. “E mordiam as suas línguas por causa do sofrimento”. Que isto signifique que por causa da repugnância não quiseram perceber e conhecer os bens e veros genuínos vê-se pela significação de ‘morder as línguas’, que é não querer perceber e conhecer os bens e veros genuínos (dos quais se tratará a seguir); e pela significação de ’sofrimento’, que é a repugnância. Que ‘morder as línguas’ signifique não querer perceber e conhecer os bens e veros genuínos é porque pela ‘língua’ é significada a percepção do vero, e por ‘morder a língua’, a sua retenção, pois a ‘língua’ significa várias coisas, jé que é um órgão tanto da fala quanto do paladar; e como órgão da fala significa a confissão, o pensamento e a religião, e como órgão do paladar significa a percepção do bem e do vero natural. O ‘olfato’, porém, significa a percepção do bem e do vero espiritual. Com efeito, a língua sente o gosto e o sabor da comida e da bebida, e por ‘comida’ e ‘bebida’ são significados os bens e veros, que nutrem a mente natural. Não querer ter essa percepção, ou não querer perceber os bens e veros genuínos é significado por ‘morder a língua’. Essas palavras foram ditas a respeito daqueles que separam da fé os bens da vida, pois todas as coisas da igreja ou religião eles juntam em uma só da fé, pela qual dizem que o homem é justificado; e como o homem é justificado e salvo unicamente por isso, segue-se que as demais coisas da fé, que são os veros da igreja, causam repugnância a ponto de não quererem percebê-las nem conhecê-las, pois dizem de coração: “Ao que elas conduzem, quando uma só coisa salva, a saber, que Deus Pai enviou o Filho que me redimiu do inferno pela paixão da cruz? Logo, as obras da lei não me condenam nem me salvam, porque o que salva é somente pensar e crer nisso com confiança.” Daí é, pois, que por causa da repugnância não querem perceber nem conhecer os veros e bens genuínos. Que lhes provoquem náusea é também porque aqueles que estão na fé, só, são interiormente contra os bens do céu e da igreja; e também porque se deve pensar interiormente, quando se pensa neles, pois transcendem as suas ideias materiais. Essa náusea e essa repugnância são aqui significadas pelo ‘sofrimento’.
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Continuação sobre o Sexto Preceito
[2] Foi dito acima que a diferença entre o amor conjugal e o amor do adultério é como entre o céu e o inferno. A mesma diferença existe entre os prazeres desses amores, pois os prazeres derivam todas as suas coisas dos amores de que procedem. Os prazeres do amor do adultério derivam os seus do prazer de prestar maus usos, assim, de prejudicar; e os prazeres do amor do casamento, do amor de prestar bons usos, assim, de beneficiar. Qual é, pois, o prazer do mal em prejudicar, tal é o prazer do amor do adultério deles, porque o amor do adultério descende daí. Que descenda disso, dificilmente alguém pode crer, mas, no entanto, daí é a sua origem. Assim é evidente que o prazer do adultério sobre do inferno ínfimo, mas o prazer do amor do casamento, porque vem do amor da conjunção do bem e do vero, e do amor de fazer o bem, é o prazer celeste e desce, de fato, do céu íntimo ou terceiro, onde reino o amor ao Senhor oriundo do Senhor.
[3] Daí se pode ver que a diferença entre esses dois prazeres é como entre o céu e o inferno. O que é de se admirar, porém, é que se acredita que o prazer do casamento e o prazer do adultério são semelhantes. No entanto, a diferença entre eles é tal como agora se disse. Mas a diferença não pode ser discernida e sentida por outro senão aquele que está no prazer do amor conjugal. Quem está nesse prazer percebe nitidamente que o prazer do casamento nada tem em si de impuro e incasto, por conseguinte, nada de lascivo; e que o prazer do adultério nada tem senão o que é impuro, incasto e lascivo. Ele sente de baixo sobe o incasto e que de cima desce o casto. Quem, porém, está no prazer do adultério não pode sentir isso, porque sente o infernal como se fosse seu celeste. Disto se segue que o amor do casamento, também em seu último ato, é a pureza mesma e a castidade mesma, e que o amor do adultério, em seus atos, é a impureza mesma e a incastidade mesma. Como os prazeres de ambos os amores parecem exteriormente semelhantes, ainda que sejam inteiramente dessemelhantes interiormente, por serem opostos, por isso foi provido pelo Senhor que os prazeres do adultério não subam ao céu, nem os prazeres do casamento desçam ao inferno, mas que haja, não obstante, alguma correspondência do céu com a proliferação nos adultérios, mas não com o prazer mesmo neles.
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