers. 8] “. E adoraram a besta todos os que habitam sobre a terra”. Que isto signifique a necessidade de reconhecimento por aqueles que nasceram dentro da igreja vê-se pela significação de ‘adorar’, que é reconhecer e crer que assim é, e, daí, receber isto na doutrina e no culto; que essas coisas sejam significadas por ‘adorar’ pode-se ver pelo que foi dito acima (n. 789 e 790), onde se explicou o que é significado por ‘adoraram o dragão, que deu autoridade à besta’, e ‘adoraram a besta’; que tenham reconhecido por necessidade é evidente pelo que foi dito e mostrado no artigo há pouco precedente; pela significação de ‘os que habitam sobre a terra’, que é por aqueles que nasceram dentro da igreja, pois pela ‘terra’ é significada a igreja, e pelos ‘que habitam sobre ela’ são significados o que estão e vivem aí. Que se entendam os que nasceram ali é porque cada um tem a religião de sua pátria, principalmente pelo fato de ter sido criado nela e, depois, ter se confirmado nela pelas pregações, especialmente pelo fato de que poucos há que examinam a doutrina da igreja e a Palavra entendida interiormente, crendo que tais coisas transcendem a compreensão e, também, que não são para serem vistas e entendidas, mas somente cridas. Daí é que têm necessidade de reconhecimento aqueles que nasceram dentro da igreja, a qual é significada por ‘adoraram a besta todos os que habitam sobre a terra’.
[2] Que isto seja assim pode-se ver principalmente pela fé recebida, à qual chamam de única fé que salva, que Deus Pai enviou Seu Filho ao mundo para que, pela paixão da cruz, fizesse propiciação, redenção e salvação. Essa fé, se for segundo a ideia dos defensores da fé separada da vida e, daí, segundo as pregações pela doutrina, é uma fé nula, como se pode ver por todas e cada uma das coisas que se encerram nessa fé e que dela se seguem como consequência, as quais são:
(i.) Que haja uma propiciação, a saber, a propiciação de Deus Pai pela paixão ou pelo sangue de Seu Filho;
(ii.) Que haja uma misericórdia ou comiseração de Deus Pai por causa do Filho.
(iii.) Que o Senhor teria carregado as nossas iniquidades e, daí, libertado delas.
(iv.) Que exista o imputativo e, assim, que haja a imputação do mérito do Senhor, pela qual somos salvos.
(v.) Que haja uma intercessão do Senhor junto ao Pai.
(vi.) Que haja redenção e salvação sem os meios da vida e da fé e, daí, que haja uma misericórdia imediata.
(vii.) Que nessa fé não haja religião, mas haja o vácuo e vazio.
(viii.) Que tampouco haja nela alguma fé no Senhor, nem reconhecimento do Seu Divino no Seu Humano.
(ix.) Consequentemente, que a certeza dessa fé e a confiança, que hoje são recebidas como a única fé que salva, sejam palavras vazias.
(x.) Que a fé que salva seja inteiramente outra.
Visto que, porém, está na boca de quase todos os que são da igreja que o Senhor sofreu a paixão da cruz por causa de nossos pecados, e que os transferiu para Si e os carregou, e por esse modo não somente reconciliou o Pai, mas também nos redimiu do inferno, e por esse mérito do Senhor somos salvos se tão somente crermos nisso com certeza e confiança, é preciso que seja examinado primeiro se essas coisas devem ser entendidas segundo a opinião comum.
[3] (i.) No que concerne, pois, ao primeiro ponto, que haja uma propiciação, a saber, a propiciação de Deus Pai pela paixão ou pelo sangue de Seu Filho. Isto implica na rejeição ou alienação do gênero humano por alguma ira ou vingança, que se chama justiça vindicativa, que teria sido imposta por Deus Pai ao Seu Filho, para que, por Sua paixão da cruz, o gênero humano fosse reconciliado e, assim, propiciado. Quem não vê que rejeitar de Si o gênero humano, ou sua alienação pela justiça de vingança é contra a essência Divina mesma, que é o Amor mesmo, a Misericórdia mesma e o Bem mesmo?
[3] (i.) No que concerne, pois, ao primeiro ponto, que haja uma propiciação, a saber, a propiciação de Deus Pai pela paixão ou pelo sangue de Seu Filho. Isto implica na rejeição ou alienação do gênero humano por alguma ira ou vingança, que se chama justiça vindicativa, que teria sido imposta por Deus Pai ao Seu Filho, para que, por Sua paixão da cruz, o gênero humano fosse reconciliado e, assim, propiciado. Quem não vê que rejeitar de Si o gênero humano, ou sua alienação pela justiça de vingança é contra a essência Divina mesma, que é o Amor mesmo, a Misericórdia mesma e o Bem mesmo? Tal vingança não existe sequer em algum anjo, dificilmente num homem probo e ainda menos em Deus. Quem não vê também que é cruel pensar esse vindicativo tenha sido imposto ao Filho por Seu Pai, ou que Ele o tomou sobre Si, e que pela visão e recordação disso Deus Pai tenha misericórdia e não pelo Divino Amor mesmo, que em sua essência é infinito, eterno e imediato para com todo o gênero humano? Por isso não sei se alguém pode de Deus e com Deus pensar que foi rejeitado por Deus e, por esse motivo, pela vontade do Pai o Filho é condenado e por isso houve um propiciatório e o trono da graça. Além disso, a justiça é um atributo Divino, mas não uma justiça vindicativa, e ainda menos em outrem por causa de outro. Se isto não é justiça, tampouco é da Divina ordem ser salvo por causa de outro, mas por outro, e tampouco Deus pode ser reconciliado por outro modo senão pela penitência do homem mesmo. Que ser salvo por meio do Senhor e também por Sua paixão na cruz e, assim, pelo Senhor, seja propiciação e expiação ver-se-á na sequência.
[4] (ii.) Que não haja uma misericórdia ou comiseração de Deus Pai por causa do Filho. A súplica habitual nas igrejas e pelos homens da igreja em casa e fora de casa, quando estão no culto de piedade, é ‘que Deus Pai tenha misericórdia de nós por causa do Filho e por causa de Sua paixão na cruz’. Essa súplica flui da fé aceita a respeito da propiciação ou reconciliação do Pai pelo Filho (de que se tratou logo acima), e também da doutrina da igreja a respeito da justificação pela fé só, sem as boas obras. E como os defensores e vindicadores dessa doutrina separam da fé a vida, que é das boas obras, não puderam reconhecer outra fé que salva senão que Deus Pai enviou o Seu Filho e por Sua paixão da cruz moveu-Se à misericórdia. Assim, essa súplica foi aceita hoje pelo povo como a única voz que entra no céu e comove Deus, mesmo se o homem a enunciasse com a certeza do reconhecimento somente na hora antes da morte. Que, todavia, essa súplica nada tenha da vida do vero e do bem pode-se ver pelas coisas há pouco mostradas acima a respeito da propiciação e da reconciliação e, daí, da misericórdia do Pai, e também pelas que serão ditas abaixo a respeito de o Senhor carregar nossas iniquidades, da imputação de Seu mérito, da intercessão, da redenção e da salvação sem os meios da vida. Aqui se dirá somente que jamais foi concedido a homem alguma da igreja ir a Deus Pai e rogar a Ele por causa do Filho, pois deve-se aproximar do Senhor e a ele rogar, porquanto ninguém vem ao Pai senão pelo Senhor e no Senhor, e o Senhor, igualmente ao Pai, é Deus infinito, eterno, incriado e Todo-poderoso, nenhum destes é primeiro e último, nem maior e menos, mas são inteiramente iguais. Que ninguém venha ao Pai senão pelo Senhor é o que Ele ensina em João:
“Ninguém jamais viu a Deus; o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, Ele O revelou” (Jo. 1:18);
no mesmo:
“Nunca ouvistes a voz” do Pai, “nem vistes o Seu parecer” (Jo. 5:37);
em Mateus:
“Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho quer revelar” (Mt. 11:27);
em João:
“Ninguém viu o Pai, a não ser quem está em Deus; [Esse] viu o Pai” (Jo. 6:46);
no mesmo:
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai a não ser por Mim” (Jo. 14:6).
Que ninguém venha ao Pai a não ser no Senhor é porque o Pai e ele são um, como também o ensina em João:
“Se Me conhecêsseis, também conheceríeis Meu Pai;... quem Me vê, vê o Pai.”... Felipe, “Não crês que Eu estou no Pai e o Pai em Mim? ... Crede em Mim, que Eu estou no Pai, e o Pai em Mim” (Jo. 14:7, 10, 11);
no mesmo:
“O Pai e Eu somos um; ...para que conheçais e creiais que Eu estou no Pai e o Pai em Mim” (Jo. 10:30, 38).
Acresce que
O Senhor é o Deus do céu e da terra, como Ele mesmo ensina (Jo. 3:35; 17:2; Mt. 11:27; 28:18),
e, assim, que é a Ele que se deve ir. Cumpre saber, também, que a menos vá a ele, o homem não pode pensar com os anjos, porque todo pensamento angélico sobre Deus é sobre Deus Homem; eles não podem pensar diferentemente sobre Deus e, consequentemente, sobre as coisas Divinas, porque os seus pensamentos se propagam ao redor pelo céu, e o céu é céu na forma de Homem. A respeito dessas coisas, porém, mais se dirá em outra passagem.
[5] (iii.) Que o Senhor não teria carregado as nossas iniquidades e, daí, libertado delas, segundo a fé vulgar, que é que o Senhor transferiu a Si os pecados do mundo, lançou-os ao inferno e assim os suportou. Eles concluem isto pelas palavras de João a respeito de Jesus:
“Eis o Cordeiro de Deus que carrega os pecados do mundo” (Jo. 1:29),
e por Isaías, onde se trata do Senhor:
“As nossas enfermidades Ele tirou... e” nossas “iniquidades Ele carregou” (Is. 53:4, 11).
Mas ainda não se entendeu nas igrejas o que é significado por ‘carregar as iniquidades’; por isso se dirá. Foi por ordem Divina que os profetas representassem o estado de sua igreja e por aí se conhecesse a sua qualidade, como se pode ver pelo seguinte: A Isaías foi ordenado
Andar nu e descalço por três anos, para sinal e prodígio (Is. 20:2, 3);
desse modo ele representava que não havia mais quaisquer veros na igreja; isto é significado por ‘andar nu e descalço’. A Oséias foi ordenado
Tomar para si uma mulher de escortações, e filhos de escortações, porque escortando escortou-se a terra (Os. 1:2 e seq.);
pela ‘mulher de escortações’ era significada a igreja que falsificava os veros da Palavra. E a Ezequiel foi ordenado
Tomar para si um tijolo e esculpir sobre ele Jerusalém, e cerca-la, e deitar-se sobre o seu lado esquerdo por trezentos e noventa dias, e em seguida sobre o lado direito por quarenta dias. Depois lhe foi ordenado também comer um bolo de cevada feito com esterco de boi, e foi dito que “assim faltariam pão e água” em Jerusalém e definhariam por causa da iniquidade deles (Ez. 4:1 ao fim),
pelo que era significado que a igreja estava sem os bens e veros e estava em meros falsos do mal. E foi dito que
Desse modo carregasse a iniquidade da casa de Israel (Ez. 4:5),
pelo que, no entanto, ele não tirou as iniquidades deles, mas somente as representou, e isto porque o ‘profeta’ significava a doutrina da Palavra, assim, a igreja quanto à doutrina e, daí, o culto. O mesmo se entende também por ‘carregar as iniquidades’ onde se trata do Senhor, que foi o Maior Profeta, pois Ele representou em Si de que maneira a Igreja Judaica ultrajantemente trataria o Divino Vero ou Palavra, porque era Ele mesmo. Por isso foi que O açoitaram, cuspiram em Sua face, feriram-No com uma cana, puseram-Lhe uma coroa de espinhos, deram-Lhe a beber vinagre, dividiram as Suas vestes e, finalmente, O crucificaram; todas essas coisas eram representativas do estado da igreja deles (vide acima, n. 83, 195, 627 e 655). É isto, pois, que é significado por ‘carregar as iniquidades’, também igualmente ao fato de Ele ter suportado tentações gravíssimas mais do que os outros. Todavia, transferir a si os pecados dos outros e tirá-los por meio de dores e castigos admitidos em si é contra a natureza da abolição dos pecados, porque os pecados não são abolidos senão pela penitência de vida daquele que pecou. Tirá-los por derivações de outro em si é um dogma dos católicos, no qual não há o vero.
[6] (iv.) Que não exista um imputativo e, assim, nenhuma imputação do mérito do Senhor. Que não exista é porque a salvação por imputação é contra as leis da ordem Divina descritas na Palavra, que são que o homem aprenda o que é o pecado de que deve fugir e o que é vero que deve praticas, e, se viver contra os veros, deve praticar a penitência. Estas coisas, juntamente com todas e cada uma das que as doutrinas das igrejas devem ensinar pela Palavra, seriam supérfluas se o homem fosse salvo por alguma palavra enunciada pela confiança da fé, por exemplo, que Deus tenha misericórdia por causa de Seu Filho e pela paixão de Sua cruz, e assim lhe fosse imputado o mérito do Senhor. Assim o homem poderia viver no mal, cometer adultérios, roubar, agir fraudulentamente, praticar ódios e vinganças, caluniar e muitas outras coisas, porque é salvo não pelas boas obras, mas somente pela fé, que é completamente abstraída de todo da vida. E, todavia, é uma blasfêmia dizer que o homem pode viver no mal e, não obstante, viver pelo Senhor. É também uma contradição que o homem deve fugir dos males e deve fazer os bens e, contudo, ser salvo pela fé, só, do mérito imputado. O mérito do Senhor é que pelo próprio poder subjugou os infernos e glorificou o Seu Humano. Por esse meio se pôs em puder de salvar todos os creem n’Ele e fazem o que ele ensinou. Esse mérito não pode ser adjudicado e imputado a pessoa alguma, ainda menos pelo Pai, porque é o mérito do próprio Senhor; e, também, a salvação vem do Senhor, assim, pelo Senhor e não por causa do Senhor. Em suma, não se pode adjudicar o mérito de outro, com quem não se compartilha a mesma sorte por sua vida, segundo a qual cada um é ou remunerado ou punido, mas a vida vem do Senhor e esta segue de Seu mérito. O imputativo também é contra a essência do Divino Amor, que é para com todos, e imputar é amar um e não o outro a não ser por causa do que é amado. E é, também, contra a justiça, que é cada um tenham recompensas quanto mais viver pelo Senhor.
[7] (v.) Que haja uma intercessão do Senhor junto ao Pai é algo que entra nas ideias dos homens inteiramente simples, que não podem pensar a respeito de três pessoas da Divindade senão como de três assentados juntos e falando que assim deve ser, e um comove o outro a ter misericórdia por causa de si, que é interceder. Os mais eruditos, porém, veem que por intercessão se entende uma recordação do amor, porque uma pessoa tem a mesma essência ou substância que outra, e o mesmo amor, assim, a mesma misericórdia, que não é estimulada ou trazida à memória por meio de algum rogo.
[8] (vi.) Que haja redenção e salvação sem os meios da vida e da fé e, daí, que haja uma misericórdia imediata. Sabe-se que os veros pertencem à fé e os bens pertencem à vida, e que sem os veros não há fé alguma, assim como estes, que há um Deus, que o Senhor é o Salvador do mundo, que há um céu e um inferno, que há uma vida após a morte, que a Palavra é santa, que se deve crer nas coisas que há na Palavra e praticá-las, que a Santa Ceia é o ato mais santo do culto, e muitas coisas semelhantes. Estas devem pertencer à fé. Semelhantemente, que sem os bens não há vida alguma da fé, pois o Senhor disse:
Quem ouve e não pratica, esse é como o homem insensato, que edifica a casa sobre o humo sem alicerce; mas aquele que ouve e pratica é homem prudente, como o que edifica a casa sobre alicerce de rocha (Mt. 7:24, 26).
Estas e outras semelhantes, tanto quanto devem ser cridas, são meios e se chamam da fé, e tanto quanto devem ser praticadas, são meios e se chamam da vida, sem os quais o homem não pode ser salvo. Elas seriam coisas vãs, se em seu lugar houvesse somente isto, que é chamado fé: que o homem é salvo pela misericórdia só do Pai por causa do Filho e pela imputação de Seu mérito. Que não exista misericórdia imediata, mas mediata, e que, não obstante, o homem é conduzido pelo Senhor por pura misericórdia, desde a infância até a sua velhice, e, depois, na eternidade, vê-se na obra O Céu e o Inferno (n. 521-527). Por conseguinte, tampouco existe salvação imediata. Disto se segue que a redenção não é outra coisa senão que o Senhor redimiu do inferno aqueles que creem n’Ele e fazem as coisas que Ele prescreveu; esses, todavia, não puderam ser salvos sem o Seu advento ao mundo, porque sem o Seu Advento não poderiam crer n’Ele nem fazer as coisas que Ele prescreveu e, assim, viver por Ele. Que sejam esses os que se entendem pelos ‘redimidos’ na Palavra ver-se-á em outra passagem.
[9] (vii.) Que nessa fé não haja religião, mas haja o vácuo e vazio. O que é a religião senão que o homem viva para que venha ao céu, e para que saiba de que maneira deve viver? Saber essas coisas se chama doutrina, e crer nelas e viver segundo elas se chama religião. Pela doutrina o homem deve saber não somente as coisas em que deve pensar, mas também as que devem ser feitas. O homem deve pensar para fazer, mas não pensar no que implica em nada fazer. E essa fé é pensar sem o fazer, de sorte que deve ser chamada fé cogitativa somente, quando se implora a misericórdia só, porque o Filho de Deus sofreu por ele e tomou os pecados do mundo, assim o redimiu e livrou do inferno e, ao mesmo tempo, que o mérito do Filho de Deus lhe seja então adjudicado. Pense quem quiser e puder, se nisso há alguma coisa da Palavra, onde tantas vezes se fala em crê-las e fazê-las, por conseguinte, se nessa fé há alguma coisa da igreja ou da religião. Pois, nessas coisas que foram citadas, onde se acham os veros que devem ser da fé, e onde se acham os bens que devem ser da vida, que devem constituir a genuína doutrina da Palavra e das quais vem a teologia no mundo cristão? E visto que tais coisas não existem naquela fé, segue-se que não somente é uma fé vazia e vácua, mas também uma fé não do vero. Muitos ficam admirados no mundo espiritual, e todos no céu, que a teologia do mundo cristão seja reduzida a tal vazio e vacuidade a tal ponto de a terem resumido num enunciado do pensamento que existe também nos maus, pelo temor do inferno na hora da morte. Daí, com a maioria dos reformados no mundo cristão verifica-se a mesma vacuidade que existe com os católicos. Considerem, se quiserem, se é possível eles terem alguma sorte entre os anjos do céu, cuja inteligência vem dos veros na Palavra e cuja sabedoria vem dos veros no ato, que se chamam bens. Isto é, também, o que se entende pelas palavras do Senhor:
“O Filho do homem, quando vier, porventura encontrará fé na terra?” (Lc. 18:8).
[10] (viii.) Que tampouco haja nela alguma fé no Senhor, nem reconhecimento do Seu Divino no Seu Humano. Porque, quem suplica ao Pai para que tenha misericórdia por causa de seu Filho, esse vai ao Pai e não ao Senhor, quando, porém, é ao Senhor que se deve ir, pois ele é o Deus do céu e da terra. E a Palavra ensina que não se pode ir ao Pai senão pelo Senhor e no Senhor (como foi mostrado acima), portanto, que a fé deve ser no Senhor, pois o Senhor disse:
“Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem, porém, não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece nele” (Jo. 3:36);
depois,
“Esta... é a vontade do Pai, que Me enviou, que todo aquele que vê o Filho e crê n’Ele tenha a vida eterna, e o ressuscitarei no derradeiro dia” (Jo. 6:40);
e, também,
“Jesus... disse: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que morra, viverá; mas todo aquele que vive, e crê em Mim, não morrerá na eternidade” (Jo. 11:25, 26);
e outras passagens. Crer n’Ele e não ir a Ele, mas rogar ao Pai por causa d’Ele não é crer n’Ele, pois tudo da fé vai para aquele em quem o homem crê. Por isso a Felipe foi negado ir ao Pai e vê-lo, e foi dito:
Que ver o Senhor é ver o Pai (Jo. 14:7-11).
Daí também foram curados de doenças todos os que suplicaram ao Senhor para que Ele tivesse misericórdia deles, e tiveram fé n’Ele. E também foram curados os filhos de Israel no deserto que olharam para a serpente de bronze, a qual representava o Senhor quanto ao último em Seu Humano, que é chamado sensual. Além disso, no mundo espiritual toda visão e todo pensamento conjungem pelo reconhecimento, mas a visão no Pai a ninguém conjunge, porquanto o Senhor disse:
“Nunca ouvistes a voz” do Pai, “nem vistes o Seu parecer” (Jo. 5:37).
[11] Acrescente-se que, quem suplica ao Pai que tenha misericórdia por causa do Filho não tem a respeito do Senhor outra ideia senão como um homem comum, pois O vê abaixo do Pai, portanto, como o homem vindo de Maria, que sofreu a cruz, pela qual há a misericórdia. Daí separa o Seu Divino do Seu Humano, o que, no entanto, a doutrina do Concílio de Nicéia sobre a Trindade não separa, porque esta ensina que o Divino e o Humano do Senhor não são duas, mas uma só Pessoas, e que são como a alma e o corpo no homem.
[12] Mas os que olham para o Pai, ainda que reconheçam o Divino do Senhor, não vão, todavia, a Ele, põem o Divino junto ao Pai, acima de Seu Humano, e assim veem o Seu Humano sem o Seu Divino que, contudo, é a Sua alma. Daí é que a maioria hoje confessa de boca o Divino do Senhor, mas poucos reconhecem de coração. E quem não reconhece o Divino do Senhor em Seu Humano, e assim olha para Ele quando suplica, não pode ter conjunção com o céu. Disto se segue que nessa fé, a saber, que o Pai tenha misericórdia por causa do Filho, não há fé alguma no Senhor, nem reconhecimento de Seu Divino em Seu Humano. Isto é, também, o que o Senhor predisse a Pedro, que no fim da igreja Ele não seria mais reconhecido.
[13] (ix.) Consequentemente, que a certeza dessa fé e a confiança, que hoje são recebidas como a única fé que salva, sejam palavras vazias. É porque a certeza dessa fé é uma certeza natural, na qual nada há de espiritual, porque nada há do vero e do bem, que são da fé e da vida. Por isso, se for confirmada pelos eruditos, pela confirmação ela pode destruir o vero do céu e, assim, exclui o homem do céu. Nesse vazio termina a fé só separada recebida nas igrejas, ou a fé separada dos bens da vida. Essa fé, embora vazia, enche, todavia, toda a teologia do mundo cristão. Assim é que os instruídos da igreja, quando vêm ao mundo espiritual após a morte, estão em tantos falsos que mal conhecem algum vero genuíno. Dá-se diferentemente, porém, com aqueles que não confirmaram em si tais coisas e ao mesmo tempo viveram alguma vida da fé, que é a caridade. Esses podem ser instruídos nos veros da fé, e, quando foram instruídos, podem ser recebidos entre os anjos no céu. Com efeito, uma coisa é crer naquilo por uma fé confirmada e, assim, de coração, e outra inteiramente diferente é crer por uma fé não confirmada. (x.) Que a fé que salva seja completamente diferente tratar-se-á no que vem logo a seguir.
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