AE 962

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E houve úlcera grande20 e nociva”. Que isto signifique as más obras ali e, delas, as falsificações do vero21, vê-se pela significação de ‘úlceras’, que são as obras que são feitas pelo homem, assim, as que vêm de seu proprium, que são más (de se tratará a seguir); e visto que ‘grande’ se atribui ao bem e, no sentido oposto, ao mal, e ‘nociva’ se atribui ao que é falsificado, por isso, pela ‘úlcera grande e nociva’ são significadas as obas más e, daí, as falsificações do vero. Que pela ‘úlcera’ sejam significadas as obras oriundas do proprium e, assim, más, é porque do proprium do homem não pode ser produzida outra coisa senão o mal, pois o homem nasce no proprium e depois o adquire por sua vida, e como o seu proprium é moldado por meros males desde o nascimento mesmo, por isso o homem deve ser como que criado de novo, isto é, deve ser regenerado, para que esteja no bem e, assim, possa ser recebido no céu. Quando é regenerado, então os males que vêm do proprium são removidos e em lugar deles são implantados os bens, o que se faz por meio de veros. Que as obras más e as falsificações do vero estejam naqueles que reconhecem e confirmam a fé, só, na doutrina e na vida entende-se pelas coisas que logo se seguirão, a saber, que ‘houve úlcera grande e nociva nos homens que têm a marca da besta e adora a sua imagem’.
[2] Que as ‘úlceras’ signifiquem as obras que vêm do proprium pode-se ver pela Palavra, onde se mencionam ‘úlceras’ e ‘feridas’, e também vários gêneros de doença, como ‘lepra’, ‘febre’, ‘chaga’ [anthrax], ‘hemorroidas’ e muitas outras, que correspondem, todas, às cobiças oriundas dos amores do mal e, assim, as significam. O que, além disso, significam ‘úlceras’ ou ‘feridas’ pode-se ver por estas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Desde a planta do pé até a cabeça, não há nele coisa sã [integritas]; ferida, cicatriz e chaga [plaga] recente; não espremidas... nem atadas... nem amolecidas com óleo; vossa terra é solidão, vossas cidades queimadas pelo fogo” (Is. 1:6, 7).
Por essas palavras se descreve que não há bem e, daí, vero na igreja, mas somente o mal e o falso daí. ‘Desde a planta do pé até a cabeça, não há coisa sã’ significa que tanto as coisas naturais quanto as espirituais, que pertence aos interiores do homem e de sua vontade, foram perdidas; ‘ferida e cicatriz, e chaga recente’ significa os males da vontade e, daí, os falsos do pensamento, aumentando continuamente; os males da vontade são também as obras más; ‘não atadas, nem amolecidas com óleo’ significa não emendadas pelo arrependimento nem temperadas pelo bem; ‘vossa terra é solidão, vossas cidades queimadas pelo fogo’ significa que a igreja foi devastada quanto a todo vero, e que os seus doutrinais foram destruídos por uma vida segundo as cobiças oriundas de um amor mau.
[3] Em Oséias:
“Efraim viu a sua doença, e Judah viu a sua ferida; e Efraim foi para a Assíria, e enviou ao rei Jareb, e ele não pôde vos curar, e não curará de vós a ferida” (Os. 5:13);
por ‘Efraim’ é significada a igreja quanto ao entendimento do vero, aqui, quanto ao entendimento do falso; e por ‘Judah’ é significada a vontade do bem, aqui, a vontade do mal; pela ‘Assíria’ e pelo ‘rei Jareb’ é significado o racional pervertido quanto ao bem e quanto ao vero. Daí é evidente o que é significado em série por essas palavras, a saber, que o homem, pela própria inteligência, não pode emendar os falsos oriundos dos males da vontade. O mal da vontade, que também é o mal da vida, se entende pela ‘ferida’.
[4] Em David:
“As minhas iniquidades passaram {sobre} a minha cabeça; ...apodreceram, consumiram minhas feridas por causa da minha estultícia” (Sl. 38:4, 5);
as ‘feridas’, aqui também, estão em lugar dos males da vontade, que são as más obras; delas se dizem ‘apodrecer’ e ‘consumir’ por causa da estultícia quando o prazer da vontade e do pensamento daí é fazer os males.
[5] Em Isaías:
“Naquele dia Jehovah atará a fratura do Seu povo, e curará a ferida da praga” (Is. 30:26);
pela ‘fratura do povo’ é significado o falso da doutrina, e pela ‘ferida da praga’ o mal da vida; a reforma da doutrina por meio dos veros é significada por ‘Jehovah atará a fratura de Seu povo’, e a reforma da vida por meio dos veros é significada por ‘curará a ferida da praga’.
[6] Que
O samaritano tenha atado as feridas do que foi ferido pelos ladrões e tenha derramado nelas óleo e vinho (Lc. 10:33, 34),
significava que aqueles que estão no bem caridade querem emendar os males oriundos dos falsos por meio dos veros do bem; os ‘ladrões’ são aqueles que incutiram falsos de onde vêm os males, em especial os judeus; as ‘feridas’ são esses males, o ‘óleo’ é o bem do amor, o ‘vinho’ é o vero da Palavra e da doutrina. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas acima, n. 376 e 444).
[7] Por
Lázaro, ulceroso, prostrado à entrada do rico (Lc. 16:20, 21),
se entendem os gentios, que estiveram nos falsos da ignorância do vero e, daí, não nos bens, pelo que são daí chamados ‘ulcerosos’; pelo ‘rico’, em cuja entrada esta prostrado, se entende a nação judaica, que podia estar nos veros da Palavra que ela tinha.
[8] Que a ‘úlcera que rompia’ tenha sido uma praga das pragas do Egito é evidente em Moisés:
“Disse Jehovah a Moisés e a Aarão: Tomai para vós vossos punhados cheios de cinza do forno e Moisés a espalhe para o céu diante dos olhos do faraó, e se tornará pó sobre toda a terra do Egito. ... E tomaram cinza do forno... e Moisés a espalhou para o céu, e tornou-se úlcera de pústulas que rompia no homem e na besta. E não puderam mais estar diante de Moisés, por causa da úlcera, porque houve úlcera nos magos em todos os egípcios” (Êx. 9:8-11);
pelo ‘faraó’ e os ‘egípcios’ é significado o homem natural obsesso por males e falsos de todo gênero, e o esforço do domínio do homem natural sobre o espiritual; o homem espiritual é significado pelos ‘filhos de Israel’. Pelos milagres ali, que eram as tantas pragas, também chamadas ‘doenças’, são significados os tantos males e falsos que infestam, devastam e destroem a igreja que há nos homens espirituais; pela ‘cinza do forno’ que Moisés espalhou para o céu são significados os falsos das cobiças que são excitados; pelo ‘pó na terra do Egito’ é significada a danação; pela ‘úlcera de pústula que rompia’ são significadas as coisas impuras da vontade com as blasfêmias. (Essas coisas, porém, se veem explicadas em detalhes nos Arcanos Celestes, n. 7516 e 7532).
[9] Coisas semelhantes são, pois, significadas por estas palavras em Moisés:
“Jehovah te ferirá com a úlcera do Egito, e com hemorroidas, e com sarna e com prurido, de modo que não possas ser curado... com o que te tornarás insano à vista dos olhos... Jehovah te ferirá com úlcera má nos joelhos e nas coxas, das quais não possas ser curado” (Dt. 28:27, 34-36);
pelas ‘pragas’ aí nomeadas são significados os males e falsos de vários gêneros oriundos dos amores impuros do homem natural, pois são correspondentes, porque as úlceras e feridas existem da lesão da carne e do sangue, e os males e falsos existem da lesão do Divino Bem e do Divino Vero, e a ‘carne’ corresponde ao bem e, daí, o significa na Palavra, e o ‘sangue’ corresponde ao vero e, daí, o significa.
[10] Como pela ‘lepra’ é significada a profanação do vero, e a profanação do vero é variada, sendo leve ou grave, interior e exterior, e é segundo a qualidade do vero profanado, por isso também os seus efeitos são vários, que são significados pelas manifestações da lepra, que eram
Tumores, úlceras de tumores, pústulas brancas, avermelhadas, abcessos, queimaduras, erupções, tinhas etc. (Lv. 13:1 ao fim);
tais coisas houve na nação judaica pela correspondência, por causa das profanações da Palavra, não somente na carne deles, mas também em suas vestes, casas e vasos.
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Continuação sobre o Segundo Preceito
[11] Visto que pelo ‘nome de Deus’ se entende o Divino Vero ou Palavra, e por sua profanação se entende a negação de sua santidade e, daí, o desprezo, a rejeição e a blasfêmia, segue-se que o nome de Deus é interiormente profanado por uma vida contra os preceitos do Decálogo. Com efeito, existe a profanação interior e não exterior, e existe a profanação interior e ao mesmo tempo exterior; e pode também existir alguma exterior e não ao mesmo tempo interior. A profanação interior se faz pela vida, e a exterior pela linguagem. A profanação interior, que se faz pela vida, torna-se também exterior ou pela linguagem, após a morte, pois então cada um pensa e quer, e, o quanto se lhe permite, fala e faz segundo a sua vida, mas não tanto no mundo. No mundo o homem costuma falar e fazer diferentemente do que quer e pensa por sua vida, por causa do mundo e para angariar reputação. Daí é que se diz que há profanação interior e não ao mesmo tempo exterior. Que também possa existir alguma exterior e não ao mesmo tempo interior, isto vem do estilo da Palavra, que não é absolutamente o estilo do mundo, a qual pode ser de algum modo desprezada por não se conhecer sua santidade interior.

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