. Como até aqui foram ditas muitas coisas a respeito da fé e das obras, desejo agora reunir as mesmas brevemente num resumo, que é: (1.) Que todo homem após a morte se torne o seu amor, e que o espírito do homem não é senão a afeição que é de seu amor. Por isso, quando o homem se torna espírito, ele pensa e, daí, fala por sua afeição, e também pela afeição ele quer e assim faz; então deseja e, assim, haure as coisas que são da afeição ou de seu amor, e as que não são da afeição de seu amor ele tem em aversão e rejeita. De fato, a sua face sucessivamente se torna a face da afeição ou de seu amor; daí ele é depois reconhecido e também pela fala, cujo som é o som de sua afeição. Em suma, após a morte o homem se torna seu amor ou sua afeição em forma; por esse motivo, quando alguém fala contra a afeição que é de amor ou a ataca, sua face se muda e também se vai ou desaparece subitamente. Visto que todos os homens são, após a morte, substâncias e formas de seu amor, por isso todo o céu, que consiste de anjos que foram homens, foi distinto em sociedades segundo os gêneros e as espécies de todas as diferenças e variedades de afeições. Semelhantemente, o inferno, que também consiste de espíritos que foram homens, foi distinto em sociedades segundo as afeições opostas às celestes e segundo todas as diferenças e variedades delas em gênero e espécie. Que o homem após a morte seja o se amor, ou, sua afeição que pertence ao amor, foi até hoje ignorado no mundo, pois o mundo tinha acreditado que a afeição nada faz, mas, sim, o pensamento, pelo fato de que o homem não pôde refletir sobre suas afeições e suas varias coisas em si, mas sobre os pensamentos e suas várias coisas, pelo que interiormente em si ele os vê, por assim dizer, mas não as afeições, e ele não atenta para as coisas que não chegam ao seu pensamento e, assim, se manifestam. Quem é sábio, porém, esse pode, por seus pensamentos, conhecer as suas afeições. Pois elas se manifestam neles quando o homem está no livre de seu espírito e somente consigo mesmo, pois então ele pensa pela afeição que pertence ao seu amor. O pensamento não é outra coisa senão a afeição feita visível em várias formas pelo influxo de luz. Por isso, se tiras a afeição, o pensamento imediatamente perece, como a luz se lhe tirares a chama. Por aí se pode ver quão importante adquirir para si o amor ou a afeição celeste. Como ela é adquirida, dir-se-á na sequência. Cumpre saber que pela afeição se entende o amor em seu contínuo.
[2] (2.) Que toda a vida do homem seja a vida de seu amor, e que o amor e a vida no homem façam um e sejam um só, pode-se ver pelo que foi dito acima, a saber, que cada um no mundo espiritual se apresenta com uma face segundo o seu amor, fala segundo o amor, pensa, quer, deseja, cobiça e se alegra segundo o amor, e são estas as coisas que fazem a vida e procedem da vida. Que isto seja assim vê-se claramente pelos espíritos e anjos, que são, todos, homens, tanto na face como no corpo. Tão logo alguém agride o amor deles, ele desaparece com todo o seu corpo, ainda que esteja sentado num cômodo fechado, coisa que vi muitas vezes, pelo que ficou evidente para mim que um anjo e espírito são não somente a afeição em forma humana, mas, também, que toda a sua vida, da cabeça à planta do pé, ou do cabelo ao calcanhar, nada é senão a afeição que pertence ao amor, caso contrário não poderia desaparecer perante os olhos dos que [estavam] assentados. Foi investigado se a forma de suas coisas corpóreas com os seus membros também é a afeição que pertence ao amor, e descobriu-se que todas e cada uma de suas coisas o são. A razão é porque todo o céu – que, como foi dito acima, foi distinto em sociedades segundo todas as diferenças e variedades de afeições – se refere a um Homem, e todos os anjos e espíritos são, daí, formas humanas. Por isso, assim como o céu é um conjunto de todas as afeições, assim também o anjo e o espírito, que são as mínimas formas do céu. Daí ficou evidente para mim este arcano – que também foi confirmado do céu – que todas e cada uma das coisas do homem, tanto as que são de sua mente quanto as que são do corpo, são formas do amor numa série admirável, e que os órgãos do cérebro e da face, bem como os membros e vísceras do corpo, são contexturas perpétuas correspondentes às afeições do céu, nas quais estão suas sociedades. Daí ainda outro arcano ficou evidente para mim, a saber, que as afeições e, daí, os pensamentos da mente se espalham e difundem em todas as coisas do corpo, como num campo de sua excursão e de circulação, campo e circulação esses vêm da afeição da mente e de seu pensamento nos usos, dos quais, nos quais e para os quais os membros e vísceras do corpo foram formados, pois dá-se de modo semelhante em ração às afeições e, daí, aos pensamentos dos anjos, que se espalham em toda parte no céu e em suas sociedades, e a sabedoria dos anjos é segundo a extensão delas. (Mas, a respeito disso, vide muitas coisas na obra O Céu e o Inferno, a saber, que todos os anjos sejam imagens do céu e, assim, como céus na mínima forma, n. 41-58; que todo o céu se refira a um Homem, e que daí os anjos e os espíritos sejam formas humanas, n. 59-102; que todo pensamento oriundo da afeição procedente dos anjos tenha extensão nas sociedades do céu segundo a qualidade do amor e da sabedoria deles, n. 200-212).
[3] (3.) Visto que o amor faz a vida do homem, e o homem, segundo a sua vida adquiria no mundo, virá na eternidade ou ao céu ou ao inferno, importa imensamente saber de que modo é adquirido o amor celeste e se imbui dele, para que sua vida seja sem fim, bem-aventurada e feliz.
[4] (4.) Há duas faculdades primárias da vida do homem, a saber, vontade e entendimento. A vontade é o receptáculo de todo bem, e o entendimento é o receptáculo de todo vero desse bem. O homem não pode ser reformado senão por meio dessas duas faculdades da vida e somente pelo enchimento delas de bens e veros. A reforma se faz nesta ordem: o homem primeiro enche a memória de conhecimentos e cognições do vero e bem, pelos quais adquire para si o lume da razão; e aprende principalmente que há um
Deus, que o Senhor é o Deus do céu e da terra, que há um céu e um inferno, que há uma vida após a morte e que a Palavra é santa.
[5] (5.) Deve então aprender que os males são pecados, primeiro pelo Decálogo e depois pela Palavra em toda parte, e deve pensar que os pecados são contra Deus e por isso desviam e separam o homem do céu, e os condenam e adjuntam ao inferno. Daí é que a primeira coisa da reforma é desistir dos pecados, fugir deles e, finalmente, tê-los em aversão; mas, para que desista e fuja deles, e os tenha em aversão, deve suplicar o auxílio do Senhor, mas deve fugir e ter aversão deles porque são contra a Palavra, assim, contra o Senhor e, daí, contra o céu, e porque em si são infernais.
[6] (6.) Quanto mais o foge dos males e tem aversão a eles porque são pecados, e pensa sobre o céu, sua salvação e vida eterna, mais ele é adotado pelo Senhor e conjunto ao céu, e mais é dotado de afeição espiritual, que é não somente querer conhecer os veros, mas também entendê-los e, então, querê-los e fazê-los.
[7] (7.) Assim o homem é reformado pelo Senhor e, então, quanto mais conhece e entende os veros, e os quer e pratica, mais se torna novo, que é o homem regenerado e que se torna anjo do céu, que tem amor e vida celeste.
[8] (8.) O amor [a vida] são absolutamente como obras de sua vontade, e as obras de sua vontade são como os veros que são aplicados à vida. As cognições do vero e do bem que o homem adquiriu para si desde a infância, das quais encheu a memória, não vivem nele antes que ele comece a ser afetado pelos veros porque são veros, e comece a querê-los e fazê-los. Antes disso, estão somente fora da vida do homem.
[9] (9.) Por boas obras se entendem todas e cada uma das coisas que o homem faz depois de se ter desviado dos males porque são pecados contra Deus, pois então ele os faz e opera não mais por si, mas pelo Senhor. Então ele também aprende diariamente o que irá fazer e também discerne entre os bens e os males, fugindo deste e fazendo aqueles com prudência, inteligência e sabedoria. Estas coisas foram ditas a respeito do amor, que faz a vida do homem. Agora se dirá a respeito da fé.
[10] (10.) Os antigos não souberam o que é a fé, mas, em lugar da fé, tiveram a verdade, pois a verdade, quando foi percebida ou vista com o entendimento e assim reconhecida, é crida por si mesma. Por isso não se pode dizer a respeito dela que se deve ter fé nela, porque a fé está nela. Seja, por exemplo, alguém que vê num jardim uma árvore e uma flor, e outro lhe dissesse para ter fé que há uma árvore e que há uma flor, e que a árvore é assim e a flor é assim, acaso ele não responderia ao outro: “Por que queres que eu creia nisto, ou que tenha fé nisto, quando eu o vejo?” Daí é que os anjos do terceiro céu, porque percebem os veros a partir do bem, não querem sequer nomear a fé, e nem mesmo saber o que ela é; e que os anjos do segundo céu, porque veem os veros pela luz do vero, pela qual o entendimento deles é iluminado, não reconhecem o vocábulo fé. Ficam admirados e riem quando ouvem dizer que o entendimento deve estar cativo à obediência da fé, e que se deve ter fé em coisas não percebidas e não vistas. Dizem que, então, pode-se crer no falso e pô-lo na luz por meio de confirmações e o vero mesmo nas trevas, e assim pelo falso se brinca com o vero, como com uma bola.
[11] (11.) Quando o mundo não pôde mais ver os veros pelo amor deles e pela luz deles, pelo fato de as pessoas terem se tornado naturais e externas, então a fé começou a ser nomeada e tudo da fé ser chamado vero, ainda que não fosse percebido ou visto, mas somente afirmado por algum líder e confirmado por passagens na Palavra não compreendidas. Neste estado se acham hoje as igrejas no mundo cristão; em cada uma delas se crê que os doutrinas de sua fé são veros, e isto somente pelo fato de que são da igreja de sua pátria. Que, todavia, não se perceba nem se veja se são veros é evidente pelo fato de haver sobre os veros separações, disputas, opiniões e heresias em geral e em particular, tanto públicas quanto domésticas.
[12] (12.) Enquanto a fé foi conjunta às obras e se reconhecia a caridade no mesmo grau que a fé, ou acima dela, a igreja esteve nos veros da Palavra, mas entre poucos, porque não os viram. Mas tão logo a fé foi separada da caridade, a igreja caiu dos veros nos falsos e, finalmente, na fé que destruiu todos os veros da igreja. Esta fé é a fé da justificação e da salvação pelo mérito do Senhor no Pai, pois quando essa fé, só, salva, e ela é também separada dos bens da vida, que são as boas obras, para que servem os veros que ensinam o caminho e conduzem ao céu? Vive e crê da maneira que quiseres, e somente conserva essa fé, e serás salvo. Mas eu te direi, meu leitor, que todos aqueles que vivem essa fé estão no amor natural separado do amor espiritual, e o amor natural separado daquele é o amor de si e do mundo, e, assim, o amor de todos os males e dos males de todos os falsos; e que todos eles são tão vazios e, ao mesmo tempo, tão cegos, que não veem sequer um só vero genuíno da igreja e na Palavra, ainda que a tenham e leiam. E muitos deles são tais que não querem sequer saber ou ver vero algum.
[13] (13.) A razão disso é porque não existe no homem vero algum, ainda menos fé alguma, a menos que ele o queira e pratique. Antes disso não há o vero da vida, mas somente o vero da memória, que é um vero fora do homem e não dentro dele. E o que está fora dele é dissipado. Daí é evidente que a fé sem as obras não é fé a não ser a fé do falso oriundo do mal, que é uma fé morta, que reina no inferno.
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