AE 832

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “Para que a imagem da besta fale”. Que isto signifique que daí influiu do céu uma anuência no pensamento próximo à fala, excitado e aceso pelo amor natural, pode-se ver pela fala e pela pregação daqueles que confirmam pela Palavra a separação entre a fé e a vida. Porque todas e cada uma das coisas da Palavra comunicam com os céus e daí influi a santidade naquele que fala ou prega, mas essa santidade não pode influir em afeição espiritual alguma e, daí, no pensamento, porque todos os que estão na fé separada da vida não são espirituais, mas meramente naturais. Por isso, essa santidade influi no amor natural neles, que excita e acende o pensamento próximo à fala. Daí que esses podem também falar e pregar como os espirituais, embora não tenham afeição espiritual alguma, mas somente a afeição natural, que é a afeição da glória, da honra ou do ganho. Essa afeição é, não obstante, excitada e mesmo acesa pelo influxo de santidade vindo do céu.
[2] Que o sentido da letra da Palavra comunique com o céu é porque todas e cada uma das coisas ali contêm em si um sentido espiritual, e o sentido espiritual é percebido nos céus quando o sentido natural, que é o sentido da letra, é entendido pelo homem. Que isto seja assim, é o que me foi confirmado por muitas experiências do mundo espiritual. Ouvi que alguns recitavam as palavras do sentido da letra da Palavra e percebi que imediatamente eles tiveram comunicação com alguma sociedade do céu, pois nela penetrou o sentido espiritual que havia nas palavras recitadas do sentido da letra. Os maus espíritos abusam de vez em quando dessa comunicação para adquirirem para si apoio [patrocinium] dos céus. Por aí se pode ver qual é a Palavra no sentido da letra; e como ela é comunicativa com o céu, por isso a anuência espiritual com a natural, que é a santidade, influi daí no amor natural daqueles que falam ou pregam pela Palavra, amor esse que excita o pensamento próximo à sua fala. Diz-se pensamento próximo à fala porque o homem tem um pensamento interior e um pensamento exterior. Ele tem o pensamento interior quando está só e pensa consigo mesmo, e tem o pensamento exterior quando está com os outros e fala com eles. Cada um sabe que o pode pensar consigo mesmo diferentemente do que fala diante dos homens; é esse pensamento exterior que se entende pelo pensamento próximo à fala. Esse pensamento excita e acende o amor natural, que é o amor da glória, da honra ou do ganho, naqueles que estão nos falsos e confirmam os falsos pelo sentido da letra da Palavra. É isto, então, que é significado pelo ‘fôlego dado à imagem da besta’ e ‘para que a imagem da besta fale’, pelo que é significado que a doutrina da fé separada da vida, pela conjunção com a Palavra, tem algo da vida espiritual e que, daí, a anuência influiu do céu no pensamento próximo à fala, excito e aceso pelo amor natural.
[3] Uma vez que no artigo acima se tratou do amor espiritual que têm aqueles que estão no segundo céu, amor esse que constitui a vida deles, e visto que o homem não sabe de que maneira o amor se torna espiritual, isto será explicado em poucas palavras. Todo amor se torna espiritual pelos veros da Palavra na proporção que o homem os reconhece e na proporção que o vê com o entendimento e, em seguida, os ama, isto é, quando os pratica pela vontade. Que o amor se torne espiritual pelos veros da Palavra na proporção que o homem os reconhece e os vê com o entendimento é porque no homem há duas memórias e, daí, dois pensamentos, a saber, o interior e o exterior, tanto nos maus como nos bons. Todo homem pensa consigo mesmo pela memória interior, quando se deixa conduzir pelo seu amor. Esse pensamento é o pensamento de seu espírito. E o homem pensa a partir da memória exterior quando fala diante do mundo. Que existam esses dois pensamento qualquer um vê, se apenas refletir um pouco. As coisas que o homem pensa consigo mesmo pela memória interior, quando entregue a si mesma, são as coisas de sua vida e se tornam de sua vida, pois é o seu espírito que então pensa, ou, o que é o mesmo, é a afeição própria de sua vida que excita esse pensamento. Mas as coisas que o homem pensa pela memória exterior, se não fazem um com o pensamento pela memória interior, não são de sua vida nem se tornam de sua vida, pois são do corpo, por causa do mundo. Elas são também rejeitadas após a morte, quando o homem se torna espírito. Daí se pode ver qual é o estado daqueles que são maus e não temem a Deus nem temem o homem, a saber, pensam o mal e o falso interiormente em si mesmos, mas exteriormente pensam e, daí, falam os veros, e também fazem os bens. Mas, quando o homem deixa o corpo e se torna espírito, os bens e veros são dissipados, e os males e, daí, os falsos nele, como espírito, permanecem. Ocorre, porém, de outro modo com os bons. Esses, porque temeram a Deus e amaram o próximo, quando pensam pela memória interior, pensam pelos veros que vêm do bem, do mesmo modo que o fazem quando pela memória exterior. Nesses, esses dois pensamentos fazem um só. E como estão nos veros do bem, neles é aberto o homem interno espiritual, que foi conjunto aos anjos nos céus, e é em si um anjo do céu. Como ele está na luz do céu, na qual os veros espirituais aparecem tão claramente como os objetos diante dos olhos no mundo, quando vê os veros ele os recebe e deles forma o entendimento. Daí eles têm a fé espiritual, que, em sua essência, é o reconhecimento do vero, porque é visto no entendimento. A fé natural para eles é uma fé nula, que é crer que algo é assim porque outro o disse. Eles chamam essa fé de fé histórica e, em alguns, persuasiva, que permanece na proporção que concorda com o amor de sua vida. Quem não pode ver que nada pode entrar na vida do homem e a constituir a menos que antes ele tenha pensado que assim é, e, em seguida, desejado que assim fosse? Por aí se pode ver que, para que o seu amor se torne espiritual, importa ao homem ver os seus veros, isto é, compreendê-los com o entendimento.
[4] Mas, se disseres que os veros espirituais não podem ser vistos, e que o entendimento não pode ser aberto a tal ponto enquanto o homem está no mundo, sabe que quem ama o vero por causa do vero, isto é, porque é um vero, esse pode ver os veros, e os que ele não vê no mundo, pode vê-los no céu. O amor mesmo do vero recebe a luz do céu, que ilumina o entendimento. Além disso, qualquer pode receber no pensamento e entender os veros mais do que ele mesmo vê, a menos que o seu amor próprio induza obscuridade e ofusque. Isto me foi testificado muitas no mundo espiritual, pois espíritos maus entenderam os veros espirituais tão bem quanto os espíritos bons, e até quase como os anjos, quando lhe foram ditos por alguém. Mas, tão logo desviaram o ouvido e se puseram no estão do amor próprio, nada absolutamente entenderam. Daí se fez evidente para mim que cada homem tem a faculdade de entender os veros e mesmo de os ver, mas que somente o amor do vero por causa do vero faz com que o homem os entenda, racionalmente no mundo e espiritualmente após a morte.
[5] Todavia, o amor no homem e, daí, a sua vida, não se torna espiritual somente por saber e entender os veros, a menos que também os queira e faça, pois, como foi dito, o homem mau, cujo amor é infernal, pode igualmente saber e entender os veros tal como o homem bom, cujo amor é celeste. Daí os maus creem que, por causa das cognições e por causa do entendimento das verdades, não somente hão de vir ao céu, mas também estarão entre os inteligentes, dos quais se diz que ‘brilharão como as estrelas’, quando, todavia, se também não amam ou querem os veros que eles sabem e entendem, após a morte virão aos que estão no inferno, dos quais todos os veros são arrebatados, pois cada um se torna, após a morte, o seu amor, e cada um se torna o seu amor no mundo por querer e fazer segundo seu entender e fazer, porque o amor do homem reside nisso, e no amor residem os veros do entendimento. Daí é evidente de onde vem a vida do homem, porque o amor faz a sua vida. Há três graus de vida no homem: há o terceiro grau, no qual estão os anjos do terceiro céu; o segundo grau, no qual estão os anjos do segundo céu; e o primeiro grau, no qual estão os anjos do primeiro céu ou o mais externo. E há, também, um grau ínfimo, que é corpóreo e material, que está no homem quando ele vide no mundo. Esses graus são abertos no homem segundo a recepção do Divino Vero em sua vida, e o Divino Vero é recebido na vida por querer e fazer o vero segundo seu saber e entender. E como o amor e a vida do homem fazem um, segue-se que há tantos graus de amor quanto são os graus da vida. O amor em que estão os anjos do terceiro céu se chama amor celeste; o amor em que estão os anos do segundo céu se chama amor espiritual; e o amor em que estão os anjos do primeiro céu se chama amor espiritual natural e, também, celeste natural. Tal como é o seu amor, assim é a sua sabedoria e a sua inteligência.
[6] Os que estão no terceiro grau de amor e, daí, de sabedoria vivem numa atmosfera como que puramente etérea, por assim dizer; os que estão no segundo grau de amor e, daí, de inteligência, vivem numa atmosfera como que puramente aérea; e os que estão no primeiro grau de amor e, daí, de conhecimento, vivem numa atmosfera como que puramente aquosa. E como a pureza da vida deles está num grau semelhante ao seu amor, é evidente que estão no terceiro céu e no amor e na vida desse céu não podem se aproximar daqueles que estão no segundo e no primeiro céus, pois subir do segundo céu ao terceiro seria como se uma ave voasse acima de sua atmosfera, no éter; e do primeiro céu ao segundo seria como se um peixe fosse elevado no ar, no qual sufocaria e sofreria coisas medonhas. Estas coisas foram ditas para que se saiba que o amor espiritual é o amor do vero no ato, e o amor do vero no ato é segundo a visão do vero no entendimento, e que a fé desse amor não é outra coisa senão o reconhecimento do vero por essa visão e esse entendimento. Esta é, pois, a fé espiritual.

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