. “E o sétimo anjo derramou a sua taça no ar”. Que isto signifique o estado da igreja manifestado quanto a todas as coisas do pensamento vê-se pela significação do ‘anjo derramando a taça’, que é o estado da igreja manifestado (como acima); e pela significação de ‘ar’, que é o pensamento; aqui, é todo pensamento, porque aqui se descreve o último estado da igreja; por isso, ao ser manifesto, foi dito que ‘está feito’, isto é, consumado. Que o ‘ar’ signifique o pensamento é porque a respiração, que se faz pelo ar, corresponde ao pensamento que pertence ao entendimento, assim como o movimento cardíaco corresponde à afeição que pertence à vontade. Que a respiração dos pulmões corresponda ao pensamento vê-se claramente pela operação simultânea e unânime de ambos; conforme o pensa, assim ele respira; se pensa tacitamente, também tacitamente respira, do mesmo que se o faz vigorosamente. Se em si pensa intensa e interiormente, então a respiração gradativamente diminui e fica suspensa. Assim o homem varia o estado de sua respiração segundo todo estado de seu pensamento. A razão disso é que o homem tem duas vidas, a saber, a vida do entendimento e a vida da vontade. Todas as coisas do corpo correspondem a essas duas vidas da mente; assim, em geral a vida da respiração corresponde à vida do entendimento e ao pensamento daí, e a vida do movimento cardíaco corresponde à vida da vontade e ao amor daí. Essas duas vidas se entendem também por ‘alma’ e ‘coração’ na Palavra, onde se diz ‘de toda alma e de todo coração’, pelo que é significado de todo entendimento e de toda vontade, ou, de todo pensamento que pertence à fé de toda afeição que pertence ao amor. Essas coisas foram ditas para que se saiba que pelo ‘ar’, por se fazer a respiração por ele, é significado o pensamento.
[2] Que a última ‘taça tenha sido derramada no ar’ é porque todas as coisas do homem terminam em seu pensamento, pois qual é o homem quanto à igreja e quanto aos veros e bens da igreja, assim, quanto ao amor, em suma, qual é ele quanto à sua vida espiritual, moral e civil, tal ele é quanto ao pensamento. Isto pode ser constatado principalmente no mundo espiritual. Quando algum anjo vem de sua sociedade à outra sociedade que não é sua, então sua respiração arqueja, pelo fato de ele não pensar por uma afeição semelhante. Daí é, também, que se um espírito infernal sobe a alguma sociedade angélica, entra então em angústia quanto à respiração e, daí, em dor, ou em fantasia, ou em cegueira quanto ao pensamento, pelo que é evidente que qual é o homem, tal é o seu pensamento.
* * * * * * *
Continuação
[3] Dir-se-á agora na sequência alguma coisa a respeito do sétimo preceito, que é “não matarás”. Todos os preceitos do Decálogo, assim como todas as coisas da Palavra, envolvem dois sentidos internos, além de um supremo, que é o terceiro. Um, que é o próximo se chama sentido espiritual moral; o outro, que é remoto, e se chama sentido celeste espiritual. O sentido próximo deste preceito, “não matarás’, que é o sentido espiritual moral, é que não terás ódio ao teu irmão, e, daí, não o cobrirás de ultraje e ignomínia, pois assim lesarás e matarás a sua reputação e honra, pelo que ele tem vida entre os irmãos, vida que se chama civil, pelo que ele viverá nas sociedades como um morto, contado entre os vis e celerados, com os quais não deve haver comunicação. Quando se faz por inimizade, por ódio ou por vingança, é homicídio, no mesmo grau que a vida do corpo estimada por muitos no mundo. E, também, aquele que faz isso, é, perante os anjos nos céus, réu, como se tivesse matado o seu irmão quanto à vida de seu corpo, pois a inimizade, o ódio e a vingança aspiram a morte e a querem, mas são contidos e refreados pelo temor da lei, da resistência e da reputação. E, no entanto, essas três coisas estão na intenção [conatus] da morte, e toda intenção é como o ato, pois vai ao ato quando o temor é removido. Estas são as coisas que o Senhor ensina em Mateus:
“Ouvistes que foi dito aos velhos: Não matarás; e qualquer que matar estará sujeito ao juízo. Eu, porém, vos digo, que qualquer que se irar temerariamente contra o seu irmão estará sujeito a juízo; todo aquele... que disser ao seu irmão, Raka, estará sujeito ao sinédrio; mas todo aquele que disser: Louco, estará sujeito à gehenna de fogo” (Mt. 5:21-26),
palavras que verás explicadas acima (n. 693 e 746).
[4] Mas o sentido mais remoto desde preceito, ‘não matarás’, que é chamado sentido celeste espiritual, é que não tirarás do homem a fé de Deus e o amor, e, assim, a vida espiritual. Isto é o homicídio mesmo, pois o homem é homem por essa vida. A vida do corpo lhe serve como causa instrumental de sua causa principal. Desse homicídio espiritual é também derivado o homicídio moral; por isso, que está em um está também no outro, porque quem quer tirar do homem a vida espiritual está no ódio contra ele se não a pode tirar, pois odeia a fé e o amor nele, assim, o homem mesmo. Esses três, a saber, o homicídio espiritual, que é o da fé e do amor, o homicídio moral, que é o da reputação e da honra, e o homicídio natural, que é o do corpo, seguem-se em série, um após do outro, como causa e efeito.
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