. [Vers. 9] “Se alguém tem ouvido, ouça”. Que isto signifique a recepção por aqueles que estão no entendimento do vero e, daí, na percepção do bem, vê-se pela significação de ‘se alguém tem ouvido, ouça’, que é quem entende e dá ouvidos ao que o Senhor ensina na Palavra (de que se tratou acima, n. 108, 180 e 255). Daí, por essas palavras também é significada a recepção do Divino Vero por aqueles que estão no entendimento delas. Que também sejam aqueles que estão na percepção do bem é porque ‘ter ouvido’ e ‘ouvir’ significa tanto entender o vero quanto perceber o bem. Entender o vero pertence ao pensamento, e perceber o bem pertence à afeição, e ambos pertencem ao ouvido ou à audição, pois o que entra no ouvido passa para a visão do entendimento e, também, para a afeição da vontade. Por isso, pelo ‘ouvido’ e por ‘ouvir’ é significada a auscultação e a obediência. Assim, por ‘ouvir alguém, é significado entender, e por ‘ouvir a alguém’ é significado obedecer, e ambos são significados por ‘dar ouvidos’ (auscultare).
[2] Visto que se mostrou acima que na fé recebida pelo povo comum na igreja há mera vacuidade, já que nela nada há de vida oriunda de algum vero, desejo dizer aqui em poucas palavras qual fé é a fé que salva. A fé que salva é crer que o Senhor é o salvador do mundo e Deus do céu e Deus da terra, e que por Seu advento ao mundo Ele se pôs em poder de salvar todos os que recebem d’Ele os veros por meio da Palavra e vivem segundo os veros. Mas, quem são os que podem receber d’Ele os veros e viver segundo os veros, foi exposto acima (n. 803), a saber, aqueles que fogem dos pecados porque são pecados contra a Palavra e, assim, contra Deus, pois desse modo é purificado o homem interno. Sendo este purificado, o homem é conduzido pelo Senhor e não por si mesmo, e quanto mais o homem é conduzido pelo Senhor, mais ama os veros e os recebe, os quer e os pratica. Esta fé é a fé que salva.
[3] Por estas palavras, ‘se alguém tem ouvido, ouça’, entende-se principalmente que hão de receber e crer que o Divino do Senhor está em Seu Humano, isto é, que seu Humano é Divino. Que não há de ficar admirado de que a ideia sobre o Divino Humano do Senhor tenha sido inteiramente perdida, principalmente entre os eruditos ali, e alguma coisa dela reste somente entre os simples? Porque os simples pensam em Deus como um Homem, e não, como os eruditos, como um Espírito sem forma humana. Os antiquíssimos, que foram mais sábios que os nossos contemporâneos, não tiveram outra ideia a respeito de Deus senão como de um Homem cingindo de uma circulo radioso em volta da cabeça, como se vê pelos escritos dos antigos e pelas imagens pintadas ou esculpidas. Além disso, todos que foram da igreja desde o tempo de Adão até Abrahão, Moisés e os profetas, pensaram em Deus como um Homem; eles até O viram sob a forma humana e O chamaram de Jehovah, como é evidente pela Palavra. E Deus sob a forma humana é o Senhor, como é evidente pelas palavras do Senhor em João:
“Antes que Abrahão existisse, Eu sou” (Jo. 8:58).
[4] Que os habitantes desta terra desde o primeiro tempo tenham tido a ideia de Deus Homem ou do Divino Humano é evidente pelos seu ídolos e também pelas ideias do pensamento e da percepção interior dos gentios, como os africanos, igualmente aos habitantes de quase todas as terras (de que se tratará no opúsculo particular). Que o homem tenha tal ideia a respeito do Divino é porque ela vem do influxo do céu, pois ninguém no céu pode pensar em Deus senão na forma humana. Se pensar diferentemente, perece para ele o pensamento sobre Deus e ele cai do céu. A razão isso que é a forma do céu é a forma humana, e todo pensamento dos anjos procede segundo a forma do céu. E, todavia, esta ideia de Deus, que é a principal de todas, foi extirpada, por assim dizer, dos eruditos do mundo hoje, a ponto de que, se tão somente se diz que Deus é Homem, eles não podem pensar nisso.
[5] Assim é que desde a primeira instauração da igreja eles separaram o Divino do Senhor de Seu Humano, do que aconteceu que, quando pensam no Senhor, poucos pensam em Seu Divino, mas no homem semelhante a eles mesmos. Com essa ideia a respeito do Divino, porém, ninguém, quem quer que seja, pode entrar no céu, mas é repelido assim que chega ao primeiro limiar do caminho que para ali conduz. Isto é, pois, o que se entende principalmente por ‘se alguém tem ouvido, ouça’.
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