AE 923

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E saiu sangue do lagar até os freios dos cavalos”. Que isto signifique as falsificações da Palavra, provenientes do mal, até a dominação sobre o entendimento vê-se pela significação de ‘sair do lagar’, que é ser produzido ou provir do mal (a cujo respeito se vê nos artigos n. 920 e 922, acima); pela significação de ‘sangue’, que é a falsificação da Palavra, pois pelo ‘sangue’, no sentido genuíno, é significado o Divino Vero, mas no sentido oposto é significada a violência feita ao Divino Vero ou Palavra, que é a sua falsificação (dessa significação de ‘sangue’ vide acima, n. 329); e pela significação de ‘até os freios dos cavalos’, que é até o domínio sobre o entendimento, pois pelos ‘cavalos’ é significado o entendimento, e pelos ‘freios deles’ o governo e o domínio, porque o cavaleiro governa os cavalos pelo freio e domina sobre eles. (Que os ‘cavalos’ aqui signifiquem o entendimento do vero da Palavra vide acima, n. 355 e 364; e que os ‘freios’ signifiquem o governo e o domínio ver-se-á abaixo).
[2] No que concerne ao domínio sobre o entendimento, isto se refere ao entendimento do vero, pois quando os falsos da religião são confirmados pelo sentido da letra da Palavra, então o entendimento do vero não vê mais o vero, pois cada um que está na afeição do vero espiritual é iluminado pelo Senhor quando lê a Palavra, e é o entendimento que é iluminado. Quem, todavia, não está na afeição do vero espiritual não pode ser iluminado quanto ao entendimento, pois esse vê o vero como que na noite, e o falso como que na luz. E como a igreja é tal em seu fim, o entendimento do vero pereceu tanto que não pode ser iluminado, pois então os falsos da religião são, na mesma medida, confirmados pela Palavra, isto é, a Palavra falsificada. Isto acontece naqueles que se entendem pela ‘Babilônia’, no vers. 8, e pela ‘besta’, no vers. 10 deste capítulo, pois da ‘Babilônia’ se diz que ‘do vinho da ira de sua escortação deu a beber todas as nações’; e da ‘besta’, ali, que ‘quem adorar a besta beberá do vinho da ira de Deus misturado ao vinho puro de Sua inflamação”. Que por uma e outra expressões sejam significadas as falsificações da Palavra vê-se acima (n. 881 e 887).
[3] Que o entendimento do vero na Palavra tenha perecido naqueles que se entendem pelos ‘habitantes de Babilônia’ e pelos ‘adoradores da besta’ é porque eles não têm bem espiritual algum, e é unicamente esse bem, que é o bem da caridade oriundo do Senhor, que abre a mente espiritual, pela qual o Senhor influi e ilumina, e sem a abertura dessa mente não pode haver iluminação nem, por conseguinte, entendimento do vero. Muito se engana quem crê que pelo lume da razão, somente, pode ver algum vero da igreja; pode, de fato, saber o que é esse vero por outrem, mas não pode vê-lo na luz; quando quer vê-lo ou compreendê-lo no pensamento, as meras trevas dos falsos, que brotam das falácias e do proprium do homem, [o] desviam e cegam. Por aí se pode ver o que se entende pelas falsificações da Palavra, provenientes do mal, até o domínio sobre o entendimento, que são significadas pelo ‘sangue saindo do lagar até os freios dos cavalos’.
[4] Na Palavra se fala do ‘freio’ em algumas passagens, e por ele é significado, no sentido espiritual, a coerção e o governo, e se atribui ao entendimento e seu pensamento, pelo fato de que o freio pertence ao cavalo, e pelos ‘cavalos’ é significado o entendimento. E naqueles em que não há entendimento, pelos ‘cavalos’ são significados os raciocínios pelos falsos. Daí é evidente o que é significado pelo ‘freio’ em Isaías:
“Porei o Meu anzol no teu nariz, e Meu freio nos teus lábios, e te farei voltar pelo caminho pelo qual vieste” (Is. 37:29).
Essas palavras tratam do rei da Assíria, por quem é significado o raciocínio pelos falsos, pois pela ‘Assíria’, no bom sentido, é significado o racional. Como esse rei obsedava então Jerusalém e blasfemava de Deus, foi-lhe dito que ‘seria posto um anzol em seu nariz’, pelo que é significado que teria estupidez e fatuidade, pois o ‘nariz’ significa a percepção, e ‘anzol’ a sua extração, propriamente a imersão no sensual corpóreo, que, separado do racional, é estúpido. Também se diz que ‘seria posto um freio em seus lábios’, pelo que é significada a insanidade quanto ao entendimento do vero, pois os ‘lábios’ significam o pensamento pelo entendimento, e ‘freio’ a sua retração. ‘Fazê-lo voltar pelo caminho pelo qual veio’ significa nos falsos, pelos quais havia de perecer. Por isso, o seu exército, pelo qual são significados os falsos, pereceu numa grande derrota.
[5] No mesmo:
“Os lábios” de Jehovah “estão cheios de indignação... Sua língua como um fogo que devora, e Seu fôlego como um rio que inunda, dividirá até o pescoço, para peneirar as nações com peneira de vaidade, e um freio que seduz {estará} sobre as queixadas dos povos” (Is. 30:27, 28);
por ‘lábios’, ‘língua’ e ’fôlego’ de Jehovah é significado o Divino Vero, que é a Palavra, desde os seus últimos até os íntimos. Deste é que se diz estar ‘cheio de indignação’, ‘como fogo que devora’ e ‘como rio que inunda’, quando é adulterado e falsificado, pelo fato de que a sua adulteração e falsificação fecha o céu para o homem e o devasta. Por causa da aparência de que é o céu que faz isso, ou, o que é o mesmo, o Divino Vero que vem do céu, é que se diz que tem indignação, é um fogo que devora e um rio que inunda; ‘dividirá até o pescoço’ significa a sua devastação pelos falsos até que não seja compreendido, pois pelo ‘pescoço’ é significada a conjunção, que perece quando é tirado aquilo que está embaixo; ‘para peneirar as nações com peneira de vaidade’ significa a adulteração da Palavra por meio de ficções, por aqueles que estão nos males; ‘e um freio que seduz {estará} sobre as queixadas dos povos’ significa a falsificação do vero na Palavra por aqueles que estão nos falsos; o ‘freio que seduz’ é propriamente a abstração do entendimento do vero, as ‘queixadas’ são os pensamentos pelo sensual corpóreo e as ‘nações’ se dizem dos que estão nos males. Quem não conhece as correspondências pode achar que o ‘freio dos cavalos’ significa o governo sobre o entendimento somente por comparação, mas isto vem da correspondência, o que se pode ver claramente pelo fato de que no mundo espiritual aparecem cavalos diversamente arreados e ajaezados, e todas as coisas que há nos cavalos, juntamente com eles, são correspondências.

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