. [Vers. 17] “Para que ninguém possa comprar e6 vender, se não tiver a marca da besta”. Que isto signifique a proibição de que ninguém aprenda ou ensina senão o que foi reconhecido e, daí, recebido na doutrina vê-se pela significação de ‘comprar’ e vender’, que é adquirir para si as cognições e comunicá-las aos outros, assim, também aprender e ensinar (de que se tratará a seguir); a proibição é significada por ‘para que ninguém possa’; e pela significação de ‘marca’ que é a testificação e o sinal do reconhecimento de que são da igreja os que estão nesses veros e bens, assim chamados, da fé (de que se tratou logo acima, n. 838). Daí é evidente que ‘fazer que ninguém possa comprar e vender, se não tiver a marca da besta’ significa a proibição de que ninguém aprenda ou ensine senão aquilo que é reconhecido, portanto, também o que foi recebido na doutrina. Que ‘comprar e vender’ signifique adquirir para si as cognições do vero e do bem da Palavra e comunicá-las aos outros, ou, o que é o mesmo, aprender e ensinar, é porque as ‘posses’ e as ‘riquezas’ significam na Palavra as cognições do vero e do bem, e a ‘prata’ e ‘ouro’, pelos quais se fazem as aquisições e as vendas, significam os veros e bens do céu e da igreja. Daí é, pois, que na Palavra se diz ‘comprar’, ‘vender’, e também ‘comerciar’ e ‘negociar’, e por elas são significadas as aquisições, as vendas, as comercializações e as negociações espirituais.
[2] Como em Isaías:
“Todos os que têm sede, ide às águas, e os que não têm prata, ide, comprai e comei; sim, ide, comprai sem prata e sem preço, vinho e leite” (Is. 55:1).
Que aqui por ‘comprar vinho e leite’ não se entenda comprar tais coisas cada um o vê; e como ‘comprar’ significa adquirir para si coisas tais que convêm à vida espiritual do homem, é evidente que cada coisa aí deve ser entendida espiritualmente. Assim, pelas ‘águas’, às quais ‘todo o que tem sede deve ir’ são significados os veros para os que os desejam; as ‘águas’ são os veros da Palavra, e a ‘sede’ é desejá-los. Que eles sejam dados de graça pelo Senhor é significado por ‘quem não tem prata’ e, também, por ‘sem prata e sem preço’; ‘comer’ significa apropriar-se; ‘vinho e leite’ significa o vero espiritual e, daí, o vero natural, ambos oriundos do bem.
[3] Em Mateus:
As virgens prudentes diziam às insensatas: “Ide antes aos que vendem e comprai para vós” óleo; “mas, indo a eles para comprarem, veio o noivo” (Mt. 25:9, 10);
pelas ‘virgens prudentes’ são significados aqueles em que, na igreja, a fé foi conjunta à caridade, e pelas ‘insensatas’ são significados aqueles que, na igreja, a fé foi separada da caridade, pois as ‘lâmpadas’ significam os veros da fé, e o ‘óleo’ significa o bem do amor; daí, por ‘ir aos que vender e comprar’ é significado ir àqueles que ensinam e aprender ou adquirir para si. Visto que, porém, não adquiriram para si o bem do amor, e por ele [não]vivificaram os veros da fé quando viveram no mundo, mas, de fato, o adquiram depois, e como ninguém pode adquirir para si o bem do amor após a morte e retê-lo, por isso aquelas virgens insensatas – pelas quais são significados todos os separam o bem do amor ou bem da caridade dos veros da fé – não foram admitidas nas núpcias nem recebidas pelo noivo; as ‘núpcias’ significam o céu, e o ‘noivo’, o Senhor.
[4] Nos Evangelhos:
“Entrou Jesus no templo... e expulsou todos os que vendem e compram no templo, e [virou] as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendem pombas” (Mt. 21:12; Mc. 11:15; Lc. 19:45);
pelos que ‘vendem e compram’, aqui, são significados os que tiram proveito das coisas santas; pelas ‘mesas dos cambistas’ são significados os que o fazem com os veros santos, e pelas ‘cadeiras dos que vendem pombas’ são significados os que o fazem com os bens santos. Por isso se diz depois que eles ‘tinham feito do templo uma caverna de ladrões’; ‘ladrões’ são os que depredam os veros e bens da igreja e, daí, os que tiram proveito para si.
[5] Em Lucas:
“Assim como aconteceu nos dias de Loth”, assim será nos dias do Filho do homem; “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, edificavam” (Lc. 17:28);
por ‘comer e beber’ é significado aí viver para si e o mundo, e apropriar-se dos males e falsos; por ‘comprar e vender’ é significado adquiri-los para si e comunica-los aos outros; por ‘plantar e edificar’ é significado confirmar-se neles e viver neles.
[6] No mesmo:
Jesus disse: “Agora, o que tem bolsa, tome[-a], semelhantemente... o alforje; mas, quem não tem, venda a sua vestimenta e compre uma espada” (Lc. 22:36).
O que se entende aqui por essas coisas se vê pela sequência ali, a saber, que ‘importava se cumprir o que foi escrito sobre o Senhor” (vers. 37), assim, que Ele havia de sofrer a cruz. Como isto não pode deixar de abater os ânimos daqueles que então viveram, e também os ânimos dos discípulos, e induzir dúvidas sobre Ele e o seu reino, e assim nas tentações, e elas não podem ser dissipadas senão pelos veros, por isso o Senhor disse: ‘Quem tem bolsa e alforje, tome[-os]”, a saber, quem possuísse os veros da Palavra, nos quais foi predito que Cristo sofreria tais coisas, tivesse cuidado para não os perder, pois ‘bolsa’ e o ‘alforje’ significam o mesmo que a moeda e o dinheiro neles, a saber, as cognições do vero e do bem da Palavra; ‘quem, porém, não tem, venda a sua vestimenta e compre uma espada’ significa que aqueles que não têm os veros rejeitem o proprium e adquiram para os veros com os quais combaterão os falsos; a ‘espada’ significa a luta do vero contra o falso e a destruição deste.
[7] Visto que ‘Tiro’ significa a igreja quanto às cognições do vero e do bem e, assim também, as cognições do vero e do bem que são da igreja e servem à sua doutrina, por isso, onde se trata de Tiro na Palavra, trata-se também de negociações, pelas quais é significada a aquisição das cognições e, também a comunicação delas aos outros. Como em Ezequiel:
“Todos os barcos do mar... foram... para negociar a tua negociação;... Tharschisch, tua negociante... por prata, ferro, estanho e chumbo deram as tuas mercadorias. Javan, Thubal e Meschech, eles, os teus mercadores, com alma de homens e vasos de cobre deram a tua negociação. Os filhos de Dedan, os teus mercadores; muitas ilhas [foram] os mercadores de tua mão. ... Síria, tua negociante... com crisópraso. ...Mas as tuas posses, e tuas negociações; teu mercado... os que negociam tua negociação... cairão no coração dos mares no dia de tua queda” (Ez. 27:1 ao fim).
Em Isaías:
“Uivai, barcos de Tharschisch, porque Tiro foi devastada... cujos mercadores [eram] príncipes, seus negociantes os honrados da terra” (Is. 23;1, 8).
Qualquer um pode ver que por ‘negociações’ e ‘mercadorias’ aí não se entendem negociações e mercadorias, pois o que essas coisas têm em comum com a Palavra, que em si é Divina e celeste, e ensina o homem sobre Deus, sobre o céu e a igreja, sobre a vida eterna e coisas semelhantes? Assim, quem não pode ver que cada coisa aí significa coisas espirituais que pertencem ao céu e à igreja? Não somente os nomes das terras ali, com as quais se fizeram as negociações, mas também as suas mercadorias. O que, porém, cada coisa significa no sentido espiritual, seria demasiadamente prolixo expor aqui. Basta que se saiba que as ‘negociações’ aí significam aquisições e comunicações de cognições do vero e do bem, e que as ‘mercadorias’ ou ‘lucros’ significam essas cognições, que são de muitas espécies.
[8] Que elas sejam significadas é evidente também por esta passagem em Ezequiel:
“Em tua sabedoria e em tua inteligência tinhas alcançado posses para ti, e tinhas alcançado ouro e prata em teus tesouros, pela multidão de tua sabedoria em tua negociação tinhas multiplicado posses para ti” (Ez. 28:4, 5).
Essas palavras tratam do príncipe de Tiro, por quem se entendem as cognições do vero da Palavra, pelas quais [teve] inteligência e sabedoria. E como essas mesmas cognições são significadas pelas ‘posses’, e a aquisição delas pela ‘negociação’, por isso se diz ‘pela multiplicação de tua sabedoria em tua negociação tinhas multiplicado posses para ti’.
[9] Por aí se pode ver donde procede
Que o Senhor comparou o reino dos céus “a um negociante buscando belas pérolas, que, quando encontrou uma preciosa... foi e vendeu todas as coisas que tinha, e a comprou” (Mt. 13:45, 46);
pelas ‘pérolas’ são significadas as cognições e também os veros mesmos, e por ‘uma preciosa’ é significado o reconhecimento do Senhor; e por ‘vender todas as coisas que tinha’ é significado deixar todas as coisas que são do amor do proprium, e por ‘comprá-la" é significado adquirir para si esse Divino Vero.
[10] Algo semelhante se entende pelo
Tesouro escondido no campo, “que, descoberto, um homem escondeu e, movido de regozijo, foi e vendeu tudo quanto tinha, e comprou... o campo” (Mt. 13:44);
pelo ‘tesouro’ é significado o Divino Vero que há na Palavra, e pelo ‘campo’ é significada a igreja e sua doutrina; por ‘vender tudo quanto tinha e comprar o campo’ é significado, aqui como acima, deixar o proprium e adquirir para si o Divino Vero, que está na igreja do Senhor.
[11] Como a ‘negociação’ significava a aquisição e a posse das verdades, por isso o Senhor falou por parábola
Sobre o homem que, indo ao estrangeiro, deu aos servos os seus talentos, para que negociassem com eles e lucrassem (Mt. 25:14-30),
e sobre outro
Que deu aos seus servos dez minas, para que negociassem com elas (Lc. 19:12-26).
Coisas semelhantes são significadas por ‘negociar’, ‘negociações’ e ‘negociantes’ em outras passagens na Palavra, como também no sentido oposto, no qual elas significam as recepções e as apropriações dos falsos (como em Is. 48:15; Ez. 16:3; Na. 3:14; Ap. 18:3, 11-24). Daí a igreja, onde há tais coisas, é chamada
“Terra de negociação” (Ez. 16:29; 21:30, 31; 29:14).
Além disso, ‘vender’ e ‘vendido’ significam deixar alienar [as cognições] e ser alienado por elas, e receber, em lugar delas, os falsos e por estes ser cativado (Is. 50:1; 52:3; Ez. 30:12; Joel 3:6, 7; Na. 3:4; Zc. 13:5; Sl. 44:11-13; Dt. 32:30). Por aí se pode ver o que propriamente significado por ‘redimido’ e por ‘redenção’, onde se trata do Senhor, como em Isaías:
“De graça fostes vendidos, por isso não por prata sereis redimidos” (Is. 52:3),
e em muitas outras passagens.
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