. “Cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro.” Que isto signifique de todos aqueles que não se tornaram espirituais por meio da regeneração pelo Senhor vê-se pela significação de ‘nomes’, que são suas qualidades, pois pelo ‘nome’ na Palavra é significada a qualidade da coisa e do estado, e isto porque no mundo espiritual não há nomes de pessoas como no mundo natural, mas cada um ali é nomeado segundo a sua qualidade (sobre este assunto vide acima, n. 676); e pela significação de ‘escritos no livro da vida do Cordeiro”, que é estar no amor e na fé no Senhor (de que se tratou acima, n. 199, 222 e 299), assim também, tornar-se espiritual por meio da regeneração por Ele. Com efeito, os que estão no amor e na fé no Senhor pelo Senhor se tornam espirituais, pois o amor e a fé deles são espirituais, e eles também são chamados regenerados, e se entendem por aqueles ‘cujos nomes foram escritos no livro da vida do Cordeiro’. Daí se pode ver que pelos ‘nomes escritos no livro da vida do Cordeiro’ não se entende que os seus nomes estejam ali, mas que assim é a sua qualidade, a saber, que se tornaram espirituais por meio da regeneração pelo Senhor.
[2] No artigo precedente se mostrou o que é a fé que foi recebida pelo povo comum na igreja, a saber, crê-se que Deus Pai enviou o Filho para que por Ele houvesse propiciação, misericórdia, redenção e salvação; depois, que o Filho de Deus carregou nossas iniquidades, intercede por nós e adjudica Seu mérito aos que suplicam com certeza e confiança. Que todas essas coisas sejam palavras vazias em que nada há de vero segundo a opinião dos eruditos e, assim, nada de salvação, foi exposto num artigo acima. Que sejam palavras vazias, nas quais nada há de vero, pode-se ver pela Palavra a respeito da razão do advento do Senhor ao mundo, e por que motivo Ele sofreu, ou seja, o Senhor veio ao mundo para salvar o gênero humano que de outro modo teria perecido de morte eterna. E o salvou pelo fato de ter subjugado os infernos que infestavam todo homem vivendo no mundo e saindo do mundo, e, ao mesmo tempo, por ter glorificado o Seu Humano, pois assim pode manter os infernos subjugados eternamente. A subjugação dos infernos e, ao mesmo tempo, a glorificação de Seu Humano foram efetuadas pelas tentações admitidas no humano que Ele teve da mãe e por contínuas vitórias. A Sua paixão no Gethsemani e na cruz foi a última tenta e a plena vitória.
[3] Que o Senhor tenha vindo ao mundo por essas duas razões e assim tenha salvado o gênero humano de morte eterna pode-se ver pelo fato de que os infernos, antes do advento do Senhor, não estavam na ordem, pelo que não havia equilíbrio entre o inferno e o céu, mas o inferno, de uma parte, prevalecia sobre o céu, e, todavia, o homem foi estabelecido no meio, entre o céu e o inferno. Por isso, ante do advento do Senhor, tudo o que do céu influía no homem era arrebatado pelo inferno, pelo fato de seu poder ser superior. Portanto, a fim de que o equilíbrio perdido fosse restaurado, aprove ao Senhor vir ao mundo e, então, fazer o juízo final e subjugar os infernos. Ao fazer isso, o Senhor adquiriu para Si o poder de salvar os homens que têm fé e amor n’Ele e por Ele. Essas coisas não poderia ser efetuadas a menos que o Senhor assumisse o Humano. A razão disso é que Deus executa esses efeitos pelos primeiros por meio dos últimos, pois agir pelos primeiros por meio dos últimos é agir no que é pleno. A força mesma do poder Divino consiste nos últimos, assim, a do Senhor no Seu Humano, porque este está no último. Esta foi uma razão pela qual o Senhor veio ao mundo. A outra foi para glorificar o Seu Humano, isto é, fazê-lo Divino, pois assim e não de outro modo Ele pode manter os infernos subjugados eternamente, porque desse modo Ele age eternamente dos primeiros pelos últimos e no que é pleno. Com efeito, assim a Sua Divina operação se estende até os últimos no mundo, mas de outro modo se estenderia somente aos primeiros no céu e, mediatamente por eles e pelos seguintes, aos últimos, que são os homens. Por isso, se estes se afastassem, como aconteceu pouco antes do advento do Senhor, o operação Divina cessaria nos homens e, daí, tampouco haveria para eles algum meio de salvação. A operação Divina do Senhor pelo Humano assumido no mundo se chama Seu influxo imediato até os últimos.
[4] Por esses dois meios o homem tem a salvação, que se chama redenção. Que ela seja chamada redenção por Seu sangue é porque a subjugação dos infernos e, ao mesmo tempo, a glorificação do Humano do Senhor, não pode ser feita senão por meios de tentações dos infernos admitidas em Si, tentações das quais a última foi a paixão da cruz. Por aí se pode ver agora que o Senhor não veio ao mundo para fazer propício o Pai, para que Ele fosse movido à misericórdia, nem para carregar nossas iniquidades e, assim, tirá-las; tampouco para que fôssemos salvos pela imputação de Seu mérito, nem por intercessão, nem por misericórdia imediata. Consequentemente, não pela fé deles, ainda menos pela certeza de sua fé, porque a certeza confirma coisas tais que não são veros, assim, que não devem pertencer à fé. Quem sabe por que o Senhor veio ao mundo e que todos os que creem e fazer o que Ele ensinou são salvos por Ele e, ao mesmo tempo, pelo Pai n’Ele e não pelo Pai separado d’Ele, esse pode ver que muitas das coisas que os líderes ensinam sobre a redenção devem ser entendidas diferentemente da explicação deles.
[5] Que o Senhor tenha subjugado os infernos Ele mesmo ensinou quando a paixão da cruz se aproximava. Em João:
“Agora é o juízo deste mundo; agora o príncipe deste mundo é lançado fora” (Jo. 12:27, 28, 31);
no mesmo:
“Confiai. Eu venci o mundo” (Jo. 16:33);
em Lucas:
Disse Jesus: “Vi Satanás caindo do céu como um raio” (Lc. 10:18);
em Isaías:
“Quem é Esse que vem de Edom... que marcha na multidão de Sua força?... grande para salvar... o Meu braço Me trouxe a salvação;... por isso se tornou salvação para eles” (Is. 63:1, 5, 8; vide também 59:16-21).
Como o Senhor tinha subjugado os infernos, por isso deu aos setenta discípulos
Autoridade sobre os demônios (Lc. 10:17, 19).
[6] Que o Senhor tenha glorificado o Seu Humano e que a paixão da cruz tenha sido a última tentação e a plena vitória, pela qual Ele o glorificou, Ele mesmo ensina em João:
“Depois que” Judas “saiu, disse Jesus: Agora foi glorificado o Filho do homem... e Deus o glorificará em Si mesmo, e logo O glorificará” (Jo. 13:31, 32);
no mesmo:
Pai, é chegada a hora. Glorifica o Teu Filho, para que Teu Filho também glorifique a Ti” (Jo. 17:1, 5);
no mesmo:
“Agora Minha alma está perturbada;... Pai, glorifica o Teu nome. E saiu uma voz do céu: Também glorifiquei e de novo glorificarei” (Jo. 12:27, 28);
e, em Lucas,
“Porventura não importava que Cristo sofresse e entrasse na glória?” (Lc. 24:26),
palavras essas que foram ditas a respeito de Sua paixão. ‘Glorificar’ é tornar Divino. Daí se vê agora que, a menos que o Senhor viesse ao mundo e Se tornasse Homem, e desse modo livrasse do inferno todos os que creem n’Ele e O amam, nenhum dos mortais poderia ser salvo. Assim é que se entende que sem o Senhor não há salvação. Este é, pois, o mistério da encarnação do Senhor.
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