. “Como fazer descer fogo do céu à terra perante os homens”. Que isto signifique o amor do falso do mal, oriundo do orgulho da própria inteligência, como se fosse o amor do vero do bem, que dos céus está na igreja, vê-se pela significação de ‘fogo’ que é o amor em ambos os sentidos, a saber, o amor ao Senhor e ao amor para com o próximo, e, no sentido oposto, o amor de si e o amor do mundo (de que se tratou acima, n. 504 e 539); e, assim, o amor do bem e do vero e também o amor do mal e do falso, pois todos os bens e, daí, os veros, profluem do amor ao Senhor e do amor para com o próximo, e, ao contrário, todos os males e, daí, os falsos, profluem do amor de si e do amor do mundo; daí é que os que estão no amor do mundo estão no amor de todos os males e dos oriundos daí, e no amor dos falsos provenientes desses males; (a respeito desses amores e dos males e falsos oriundos daí vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 65-83). E vê-se pela significação de fazer o fogo ‘descer do céu’. Diz-se assim porque assim fazem no mundo espiritual aqueles que estão na fé separada, por artes conhecidas ali. Que seja uma aparência do amor do falso do mal como se fosse amor do vero do bem é por causa da confirmação, pelo sentido da letra da Palavra, da fé separada da vida, pois o que é confirmado pela Palavra, do céu é confirmado. O falso, porém, quando é confirmado pela Palavra, não é confirmado pelo céu, mas somente aparece como se fosse confirmado do céu. E vê-se também pela significação de ‘perante os homens’, que é principalmente perante aqueles que estão no orgulho da própria inteligência e que confirmam em si esse dogma herético pelos escritos e pelas pregações. Deles isto é derivado aos simples, que não estão no orgulho da própria inteligência, porém não o confirmam em si, mas somente assumem que assim é porque foi asseverado por um varão de erudição e, assim, de autoridade. Mas estes somente conservam isso na memória, enquanto aqueles o implantam em suas vidas, principalmente se viveram segundo isso, e o que é implantado na vida permanece na eternidade, mas não o que foi somente da memória.
[2] O orgulho da própria inteligência está em todos os que confirmam os falsos até a destruição do Divino Vero em que estão os anjos do céu, pois estão nesse orgulho aqueles que consideram a si mesmos somente, isto é, sua fama nas escritos e nas pregações, porque esses estão no amor de si, e todo aquele que está nesse amor está no orgulho quando escreve e prega, e o orgulha deriva todas as coisas do proprium do homem. Daí é que se diz que está no orgulho da própria inteligência. O amor de si reside na vontade, e o orgulho da própria inteligência no pensamento daí. Quando, pois, esses pensam alguma coisa por si, não podem fazer outra coisa senão pensar nos falsos, porque o proprium, que é da vontade e, por conseguinte, do amor, domina; e o proprium, considerado em si mesmo, nada é senão o mal. É diferente com aqueles que estão no amor dos usos e, daí, no amor do vero por causa do vero.
[3] Visto que aqueles que estão no orgulho da própria inteligência removem as obras da fé e, por causa disso, não sabem o que são as obras, nem tampouco o que é a caridade e o que é o próximo – e, de fato, após se confirmarem, não o querem saber – por isso se dirá aqui o que são as boas obras. Boas obras são todas as coisas que o homem faz, escreve, pega, mesmo as que ele fala, não por si mesmo, mas pelo Senhor; e ele faz, escreve, prega e fala pelo Senhor quando vive segundo as leis de sua religião. As leis de nossa religião são que se deve adorar a Deus, que se deve fugir dos adultérios, roubos, assassinatos, falsos testemunhos, como também das fraudes, dos lucros ilícitos, ódios, vinganças, mentiras, blasfêmias e muitas outras coisas que estão não só no decálogo, mas também em toda parte em outras passagens na Palavra, chamados pecados contra Deus e, também, abominações. Quando o homem foge dessa coisas porque são contra a Palavra e, daí, contra Deus, e porque elas vêm do inferno, então o homem vive segundo as leis de sua religião. E quanto mais vive a religião, mas conduzido pelo Senhor; e quanto mais é conduzido pelo Senhor, mais suas obras são boas, pois então é conduzido a fazer os bens e falar os veros por causa dos bens e por causa dos veros, e não por causa de si e do mundo. Os usos são prazeres para ele, e os veros lhe são delícias. Além disso, é diariamente conduzido pelo Senhor quanto ao que deve fazer e falar, e também quanto ao que deve pregar e escrever, pois, sendo removidos os males, está continuamente sob o auspício do Senhor e na iluminação. Mas não é conduzido imediatamente, por algum ditame nem por alguma inspiração perceptível, mas pelo influxo em seu prazer espiritual, donde existe para ele a percepção segundo os veros de que consiste seu entendimento. Quando age por este, parece-lhe que age por si, mas reconhece de coração que é pelo Senhor. Todos os anjos se encontram nesse estado, e todas as crianças no céu são conduzidas ao céu por esse caminho.
[4] É diferente, porém, com o homem quando se abstém dos males e foge deles por causa das leis civis e por causa do dano à sua fama. Esse não foge deles por alguma origem espiritual, mas por uma origem natural. Assim, ele até faz as obras, que exteriormente parecem ser boas, mas interiormente são más. São como pinturas feitas de lama estercorosa revestidas de cores belas à vista, ou como meretrizes aparentando uma forma formosa e ornadas de vestidos brancos, e diademas sobre a testa e sob as orelhas, e, no entanto, exalando fedores interiormente. Considera agora o que é o mundo cristão hoje em dia; quantos são hoje os que fogem de adultérios, fraudes, lucros ilícitos, ódios, vinganças, mentiras e blasfêmias, [não] por serem contra a Palavra e, assim, contra Deus, mas porque são contra as leis civis e [por causa] reputação e do temor da perda da honra e do ganho no mundo. Mas inquire interiormente a razão, e perceberás que isto vem do fato de não crerem que há um céu e um inferno, e que não há uma vida após a morte. Por aí é evidente que é boa obra tudo o que o homem faz, tanto pequeno como grande, quando faz pela religião e, na igreja, pela Palavra, após ter detestado os males por serem pecados e, em si, infernais. Mas, ao contrário, é má obra tudo o que o homem faz, tanto pequeno como grande, quando não o faz pela religião e, assim, não pela Palavra.
[5] Cumpre saber, porém, que quem foge dos males porque são contra as leis Divinas na Palavra, também foge deles porque são contra as leis civis e morais no mundo, pois o homem pensa por essas [leis] mesmo quando está no estado natural, mas por aquelas quando no estado espiritual. Disto se segue que fugir dos males por causa da reputação e de sua honra e fazer os bens não é prejudicial, contanto que a Palavra e a religião tenham o lugar superior e façam a cabeça, e a pessoa mesma e o mundo, o lugar inferior e façam os pés, caso contrário a religião é pisoteada e o mundo é adorado como cabeça.
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