. “E vi {saírem} da boca do dragão, e da boca da besta”. Que isto signifique do pensamento, do raciocínio, da religião e da doutrina daqueles que estão na fé, só, e nas suas confirmações pelo homem natural, vê-se pela significação de ‘boca’, que é o pensamento, o raciocínio, a religião e a doutrina (de que se tratou nos n. 580, 782 e 794); pela significação de ‘dragão’, que são aqueles que estão na fé só, quanto à doutrina e também quanto à vida (n. 714, 715, 716 e 737); e pela significação de ‘besta’, que são aqueles que confirmam a fé, só, pelos raciocínios do homem natural (de se tratou no n. 773). Porque havia duas bestas, uma subindo do mar e a outra, da terra; e pela ‘besta subindo do mar’ se entende essa fé confirmada pelos raciocínios do homem natural, enquanto pela ‘besta subindo da terra’ se entende essa fé confirmada pelo sentido da letra da Palavra e, daí, a sua falsificação. Aqui, porém, entende-se a ‘besta subindo do mar’, assim, a fé confirmada por raciocínios, porque se acrescenta: ‘da boca do falso profeta’, e pelo ‘falso profeta’ é significado o mesmo que pelas ‘besta da terra’, a saber, a fé, só, confirmada pela Palavra, assim, a doutrina do falso proveniente de veros falsificados.
[2] Por estas e pelas coisas que seguem se descreve que a doutrina da fé só embotou e quase extinguiu a faculdade de entender o Divino Vero, que é dada pelo Senhor a cada um, na medida que os falsos do mal não bloqueiem o obstruam o influxo e o acesso, para nada do céu seja percebido. Pois o homem é como um jardim, que recebe luz igualmente na estação do inverno, mas não o calor; e o que, conforme recebe o calor, floresce e frutifica. É semelhante com o homem, que pode igualmente receber a luz, isto é, entender o Divino Vero, seja ele bom ou mau, mas não pode florescer e frutificar, isto é, ser sábio e fazer as obras que são os bens, a não ser conforme recebe o calor, isto é, o bem do amor.
[3] Muitos creem que os eruditos, por saberem muitas coisas da Palavra e da doutrina da Palavra, são mais inteligentes e mais sábios do que os outros, todavia eles não têm inteligência e sabedoria senão segundo o calor espiritual, isto é, o bem do amor neles, pois segundo este a faculdade de entender os veros é aberta e vivificada, mas pelos males do amor do proprium essa mesma faculdade é coberta, por assim dizer, e obliterada. Que, no entanto, eles tenham a faculdade de entender, ainda que coberta e obliterada, é o que ouvi ser atestado muitas vezes por experiência; pois espíritos que tinham estado inteiramente nos falsos do mal e de seu coração tinham negado o influxo Divino em todas as coisas do entendimento do vero e da vontade do bem, assim, a Divina providência, e daí tinham em confirmado em si que todas as coisas são da natureza e da prudência, esses, ainda que não tivessem quase faculdade alguma de entender os veros quando em si pensaram neles, quando, entretanto, ouviram dos outros que o Divino é tudo e o natural é relativamente nada a não ser como um instrumento para um artesão, então entenderam essas coisas tão claramente como aqueles que as ensinaram, e como os outros que tinham-se confirmado no Divino Vero. Mas tão logo desviaram o ouvido, caíram nos contrários e não entenderam tais coisas, porque as encobriram com os falsos das confirmações. Dai se tornou evidente para mim que a faculdade de entender o vero, ou de receber a luz do céu, existe em todos, mas a recebem na proporção que estiverem pela vida no bem do amor. É semelhante a um jardim, que recebe a luz do sol igualmente na estação do inverno, mas, no entanto, floresce e frutifica na proporção que receber ao mesmo tempo o calor do sol, o que ocorre quando está no verão e na primavera.
* * * * * * *
Continuação sobre o Sexto Preceito
[4] O homem tem tal e tanta inteligência e sabedoria quanto e qual é o amor conjugal nele. A razão disso é que o amor conjugal descende do amor do bem e do vero, assim como o efeito de sua causa, ou assim como o natural de seu espiritual. E também os anjos dos três céus têm toda inteligência e sabedoria pelo casamento do bem e do vero, pois a inteligência e a sabedoria não são outra coisa senão a recepção da luz e do calor vindos do Senhor como Sol, isto, a recepção do Divino Vero conjunto ao Divino Bem e do Divino Bem conjunto ao Divino Vero. Assim é o casamento do bem e do vero oriundo do Senhor. Que isto seja assim é o se mostrou claramente nos anjos nos céus; separados de seus cônjuges eles estão, de fato, na inteligência, mas não na sabedoria; mas, quando estão com os seus cônjuges, também estão na sabedoria. E – o que me admirou – conforme voltam as faces para o cônjuge, estão no estado de sabe, pois a conjunção do vero e do bem se faz no mundo pelo olhar [aspectum], e, ali, a esposa é o bem e o varão é o vero. Por isso, conforme o vero se volta para o bem, assim o vero é vivificado. Por inteligência e sabedoria não se entende a engenhosidade de raciocinar a respeito dos veros e bens, mas a faculdade de ver e de entender os veros e bens, porque o homem tem essa faculdade pelo Senhor.