. “Cuja ferida de sua morte foi curada.” Que isto signifique e assim a discordância foi removida por conjunções inventadas das obras com a fé vê-se pela significação de ‘a ferida de morte curada’ na besta anterior, que é a discordância aparentemente removida por meio de conjunções inventadas das obras com a fé (de que se tratou acima, n. 786, onde se encontram as mesmas palavras). Diz-se ‘discordância removida por meio de conjunções inventadas das obras com a fé’, mas quais são as conjunções inventadas por eles, ou seja, que elas são, antes, separações, vê-se na passagem acima citada.
[2] Visto que se mostrou que pelo apóstolo João na Palavra dos Evangelhos são significadas as boas obras, que também se chamam bens da caridade e bens da vida, e que João, por ter significado esses bens, reclinava-se no peito do Senhor, desejo mostrar no agora se segue o que são as boas obras; mas, aqui, somente que as obras contêm em si todas as coisas da caridade e da fé que há no homem. Ninguém soube até hoje que nas obras estão todas as coisas da vida do homem, porque elas aparecem somente como movimentos, que, como vivem no homem, são chamados ações, e se fazem pelo movimento da boca, da língua e da laringe, e da fala, mas são elas, contudo, que não somente manifestam a caridade e a fé no homem, mas também as completam e aperfeiçoam, e isto porque não há fé nem caridade no homem antes que elas realmente existam, e elas realmente existem nas obras.
[3] Que nas obras estejam todas as coisas da fé e da caridade que há no homem é porque as obras são atividades oriundas de sua vontade e de seu pensamento, e todas as coisas delas se expõem e se espalham nas obras, exatamente como todas as coisas da causa no feito e todas as coisas da semente e da árvore no fruto, pois as obras são os complementos delas. Que isto seja assim, não aparece diante dos olhos do homem, mas perceptivelmente diante dos anjos. Quando o homem está no exercício da caridade, uma esfera de todas as suas afeições e, daí, dos seus pensamentos, então aparece ao redor dele como algo tenuamente aquoso e, às vezes, como uma nuvem branca ou escura, esfera na qual estão todas as coisas de sua mente em conjunto, pela qual os anjos conhecem qual é o homem quanto a todas as suas coisas. A razão disso é que cada um é o seu amor, e as obras daí fazem com que o amor seja ativo e, quando se torna ativo, espalha-se ao redor dele. Uma mesma esfera espiritual se manifesta à vista não somente como uma ondulação, mas também em várias formas representativas perante a vida, e isto a ponto de que, por esses representativos, o homem aparece aos espíritos e anjos exatamente tal como ele é.
[4] Que as obras contenham em si todas as coisas da mente é também porque todas as coisas sucessivas, que progridem em sua ordem desde os supremos até os ínfimos, ou desde os primeiros até os últimos, formam nos ínfimos e nos últimos o simultâneo, no qual todas as coisas superiores ou anteriores coexistem. Qual é, porém, a ordem sucessiva e, daí, a ordem simultânea, vide acima (n. 594 e 666), e nos Arcanos Celestes (n. 634, 3691, 4145, 5114, 5897, 6239, 6326, 6465, 9215, 9216, 9828, 9836, 10044, 10099, 10329 e 10335). E as obras são os últimos do homem, oriundas de seus interiores, que estão na ordem sucessiva. Por aí é evidente que nelas coexistem todas as coisas da vontade e do pensamento do homem, por conseguinte, todas as coisas do seu amor e de sua fé. Daí é, pois, que as obras são prescritas tantas vezes pelo Senhor na Palavra, e que o homem deve ser julgado segundo as obras.
[5] Disto é evidente a qualidade do homem que separa da fé as boas obras, ou seja, é desprovido de fé e as suas obras são males que brotam do amor de si e do mundo, encobertas e envoltas por coisas tais que são da fé, mas são interiormente contaminadas e profanas pelos males. Por isso, quando o homem é posto em seus interiores, o que acontece após a morte, quando se torna espírito, então, todas as coisas que foram de sua fé, que constituíram as periferias, são separadas e dissipadas. Por aí se pode ver donde procede que João, que representou os bens da caridade, ou as boas obras, se reclinava sobre o peito do Senhor e porque Ele, e não Pedro, seguiu o Senhor. E, também, porque, depois da ressureição do Senhor, ele habitou com a mãe do Senhor.
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