. Uma vez que aqui, como em muitas outras passagens no Apocalipse, se dizem ‘obras’, e, aqui, que ‘as obras seguem com eles’, e por isto é significada a vida espiritual, dir-se-á alguma coisa a respeito de que maneira essa vida é adquirida e de que maneira ela foi destruída pela fé de hoje. A vida espiritual é adquirida unicamente por uma vida segundo os preceitos na Palavra. Os preceitos são, em suma, as coisas que há no Decálogo, a saber, Não adulterarás, não roubarás, não matarás, não testemunharás falsamente, não cobiçarás os bens dos outros. Esses preceitos se entendem pelos preceitos que se devem fazer. Quando, pois, o homem os faz, então as suas obras são boas, e sua vida se torna espiritual. A razão disso é que quanto mais o homem foge dos males e os odeia, mais quer os bens e os ama.
[2] Há, com efeito, duas esferas opostas que rodeiam o homem, uma do inferno, outra do céu; do inferno, a esfera do mal e, daí, do falso; do céu, a esfera de bem e, daí, de vero. E essas esferas [não] afetam o corpo, mas afetam as mentes dos homens, pois são esferas espirituais e, assim, são afeições que pertencem ao homem. O homem foi posto no meio delas; portanto, quando mais se aproxima de uma, mais se afasta da outra. Daí é que, quanto mais o homem foge dos males e lhes tem ódio, mais quer e ama os bens e, daí, os veros, pois
Ninguém pode servir ao mesmo tempo a dois senhores, pois ou terá ódio a um... ou amará o outro” (Mt. 6:24).
[3] Cumpre saber, porém, que o homem deve cumprir esses preceitos pela religião, porque foram mandados pelo Senhor; se os cumpre por outra causa qualquer, como se somente pela lei civil ou pela lei moral, o homem permanece natural e não se torna espiritual, porque, se o homem o faz pela religião, então reconhece de coração que há um Deus, que há um céu e um inferno e que há uma vida após a morte. Se, porém, o faz somente pela lei civil e moral, então pode fazer as mesmas coisas e, todavia, negar de coração que há um Deus, que há um céu, um inferno e uma vida após a morte. Esse, se foge dos males e faz os bens, é somente na forma externa e não na interna; assim, é exteriormente, quanto à vida do corpo, semelhante a um cristão, mas interiormente, quanto à vida de seu espírito, semelhante a um diabo. Por aí é evidente que o homem não pode se tornar espiritual, ou receber a vida espiritual, de outra maneira senão por uma vida segundo a religião pelo Senhor.
[4] Que seja assim, é o que me foi confirmado pelos anjos do terceiro ou íntimo céu, que estão na maior sabedoria e felicidade. Sendo interrogados de que modo se tornaram tais anjos, disseram que, quando viveram no mundo, tinham considerado como nefandos os pensamentos impuros, que para eles também eram adultérios; semelhantemente, as fraudes e os lucros ilícitos, que para eles eram furtos; também os ódios e as vinganças, que para eles eram homicídios; e as mentiras e blasfemas, que para eles eram falsos testemunhos, e coisas semelhantes. Interrogados, em seguida, se não tinham feito os bens, disseram que tinham amado a castidade, na qual estiveram pelo fato de terem considerado nefandos os adultérios; que tinham amado a sinceridade e a justiça, nas quais estiveram pelo fato de terem considerado nefandos as fraudes e os lucros ilícitos; que tinham amado o próximo, pelo fato de terem nefandos os ódios e as vinganças; que tinham amado a verdade, pelo fato de terem considerado nefandos as mentiras e blasfêmias; e assim por diante. Depois, que tinham percebido que, sendo aqueles males removidos, agiram pela castidade, pela sinceridade, pela justiça, pela caridade e pela verdade não por si mesmos, mas pelo Senhor, e que assim eram boas obras todas e cada uma daquelas ações, ainda que as tivessem feito como por si mesmos. E que daí é que, depois da morte, foram transportados pelo Senhor ao terceiro céu. Por aí ficou evidente para mim de que maneira é adquirida a vida espiritual, que é a vida dos anjos do céu.
[5] Agora, porém, se dirá de que maneira essa vida é destruída pela fé de hoje. A fé de hoje é que se deve crer que Deus Pai enviou o Seu Filho, que sofreu a crus por nossos pecados, e tirou a danação da lei pelo cumprimento dela, e que essa fé, sem as boas obras, salva qualquer um, até mesmo na última hora da morte. Por essa fé, implantada desde a meninice e, em seguida, confirmada pelas pregações, aconteceu que ninguém foge dos males por causa da religião, mas somente por causa da lei civil e moral; por conseguinte, não porque são pecados, mas porque são danosos. Considera se, quando o homem pensa que o Senhor sofreu por nossos pecados, que tirou a danação da lei, e que crer nisso ou ter fé disso somente, sem as boas obras, salva, acaso não despreza todas as coisas do Decálogo e toda a vida da religião prescrita na Palavra e, além disso, todos os veros que ensinam a caridade. Separa, portanto, estas coisas e as remove do homem; acaso existe nele alguma religião? Porquanto a religião não consiste somente em pensar nisto ou naquilo, mas em querer e fazer aquilo que se pensa, e não há religião alguma quando se separa do pensar o querer e fazer. Segue-se daí que pela fé de hoje é destruída a vida espiritual, que é a vida dos anjos do céu e a vida cristã mesma.
[6] Considera, além disso, de onde procede que os dez preceitos do Decálogo foram promulgados do Monte Sinai por meio de tantos milagres, que esses preceitos foram esculpidos nas duas tábuas de pedra, e foram postos na arca, sobre a qual foi posto o propiciatório com os querubins, e o lugar onde esses preceitos foram postos foi chamado santo dos santos, no qual não foi permitido a Aarão entrar senão uma vez a cada ano, e isto com sacrifícios e incenso, e se entrasse ali sem isso sucumbiria morto; e também que por essa arca tenham sido feitos depois tantos milagres. Acaso em todas as terras do não se conheciam semelhantes preceitos? Acaso as leis civis deles não ditam as mesmas coisas? Quem não sabe, apenas pelo lume natural, que, por causa da ordem em todo reino, não se deve adulterar, não se deve roubar, não se deve matar, não se deve testemunhar falsamente, e muitas outras coisas que ali há? Por isso, então, todas essas coisas foram promulgadas por meio de tantos milagres e deviam ser consideradas tão santas, Acaso não foi, portanto, para que cada um as praticasse pela religião e, assim por Deus, e somente por causa da lei civil e moral, assim, por causa de si e do mundo? Esta foi a causa da promulgação dos preceitos desde o Monte Sinai e a causa da santidade deles, pois praticar esses preceitos pela religião purifica o homem interno, abre o céu, admite ao Senhor e faz o homem, quanto ao seu espírito, um anjo do céu. Daí é, também, que as nações que estão fora da igreja que praticam esses preceitos pela religião são todas salvas, e não alguém que o faz somente pela lei civil e moral.
[7] Examina agora, se acaso a fé de hoje – que é que o Senhor sofreu a paixão por nossos pecados, que Ele tirou a danação da lei por seu cumprimento, e que o homem é justificado e salvo por essa fé sem as obras da lei – não dissipa todos esses preceitos. Amplia a tua visão e investiga, quantos hoje há no mundo cristão que não vivem essa fé. Sei que responderão que são homens fracos e frágeis, nascidos em pecados, e coisas semelhantes. Mas, quem não pode pensar pela religião? Isto o Senhor dá a cada um, e naquele que pensa nisso pela religião o Senhor opera todas as coisas na medida em que pensa. E saibas que aquele que pensa nisso pela religião, esse crê que há um Deus e que há um céu, um inferno e uma vida após a morte. Quem, porém, não pensa nisso pela religião, asseguro que esses não crê em tais coisas.
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