. “Ide e derramai as taças da ira de Deus na terra.” Que isto signifique o estado da igreja devastada vê-se pela significação de ‘taças da ira de Deus’, que são os males e falsos que devastaram a igreja (pois pelas ‘taças da ira de Deus’ são significadas as mesmas coisas que pelas ‘pragas’ (capítulo precedente, 15, vers. 6, pois ali se diz que ‘sete anjos saíram do templo tendo as sete pragas’, e pela ‘pragas’ ali são significados os males e os falsos daí, e os falsos e os males daí, que devastaram a igreja (vide acima, n. 949); as mesmas coisas são significadas pela ‘ira de Deus’, pois diz-se ‘ira de Deus’ a respeito dos males e falsos, que devastam os bens e veros da igreja); e pela significação de ‘terra’, que é a ih (de que se tratou nos n. 29, 304, 417, 697, 741, 752 e 876). Que ‘derramar essas taças na terra’ signifique o estado da igreja assim consumado é porque as vastações da igreja são atribuídas a Deus na Palavra, consequentemente, que elas provêm do céu, embora nadas delas seja feita por Deus, mas pelo homem somente. Entretanto, assim se diz no sentido da letra da Palavra, porque assim aparece aos homens, e esse sentido, por ser o último, consiste de aparências.
[2] Que se digam ‘taças’ é porque as taças são vasos, e os ‘vasos’ significam o mesmo que os conteúdos, assim como os ‘cálices’, as ‘vasilhas de beber’ [scyphi], os ‘copos’ com o vinho ou outro líquido neles, e assim como as ‘acerras’ e os ‘turíbulos’ em lugar do incenso, e muitos outros vasos. A razão é que o sentido da letra da Palavra é o sentido último do Divino Vero, e, por isso, consiste dos últimos que estão na natureza, pois é sobre os últimos que as coisas interiores ou superiores se estruturam e fundamenta. Que as ‘taças’, os ‘cálices’, os ‘copos’, as ‘vasilhas de beber’ [scyphi], as ‘travessas’ [paropsides] sejam citados em lugar dos conteúdos e que, por isso, signifiquem coisas semelhantes, vê-se pela Palavra. Aí, pois, significam os falsos vindos do inferno e, assim, a embriaguez ou a insanidade, além de significarem também as tentações. Assim também os veros vindos do Senhor e, daí, a sabedoria. Que signifiquem os falsos vindos do inferno e, assim, a insanidade, vê-se pelas seguintes passagens. Em Jeremias:
“Disse Jehovah: ... Toma este cálice do vinho da ira” de Jehovah “da Minha mão e dá a beber... todas as nações às quais Eu te envio, para que bebam e tropecem, e enlouqueçam por causa da espada. ... Quando se recusarem a receber o cálice de tua mão para beberem, lhes dirás: Assim disse Jehovah Zebaoth, bebendo bebereis” (Jr. 25:15, 16, 28);
pelo ‘cálice de vinho’ aqui é significado o falso que vem do inferno; por ‘beber’ é significado apropriar a si; por ‘enlouquecer’ é significado enlouquecer espiritualmente, o que acontece quando o falso é chamado vero e o vero, falso; pelas ‘nações’ que beberão são significados os maus e, no sentido abstrato, os males, pois ali são enumeradas muitas nações que haveriam de beber, mas, no entanto, não são elas, mas os males que por elas são significados, e são os males que bebem, isto é, apropriam a si os falsos. Que pelo ‘cálice de vinho’ seja significado o falso é também evidente pelo fato de se dizer: ‘para que enlouqueçam por causa da espada’, pois pela ‘espada’ é significado o falso que destrói o vero.
[3] No mesmo:
“Babel é um cálice de ouro na mão de Jehovah, que embriaga toda a terra; de seu vinho beberão todas as nações; por isso as nações enlouquecem” (Jr. 51:7);
pelo ‘cálice de ouro’ é significado o falso que destrói o bem; por ‘Babel’ é significado o domínio por meio das coisas santas da igreja sobre o céu e sobre as almas dos homens, domínio do qual brotam os falsos profanos; por ‘embriagar a terra’ é significado entorpecer a igreja para não mais veja vero algum; o ‘vinho’ significa esse falso.
[4] Em Ezequiel:
“No caminho de tua irmã andaste; por isso darei o seu cálice na tua mão. Assim disse o Senhor Jehovih: O cálice de tua irmã beberás, profundo e largo; servirás de riso e zombaria; amplo para caber; de embriaguez e de tristeza te encherás, o cálice da devastação e da desolação, o cálice de tua irmã Samaria, o qual beberás e espremerás, e farás em pedaços os vasos” {???} (Ez. 23:31-34).
Essas palavras são a respeito de Jerusalém, pela qual é significada a igreja celeste quanto à doutrina, e por ‘Samaria’ aí, que é a ‘irmã’, é significada a igreja espiritual, também quanto à doutrina, pois a nação judaica representava o reino celeste do Senhor, e a nação israelita o Seu reino espiritual. Aqui, porém, por ‘Jerusalém’ e ‘Samaria’ é significada a igreja devastada quanto a todo bem e vero. A devastação plena da igreja com a nação judaica é descrita pelo ‘cálice da irmã, profundo e largo’ e por ‘encherem-se de embriaguez e de tristeza’, por ‘beberem o cálice, espremerem, e fazerem em pedaços os vasos’. Diz-se ‘cálice de devastação e de desolação’ porque ‘devastação’ se atribui ao bem, e ‘desolação’ ao vero.
[5] Em Zacarias:
“Eis que ponho Jerusalém por cálice de estremecimento por todos os povos ao redor” (Zc. 12:2);
em Habacuque:
“Serás saciado de ignomínia mais do que de glória; bebe também tu, para que teu prepúcio seja revelado; virá ao teu redor o cálice... de Jehovah, para que vômito ignominioso estará sobre a tua glória” (Hb. 2:16);
o ‘cálice’ está em lugar do vero falsificado, que em si é o falso e ao qual se atribui ‘vômito ignominioso’; por isso se diz: ‘sobre a tua glória’; por ‘glória’ é significado o Divino Vero na Palavra. Nas Lamentações:
“Regozija e alegra[-te], ó filha de Edom; ...também a ti passará o cálice; embriagar-te-ás e [te] revelarás” (Lm. 4:21);
pelo ‘cálice’ aqui são significadas coisas semelhantes.
[6] Em David:
Jehovah “fará chover sobre os laços ímpios fogo e enxofre, e um vento de procelas [será] a porção do cálice deles” (Sl. 11:6);
no mesmo:
“Um cálice na mão de Jehovah, e misturou com vinho; encheu de mistura, e derramou dali; mas as suas fezes sorverão, beberão todos os ímpios da terra” (Sl. 75:8);
por ‘laços, fogo e enxofre’ são significados os falsos e males que seduzem, e pelo ‘vento de procelas’ é significado o veemente assalto do vero; tais coisas são chamadas ‘porção do cálice’ porque o cálice, como o continente, as significa; por ‘misturar’ e ‘encher de mistura’ é significado falsificar o vero e profaná-lo.
[7] Em todas essas passagens se atribui a Jehovah a devastação do vero e do bem pelos falsos e males, pois se diz que ‘tomarão o cálice da ira de Jehovah da mão d’Ele’, que ‘Jehovah misturou com o vinho e encheu de mistura’ e também que há ‘um cálice na mão de Jehovah’, mas deve-se entender que nada da devastação vem de Jehovah, porque tudo dela vem do homem. A razão pela qual se diz assim é que o homem natural não vê de outro modo senão que Deus fica irado, castiga, condena e lança ao inferno aqueles que O vilipendiam e blasfemam; em suma, os que não Lhe dão glória. Visto que pensar assim é natural, por isso no sentido da letra da Palavra, que é natural, se diz assim.
[8] Igualmente a outras passagens no Apocalipse:
Quem tiver adorado a besta “beberá do vinho da ira de Deus, misturado ao vinho puro no copo da inflamação d’Ele” (Ap. 14:9, 10);
“A grande Babilônia veio à memória diante de Deus, para lhe dar o copo do vinho da inflamação da ira d’Ele” (Ap. 16:19);
“Uma mulher... tendo um copo de ouro em sua mão, cheio de abominações e de imundícies de escortação” (Ap. 17:4);
“Duplicai-lhe em dobro conforme as suas obras; o copo, que misturou, mistura-lhe em dobro” (Ap. 18:6).
Por aí é evidente o que é significado pelas ‘taças’ dos sete anjos, que eles derramaram na terra, no mar, nos rios, nas fontes de águas, no sol, sobre o trono da besta, no rio Eufrates e no ar, a saber, são os estados de devastação que são descritos por elas.
[9] Que o ‘cálice’ ou ‘copo’ signifique as tentações pode-se ver pelas seguintes passagens. Nos Evangelhos:
Jesus disse aos filhos de Zebedeu: “Não sabeis o que pedis; acaso podeis beber o copo que beberei, e serdes batizados com o batismo que serei batizado? Diziam... Podemos. Então lhes disse: Meu copo, de fato, bebereis, e series batizado com o batismo com que serei batizado” (Mt. 20:22, 23; Mc. 10:38, 39).
Mas essas palavras se veem explicadas acima (n. 893). Nos mesmos:
“Jesus... disse a Pedro: … O copo que Meu Pai Me deu, não hei de beber dele?” (Jo. 18:11);
Jesus, no Gethsemane, disse: “Se possível, passa de Mim este cálice” (Mt. 26:39, 42, 44; Mc. 14:36; Lc. 22:42).
Que nessas passagens o ‘copo’ ou ‘cálice’ signifique as tentações é evidente, semelhantemente a Isaías (51:17, 22), onde também é chamado ‘cálice da ira de Deus’ e ‘cálice de estremecimento’.
[10] Uma vez que o ‘cálice’ signifique o mesmo que o ‘vinho’, e o ‘vinho’, no bom sentido, significa o Divino Vero, por isso este também é significado pelo ‘cálice’ nas seguintes passagens. Nos Evangelhos:
Jesus, “tomando o copo, e dando graças, deu” aos discípulos, “dizendo: Bebei dele todos, pois este é o Meu sangue, o do Novo Testamento” (Mt. 26:27, 28; Mc. 14:23, 24; Lc. 22:17, 18).
Como pela ‘sangue do Senhor’ é significado o Divino Vero procedente d’Ele, e semelhantemente pelo ‘vinho’, consequentemente, pelo ‘copo’, por isso disse: ‘Este é o Meu sangue’; e como pelo Divino Vero há conjunção do Senhor com a igreja, por isso disse: ‘O do Novo Testamento’, ou, ‘da Nova Aliança’. (Que o ‘sangue do Senhor’ signifique o Divino Vero vê-se nos n. 328, 329, 476 e 748; e que a ‘aliança’ signifique a conjunção, n. 701).
[11] Em David:
“Jehovah é a porção de minha parte, e o meu cálice; Tu, que sustentas a minha sorte” (Sl. 16:5);
no mesmo:
“Porás perante mim uma mesa diante dos meus inimigos; engordarás [pinguefacies] com óleo a minha cabeça, o meu copo transbordará” (Sl. 23:5).
Nessas passagens, o ‘cálice’ está em lugar do Divino Vero. Como o ‘cálice’ significa isto, por isso é chamado
“Cálice da salvação” (Sl. 116:13);
e
“Cálice das consolações” (Jr. 16:7).
[12] Em Marcos:
“Qualquer que vos der a beber um copo de água em Meu nome, porque sois de Cristo... não perderá a sua recompensa” (Mc. 9:41);
por ‘dar a beber um copo de água em Meu nome, porque sois de Cristo’ é significado ensinar o vero pelo amor do vero, assim, pelo Senhor, e do mesmo praticá-lo. O amor do vero por causa do vero se entende por ‘dar um copo de água em nome do Senhor’; por ‘Cristo’ também se entende o Senhor quanto ao Divino Vero.
[13] Nos Evangelhos:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!... limpais o exterior do copo e do prato, mas os interiores estão cheios de rapina e de intemperança; ... limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior se torne... limpo” (Mt. 23:25, 26; Lc. 11:39);
que o Senhor tenha dito ‘copo e prato’ é porque o continente significa o mesmo que o conteúdo, assim, o ‘copo’ significa o mesmo que o ‘vinho’, e o ‘prato’ o mesmo que a ‘comida’; pelo ‘vinho’ é significado o vero da Palavra e da doutrina, e pela ‘comida’ o bem da Palavra e da doutrina. O homem natural ou a mente natural é purificada interiormente quando os falsos e males são removidos; dá-se o contrário quando não são removidos, pois qual interiormente é, tal se torna exteriormente, mas não qual exteriormente é, tal se torna interiormente. Com efeito, o interior influi no exterior e dispõe a este em conveniência consigo, mas não vice-versa.
* * * * * * *
Continuação sobre o Segundo Preceito
[14] Visto que pelo ‘nome de Deus’ se entende o que vem de Deus e que é Deus, e isto é chamado o Divino Vero, e, conosco, é a Palavra, porque ela é o Divino Vero em si, e santíssima, ela não deve ser profanada. É profanada quando sua santidade é negada, o que acontece quando é despreza, rejeitada e ultrajada. Quando se faz isto, então o céu é fechado e o homem é entregue ao inferno. Com efeito, a Palavra é único meio de conjunção com o céu e com a igreja; por isso, quando ela é rejeitada de coração, essa conjunção se rompe, e então o homem, por ser entregue ao inferno, não mais reconhece vero algum da igreja.
{15] Há duas coisas pelas quais o céu é fechado para os homens da igreja. Uma é a negação do Divino do Senhor, e a outra é a negação da santidade da Palavra. A razão disso é que o Divino do Senhor é tudo do céu, e o Divino Vero, que é a Palavra no sentido espiritual, faz o céu. Daí é evidente que aquele que nega um ou outro, nega aquilo que é tudo do céu e pelo qual o céu é existe, e assim se priva da comunicação e, daí, da conjunção com o céu. Profanar a Palavra é o mesmo que ‘blasfemar contra o Espírito Santo’, o que a ninguém é perdoado. Por isso também neste preceito se diz que ‘não ficará impune quem profana o nome de Deus’.
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