AE 831

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. [Vers. 15] “E foi-lhe concedido dar fôlego à imagem da besta”. Que isto signifique haver algo da vida espiritual por causa da conjunção com a Palavra vê-se pela significação de ‘fôlego’, que é a vida espiritual (de que se tratará a seguir), e pela significação de ‘imagem da besta’, que é a doutrina da fé separada das boas obras, que é ensinada e criada na igreja (de que se tratou acima, n. 827). Segue-se daí que ‘dar fôlego à imagem da besta’ significa que pela conjunção dos raciocínios do homem natural com a Palavra há algo de vida espiritual. Qual, porém, é essa vida, dir-se-á na sequência. Que pelo ‘fôlego’ seja significada a vida espiritual é porque pelo ‘fôlego’, no sentido supremo, é significado o Divino Vero procedente do Senhor, e, assim, aplicado aos homens que o recebem, significa a vida espiritual (vide acima, n. 183). A vida espiritual é a mesma que a vida pelos Divinos veros, e como a Palavra é o Divino Vero e, assim, dele vem a vida espiritual do homem, por isso, quando os raciocínios do homem natural em favor da fé separada da vida são conjuntos à Palavra e daí se faz a doutrina para a igreja, existe nela algo da vida espiritual, porque todas as coisas que há na Palavra são em si mesmas espirituais e dão vida espiritual àqueles que a examinam, segundo a recepção de coração. Por isso o Senhor disse:
“As palavras que Eu vos falo são espírito e são vida” (Jo. 6:63).
[2] Visto que nas coisas que antecederam tratou-se do amor celeste, no qual estão os anjos do terceiro véu, desejo agora dizer alguma coisa a respeito do amor espiritual, no qual estão os anjos do segundo céu. O amor espiritual é o amor do vero e, no sentido supremo, o amor do Divino Vero que procede do Senhor, assim também o amor ao Senhor, mas num grau inferior ao que estão os anjos celestes. Estes, a saber, os anjos celestes, estão no amor ao Senhor pela recepção do Divino Bem que vem d’Ele, mas aqueles, a saber, os anjos espirituais, estão no amor ao Senhor pela recepção do Divino Vero que vem d’Ele. A diferença é como entre o amor na vontade e o amor no entendimento, ou como entre a chama e a sua luz. Além disso, a luz com os anjos do terceiro céu deriva do flamejante, e a luz com os anjos do segundo céu deriva do branco (muitas coisas a este respeito, porém, se veem na obra O Céu e o Inferno, n. 126-140). A vida deles difere semelhantemente. A vida dos anjos do terceiro céu consiste em afeições do bem, e a vida dos anjos do segundo céu em afeições do vero. Essa diferença é tal que eles são muito bem diferenciados pelas faces e também pelas linguagens. Como o amor espiritual é o amor do vero e eles, quanto à sua vida, são afeições do vero, por isso eles falam das coisas santas do céu e da igreja, diferentemente dos anjos do terceiro céu, que não podem falar disso, conforme foi dito acima. Todavia, como os anjos celestes são aperfeiçoados em sabedoria pela audição, por isso há anjos intermediários que se chamam anjos celestes espirituais, que pregam e ensinam os veros nos templos deles, templos esses que são chamados casas de Deus, e são feitos de madeira.
[3] Que os anjos espirituais, pelo amor espiritual que faz a vida deles, sejam afeições do vero e não afeições do bem, é porque estes são reformados e regenerados, e se tornam anjos, por uma via diferente da dos anjos celestes. Com efeito, os anjos espirituais admitem os veros primeiramente na memória e, daí, no entendimento, que é, assim, formado pelos veros. E então, quanto mais são afetados espiritualmente pelos Divinos veros, isto é, por causa deles e, então, por causa da vida segundo eles, mais eles são aperfeiçoados. Os anjos celestes, porém, não admitem os veros primeiramente na memória, mas imediatamente na vontade e, pelos atos, na vida. Daí é que estes não podem falar dos Divinos veros, mas somente os querem e praticam; aqueles, porém, falam dos Divinos veros, porque estes também foram gravados na memória neles, e o pensamento fala pela memória.
[4] Mas os anjos espirituais não admitem vero algum na memória e, daí, no entendimento em si mesmos, a menos que o vejam, pois os anjos naquele céu veem os veros pela luz do vero, assim, pela iluminação vinda do Senhor, pois nos céus os veros são objetos espirituais que ali aparecem diante dos anjos mais claramente do que os objetos naturais diante dos homens no mundo. Por isso eles4 sabem que a fé não é oura coisa senão o reconhecimento do vero porque veem que é um vero, e não compreendem absolutamente que possa existir em alguém a fé de alguma coisa não vista ou entendida, pois assim o homem não sabe se algo é um vero ou um falso, e a fé do falso é prejudicial, pelo que é evidente que a visão intelectual neles é a visão espiritual. Esses anjos são aperfeiçoados no entendimento na proporção em que estão no amor do vero por causa da vida e de seus usos genuínos, e na mesma proporção são implantados os veros de sua vida e se tornam afeições do vero, pois todos os veros derivam do bem a sua origem e, daí, a sua vida, assim como entendimento [as deriva] da vontade de seu ativo. Com efeito, o entendimento é o receptáculo do vero, e a vontade é o receptáculo do bem, e o ativo deles completa e fundamenta. Assim também os veros, dos quais o entendimento deles é formado, quando se tornam da vontade e, assim, do ato, são chamados bens, mas bens espirituais, que então se tornam do amor deles, entram na vida e a formam. Daí é também evidente que a vida de cada homem vem de suas obras, porque a afeição que pertence à vontade e o pensamento que pertence ao entendimento terminam nelas e assim existem. Elas perecem se não forem terminadas assim, pois a vontade não existe a menos que se torne ativa, e se não houver vontade, o entendimento perece, e retamente somente a faculdade de entender.
[5] Como o amor deles é o amor do vero, por isso reconhecem como próximo o vero no ato, que se chama bem espiritual, por conseguinte, o bem da igreja, o bem da sociedade em que estão, o bem dos concidadãos na sociedade, por consequência, também o bem moral, que é chamado o sincero, e o bem civil, que é chamado o justo. Por isso, o amor deles para com o próximo também consiste nos exercícios, que são as obras. Além disso, todos ali amam os usos e têm as boas obras na intenção, pelas quais mantêm os seus pensamentos como que em casa e se abstêm do ócio, que é, como também se chama, o travesseiro do diabo5. Eles sabem que somente podem ser mantidos no amor espiritual aqueles que percebem prazer nas obras. Estes estão fixados em sua afeição e os outros estão em todas e, assim, em nenhuma, pois vagueiam aonde as volúpias e as cobiças os levam. Os anjos do segundo céu também habitam distintos em sociedades, assim como os anjos do terceiro céu, mas as sociedades destes estão acima das sociedades daqueles, por causa do influxo do amor celeste no amor espiritual, pois o amor espiritual tira sua essência do amor celeste, pelo influxo mediato e imediato desde o Senhor.
[6] Nos céus há palácios magníficos em cujos interiores todas as coisas refulgem com pedras preciosas, e as ornamentações em tal forma não podem ser igualadas por nenhuma pintura no mundo, nem expressas por palavras. Com efeito, a arte ali está em sua arte, principalmente a arquitetônica. Desse céu é que muitas artes no mundo derivam suas leis e harmonias, donde vêm as formosuras. A prata, que é encontrada entre aqueles que habitam abaixo desses céus, é dada pelo Senhor desse [segundo] céu, e o ouro vem do terceiro céu, pois a prata corresponde ao bem espiritual, que em sua essência é o vero, e o ouro corresponde ao bem celeste. Os anjos espirituais se vestem de vestimentas de linho e seda, em geral resplandecentes. E visto que os céus espirituais correspondem aos olhos, há ali lugares paradisíacos, e em muitos lugares também se veem arco-íris que são de uma beleza inefável. Ali não se sabe coisa alguma do sentido da letra da Palavra, mas de seu sentido espiritual, sentido no qual eles têm a Palavra, que é lida por todos. Ali reinam a justiça, a sinceridade, a verdade, a castidade e muitas virtudes louváveis da vida moral. Esses céus constituem a realeza do Senhor, enquanto os céus superiores, onde estão os anjos celestes, constituem o sacerdócio do Senhor, pois o Seu reino é o Divino Vero, e Seu sacerdócio é o Divino Bem.

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