. “Se alguém tiver adorado a besta, e a sua imagem”. Que isto signifique que não reconheçam a religiosa da fé separada da vida e a sua doutrina vê-se pela significação de ‘besta’ que é a religiosidade a respeito da fé separada da vida (de se tratará a seguir); pela significação de ‘adorar’, que é reconhecer e crer (de que se tratou acima, n. 790, 805 e 821); e pela significação de ‘sua imagem’, que é a doutrina dessa religiosidade e ordem prescrita para que assim ensinassem e cressem (de que se tratou acima, 8217). Pela ‘besta’, a qual não deviam adorar, nem a sua imagem, entende-se ‘a besta que subia do mar’ (da qual se tratou no capítulo precedente, vers. 1), pela qual são significados os raciocínios do homem natural que confirmam a separação entre a fé e a vida (de que se tratou acima, n. 774). Que se entenda essa besta é evidente pelo vers. 14 do capítulo precedente. Mas pela segunda ‘besta’, que foi vista ‘subir da terra’, são significadas as confirmações tiradas da Palavra em favor dessa separação (de que se tratou acima, n. 815). Que não adorassem a primeira ‘besta e a sua imagem’, e que os que a adorassem ‘seriam atormentados com fogo e enxofre’ é porque as passagens tiradas da Palavra para confirmar a separação entre a fé e as boas obras, sem os raciocínios do homem natural, não implantam o falso e o mal, mas, sim, pelos raciocínios, pois os raciocínios as falsificam, porquanto nada do que está na Palavra pode ser falsificado sem os raciocínios do homem natural. De que maneira eles tinham falsificado a Palavra é o que foi mostrado acima em muitos lugares.
[2] Que seja assim, pode-se ver principalmente nas igrejas em que a fé, só, foi recebida como meio essencial de salvação, pelo fato de ensinaram de um modo os que o fazem por sua doutrina e, daí, pela Palavra, e de modo diferente aqueles que o fazem pela Palavra e não ao mesmo tempo por sua doutrina. Os que ensinam por sua doutrina e, daí, pela Palavra, falsificam todas as coisas da Palavra, mas os que ensinam pela Palavra e não ao mesmo tempo por sua doutrina não as falsificam. A razão disso é que a doutrina está cheia de raciocínios, embora os raciocínios não apareçam tanto, mas a Palavra é isenta de raciocínios. Daí vem que nessas igrejas a fé conjunta à vida é ensinada por muitos, assim como a vida conjunta à fé, mas, pelos outros, a fé separada da vida. Isto fazem os eruditos que ensinam pela doutrina, e aquilo os eruditos e não eruditos que ensinam pela Palavra. Assim, andam em direção contrária. Não obstante, os defensores da doutrina permitem também isso, mas pelo fato de que a Palavra ensina claramente a vida e a fé segundo a vida, e porque os simples não podem ser ensinados de outro modo senão segundo o sentido proeminente da Palavra. E alguns [o permitem] porque não podem resistir abertamente a essa verdade, pois a verdade opera e persuade tacitamente, pois influi do céu em cada um e é recebida por aqueles que não vivem no mal e não confirmaram por muitos argumentos a fé só desde a meninice e, então, pelo orgulho de uma erudição maior do que a dos outros, principalmente nos dogmas da justificação por ela, na qual põem a glória da erudição superior. Esses, todavia, pensam diferentemente de coração quando ouvem dos outros as confirmações da Palavra em favor da vida, pois pensam que a fé, só, contém em si as obras, e que são conjuntas segundo o dogma da justificação, embora isso, conforme é ensinado por muitos, mais separa entre as obras e a fé do que as conjunta com a fé, e mesmo as removem para que não justifiquem, na medida em que nelas houver algo do homem ou de sua vontade.
[3] Que nas igrejas onde foi recebida a fé, só, se ensine pela Palavra completamente diferente de quando pela doutrina pode ser confirmado por muitos exemplos, como na Igreja Anglicana e na Igreja Luterana. É sabido que a doutrina da Igreja Anglicana ensina a fé só, e que os pregadores adjuntam a ela as obras de um modo sagaz, engenhoso e elegante, como que encerradas na fé; e que por fé eles entendem algum esforço, como da afeição de fazer o bem. São esses principalmente que foram justificados pela fé, só, ao terceiro ou ao quarto grau, e aqueles em quem a fé, só, não teve operação a esse grau são, todavia, salvos, porque na fé se encerra o bem da vida, assim como na semente está a faculdade de produção do fruto. Acima, nas explicações dos capítulos décimo segundo e décimo terceiro, mostrou-se, porém, que tais coisas são o feto da disposição de se gloriar e jactanciar por causa da erudição superior e da engenhosidade mais do que os outros. Que na Igreja Anglicana se ensine coisa completamente diferente quando pela Palavra e não ao mesmo tempo pela doutrina, seja para confirmação o que se ensina naquela igreja em cada dia festivo e se lê por aqueles que participam da Santa Ceia, que é o seguinte:
“O caminho e o maio para isso é, primeiro, examinar as vossas vidas e as suas conversações pelas regras dos mandamentos de Deus, e onde quer que percebais que tendes ofendido, seja por vontade, palavra ou feito, arrependerdes de vossa pecaminosidade e confessardes ao Deus Todo-poderoso com o pleno propósito de correção da vida; e se perceberdes que vossas ofensas são tais que não são somente contra Deus, mas também contra os vossos próximos, então reconciliar-vos-eis com eles, prontos para dardes restituição e satisfação de acordo com o máximo de vossa força, por todas as injúrias e malfeitos que tiverdes feito aos outros, e igualmente prontos para perdoar os outros que vos têm ofendido, tal como teríeis das mãos de Deus o perdão de vossas ofensas, pois de outro modo receber a santa comunhão nada vos fará senão aumentar a vossa danação. Por isso se algum dentre vós for um blasfemador de Deus, um tropeço ou caluniador de Sua Palavra, um adúltero, ou está em malícia ou inveja, ou em qualquer outro crime grave, arrependa-se dos seus pecados, ou então não venha à santa mesa; para que após tomar que santo sacramento o diabo não entre em ti, como entrou em Judas, e te encha de todas as iniquidades, e te leve à destruição do corpo e da alma. "
Aqui, nem sequer se nomeia a fé, mas somente se ensinam as obras, porque tais coisas vêm da Palavra e não ao mesmo tempo da doutrina.
[4] Também a Fé Atanasiana – que nessa igreja é lida tantas vezes todos os anos nos dias festivos diante do povo, e oi recebida por vem de Concílio, como a doutrina geral da trindade em todas as igrejas cristãs – ensina isto a respeito do Senhor e do juízo final por Ele:
“Todos os homens darão conta de suas próprias obras, e os que tiverem feito o bem irão para a vida eterna, e os que tiverem feito o mal, para o fogo eterno. Esta é a fé universal, que, a menos que o homem creia fielmente, não pode ser salvo”.
Considera agora, reflete e examina, se esses que pregam tão engenhosamente pela doutrina, ou que creem coisas semelhantes, não incluem tais coisas que são da fé como que encerradas nessas palavras. E como esses creem que as obras não justificam, e que ninguém pode fazer por si mesmo o bem que é bem, e que o bem feito pelo homem tem em si o mérito, eles omitem o fazer, e creem que são salvos pela vida encerrada na fé só, isto é, na fé separada das boas obras. Mas posso testemunhar que todos os que assim creem e, ao mesmo tempo, assim vivem, vão todos para o inferno, enquanto aqueles que vivem segundo os preceitos na recitação preparatória para a Santa Ceia, e segundo as coisas da Fé Atanasiana dita por último, vão para o céu. Além disso, estes têm a fé, mas aqueles não a têm, por mais que achem que têm. Diz-se ‘os que creem e ao mesmo tempo vivem pela doutrina’ porque muitos, principalmente os mais simples, creem pela doutrina, mas não vivem ao mesmo tempo por ela, e esses são salvos.
[5] É o mesmo na Igreja Luterana. Ali também andam em sentido contrário os que ensinam pela doutrina e os que ensinam pela Palavra. Os que ensinam pela doutrina ensinam de modo absolutamente semelhante aos que na Igreja Anglicana ensinam sobre a fé só e a justificação por ela, e então separam e removem as obras do meio de salvação, como se não fossem bens e fosse meritórias e, assim, não justificantes, porque vêm do homem. Quando, porém, ensinam pela Palavra, então ensinam semelhantemente as obras, como se pode ver pelas coisas que foram escritas para a assembleia geral e, por isso, inseridas em todos os livros dos salmos e chamadas “Empecilhos dos Impenitentes”, onde se acham as seguintes palavras:
“A santa vontade de Deus e Seu mandamento manifesto é que aqueles que creem pratiquem boas obras; quando estas são feitas por causas justas e visam um propósito verdadeiro, quais são principalmente as que se fazem por causa de Deus e por causa do uso do próximo, eles são aceitas por Deus por causa de Cristo; de fato, Ele as recompensa por pura misericórdia, de modo que o homem tem recompensa por todo bem que faz, porque Deus dá louvor e honra e bem-aventurança eterna àqueles que com paciência se esforçam por meio de obras para alcançar a vida eterna. Portanto Deus olha com atenção para as obras dos homens, como Ele manifestou em Sua fala às sete igrejas da Ásia, e a todos os homens onde se trata do Juízo Final, e, por esse motivo, o apóstolo Paulo usa essas admoestações para exortar seus ouvintes às boas obras, dizendo: ‘Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo o ceifaremos sem cessar" (Gl. 6:9). Portanto, aqueles que são ricos em boas obras manifestam isso por serem ricos na fé, uma vez que, enquanto a fé é viva, ela opera pela caridade. Sim, a fé, que por si só justifica, nunca é sozinha e separada, mas traz consigo boas obras, como uma boa árvore dá bons frutos; o sol, a luz; o fogo, o calor; e a água, a umidade.”
Por aí se pode ver agora que nessas igrejas se ensina uma coisa pela doutrina em daí, pela Palavra, e outra coisa quando pela Palavra e não ao mesmo tempo pela doutrina; e aqueles que ensinam e vivem ao mesmo pela doutrina se entendem por aqueles que ‘adoram a besta e sua imagem” (dos quais se trata agora nos versículos 9-11); e aqueles que ensinam e vivem pela Palavra se entendem por aqueles de quem se diz (no versículo seguinte, 12): ‘Aqui está a paciência dos santos, e aqui os que guardam os mandamentos de Deus, e a fé de Jesus”.
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