AE 810

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. [Vers. 10] “Se alguém levar em cativeiro, em cativeiro irá”. Que isto signifique que aqueles que separaram os outros dos veros, dos Divinos veros na Palavra sejam separados vê-se pela significação de ‘cativeiro’, que é separar dos veros, aqui, por meio de raciocínios do homem natural, pois estes são o cativeiro espiritual que se entende pelo ‘cativeiro’ no sentido interno; (que isto se entenda pelo ‘cativeiro’ na Palavra ver-se-á no artigo seguinte). Por aí é evidente que por ‘levar em cativeiro’ é significado separar os outros dos veros, e por ‘ir em cativeiro’ é significado ser também separado dos veros. Que ‘ir em cativeiro’ signifique aqui separar os outros dos veros por meio dos raciocínios do homem natural é porque pela ‘besta do dragão’, da qual se trata aqui, entendem-se os que separam da fé a vida e confirmam a separação pelos raciocínios do homem natural (vide acima, n. 773).
[2] Antes de ser confirmado pela Palavra que ‘cativeiro’ significa o cativeiro espiritual, que é o separação dos veros oriundos da Palavra, desejo primeiro retomar as coisas que foram referidas acima (no artigo n. 805), [sobre] aqueles que separam da fé a vida e confirmam por meio de raciocínios e assim separam os outros dos veros, e desse modo vou apresentar à vista de que modo eles pervertem os veros e, daí, falsificam a Palavra. Cumpre saber que as mesmas coisas podem ser ditas tanto pelos que estão nos veros quanto pelos que não estão nos veros, pois esses confirmam a separação entre a fé e as obras pelas mesmas passagens da Palavra, mas aqueles, pelas mesmas passagens, confirmam a conjunção da fé com as boas obras, porque uma linguagem semelhante pode haver em dois discordantes, não obstante a diferente percepção. Ouvi uns que amam falsidades falarem de modo inteiramente semelhante ao que falaram aqueles que se aplicam às verdades e, todavia, um estava nos veros e o outro nos falsos, pois as coisas que ambos falaram foram entendidas diferentemente, e segundo o entendimento eles explicavam as passagens da Palavra, pelo que um as falsificou, mas o outro as corroborou. Com efeito, o vero no homem não pertence à sua linguagem, mas à sua percepção. Esta é a razão pela qual aqueles que fazem pregações da Palavra parecem estar nos veros, mas, quando fazem as mesmas pregações pela doutrina da fé só, a respeito da redenção, da imputação do mérito do Senhor e de temas semelhantes, estão nos falsos. Isto pode ser ilustrado por mil exemplos. Em suma, a percepção é que falsifica o vero, não a linguagem pela Palavra. Isto também se entende por estas palavras do Senhor:
“Então, dois estarão no campo; um será tomado... o outro deixado. Duas moendo... uma será tomada, a outra deixada” (Mt. 24:40, 41);
‘estar no campo’ significa estar dentro da igreja; ‘moer’ significa examinar os veros e aprender pela Palavra; o que examina os veros e aprende se entende pela ‘moedora que será tomada’, mas o que falsifica os veros se entende pela ‘moedora que será deixada’. Para ilustrar que assim é, desejo retomar de que maneira eles percebem a propiciação pelo sangue do Filho, de que modo percebem o Senhor ter carregado as iniquidades, de que modo a redenção e a salvação pela misericórdia, de que modo a certeza e a confiança, e assim por diante.
[3] Quanto à propiciação pelo sangue do Filho. Os que estão nos veros não pensam a este respeito como os que estão nos falsos. Os que estão nos veros percebem, pela propiciação do sangue do Filho, que aqueles que vão ao Senhor e a Ele suplicam pelos veros que estão na Palavra são recebidos com clemência e também ouvidos. O ‘sangue do Senhor’ significa não somente a Sua paixão da cruz, mas, também, o Divino Vero do Senhor que está na Palavra, pois o Senhor pela paixão da cruz subjugou os infernos, o que se entende por ‘ter vencido a morte e ter ressuscitado com vitória’, como também falam os líderes, quando o fazem pela Palavra. E pela paixão da cruz também glorificou o Seu Humano, pelo que mantém os infernos subjugados a Si eternamente. Pelo ‘propiciatório’ que havia sobre a arca do Testemunho, sobre o que foram esculpidos os querubins, não era significada outra coisa. Acima (n. 805) foi dito de que maneira aqueles que estão nos veros entendem o fato de o Senhor ter carregado as iniquidades.
[4] Pela imputação do mérito do Senhor se entende – por aqueles que estão nos veros – somente a imploração para que o Senhor tenha misericórdia, Aquele que sofreu duras coisas para redimir e salvar os homens que, de outro modo, haviam de perecer de morte eterna. Pelo mérito do Senhor se entende que Ele, pelo próprio poder, salvou os que creem n’Ele e fazem o que ele ordenou. Esse mérito não pode ser imputado, mas implorado. Pela intercessão se entende a perpétua recordação do homem pelo Senhor. E pela certeza e confiança se entendem a certeza e a confiança no Senhor, que por pura misericórdia ensine ao homem o caminho e conduza ao céu, Por aí é evidente o que é significado pela redenção.
[5] Por aí se pode ver agora que pelas coisas que foram referidas acima (n. 805) não se entende – por aqueles que estão nos veros da Palavra – alguma obra do Senhor no Pai, mas em Si mesmo, pois, como foi dito acima, Deus é um e não três, e o trino está no Senhor. Por isso, quando se vai ao Senhor, vai-se também ao Pai e ao Espírito Santo ao mesmo tempo. Por aí também se pode ver que ‘levar em cativeiro’ significa separar dos Divinos veros na Palavra, pois os que mantêm a doutrina de três pessoas da divindade e separam da fé a sua vida, que são as boas obras, esses separam os outros do entendimento do vero na Palavra, porquanto explicam todas as coisas que se ali se acham segundo a doutrina, e, as que não podem explicar, falsificam. E também o Divino, que está no Senhor e que é do Senhor mesmo, atribuem ao Divino do Pai, e dessa maneira não vão ao Senhor. E, como assim fazem, por isso, ou por meio de raciocínios ou por uma explicação estranha das verdades da Palavra, separam o povo, que crê que todas as coisas que se dizem a respeito dos Divinos estão acima da compreensão humana. Isto é significado por ‘levar em cativeiro’. Que eles mesmos ‘sejam levados em cativeiro’ isto é, que eles mesmos se separem dos Divinos veros na Palavra, pode-se ver por todas as coisas de sua doutrina, que, embora sejam verdadeiras falam quanto à enunciação, não são, todavia, verdadeiras quanto ao entendimento deles. Isto também me foi testificado pelos mesmos no mundo espiritual, onde, quando foram examinados, descobriu-se que estavam em meros falsos, e, por isso, não podiam ser levados pelo Senhor à inteligência celeste alguma.

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