. (Vers. 4) “E a mulher [estava] envolta em púrpura e escarlate”. Que isto signifique a aparência dessa religiosidade nos externos, como se fosse proveniente do bem e vero celeste, quando, todavia, nos internos provém do diabólico mal e falso, vê-se pela significação de ‘mulher’, que é a religiosidade com os católicos; pela significação de ‘envolta’, que é estar nos externos, pois as vestes são os externos que cobrem; assim, ‘envolta’ é a aparência nos externos; pela significação de ‘púrpura’, que é o bem de origem celeste e, também, o mal que lhe é oposto, que se chama mal diabólico (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘escarlate’, que é o vero de origem celeste e, também, o falso que lhe é oposto, que se chama falso diabólico. Que esses bens e veros sejam diferentes dos bens e veros de origem espiritual, do mesmo modo que os males e falsos que lhes são opostos, que são chamados males e falsos infernais, ver-se-á no artigo seguinte.
[2] Que a mulher, que é a meretriz e Babilônia, seja descrita assim é porque aqueles que estão nos male e, daí, nos falsos, são descritos na Palavra pela aparência externa, por conseguinte, quais eles são aos olhos dos homens que os adoram. Que sejam descritos assim é porque o sentido da letra da Palavra consiste de aparências, enquanto o sentido espiritual despe essas aparências e apresenta os interiores nus, sem vestes, os quais, quando aparecem, aparecem numa forma inteiramente diversa. É como aqui, que ‘a mulher vista vestida de púrpura e escarlate’ pela aparência externa é chamada ‘mãe das escortações e das abominações da terra’ na forma interna, semelhantemente ao que foi dito do
Rico vestido de púrpura e linho fino, que, todavia, foi lançado no inferno (Lc. 16:19),
e, também, dos assírios, com os quais praticaram escortação Ohola e Oholiba, isto é, Samaria e Jerusalém, dos quais foi dito estarem
Vestidos de azul [hyacinthino], os encarregados e líderes, montando em cavalos (Ez. 23:6, 12),
semelhantemente a outras passagens. Babilônia é descrita aqui como no mundo uma meretriz aparece esplendidamente vestida e, contudo, abominável, porque é cheia de imundície.
[3] Antes de confirmar pela Palavra que ‘púrpura’ e ‘escarlate’ significam bens e veros de origem celeste, dir-se-á primeiramente alguma coisa a respeito desses bens e veros. O Divino Bem, que procede do Senhor, é unido ao Seu Divino Vero, assim como o calor unido à luz do sol na estação da primavera. Mas os anjos, que são recepções do Divino Bem e do Divino Vero procedentes do Senhor, são distintos em celestes e espirituais. Aqueles que recebem o Divino Bem mais do que o Divino Vero do Senhor são chamados anjos celestes, porque constituem o reino do Senhor que se chama reino celeste, enquanto os anjos que recebem o Divino Vero do Senhor mais do que o Seu Divino Bem são chamados anjos espirituais, porque deles é formado o reino espiritual do Senhor. Por aí é evidente que os bens e veros são de dupla origem, a saber, de origem celeste e de origem espiritual. Os bens e veros que são de origem celeste são os bens e veros do amor ao Senhor, enquanto os bens e veros que são de origem espiritual são os bens e veros do amor para com o próximo. A diferença é como entre o superior e o inferior, ou como entre o interior e o exterior, por conseguinte, entre as coisas que estão num grau superior ou interior e as que estão num grau inferior e exterior. Qual é essa diferença é o que se pode ver pelo que foi dito a respeito dos três graus dos céus e, daí, dos anjos e da sabedoria e da inteligência deles, na obra O Céu e o Inferno (n. 33, 34, 38-39, 208-209, 211, 435).
[4] Que a ‘púrpura’ signifique esse bem, e o ‘escarlate’ esse vero na Palavra, vê-se pelas passagens na Palavra onde são nomeados, como em Ezequiel:
“Linho fino de bordado do Egito foi a tua expansão... de azul e de púrpura das ilhas de Elischah foi a tua cobertura” (Ez. 27:7);
palavras essas que são a respeito de Tiro, pela qual é significada a igreja quanto às cognições do vero e do bem; ‘de azul e de púrpura’ estão em lugar dessas cognições de origem celeste; pela ‘cobertura’ e pela ‘expansão’ são significados os externos dessa igreja. Em Lucas:
“Havia certo homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino, e todos os dias se regalava esplendidamente” (Lc. 16:19);
pelo ‘homem rico’ se entendia a nação judaica e a igreja ali, que era chamada ‘rica’ por causa das cognições do bem e do vero da Palavra que eles tinham, ‘de púrpura’ as cognições do bem, e ‘de linho’ as cognições do vero, ambas de origem celeste. Nas Lamentações:
“Os que comeram regaladamente foram devastados nas ruas; os que foram criados sobre o escarlate abraçaram coisas estercorosas” (Lm. 6:5);
‘ser criado sobre escarlate’ está em lugar de ser instruído desde a infância nos veros oriundos do bem celeste.
[5] Como a tenda da assembleia representava o céu, e as vestes de Aarão representavam as coisas santas do céu, e ‘púrpura e escarlate’ significavam os bens e veros do céu, por isso as cortinas e os véus do tenda, e bem como as vestes de Aarão, eram tecidas de azul, púrpura, escarlate duas vezes tingido e linho fino, tais como:
As cortinas do habitáculo (Êx. 26:1);
O véu diante da arca (Êx. 26:31);
A cobertura para a entrada da tenda (Êx. 26:36);
A cobertura para a porta do átrio (Êx. 27:16);
O éfode (Êx. 28:6);
O cinto (Êx. 28:8);
O peitoral do juízo (Êx. 28:15);
As abas do manto do éfode (Êx. 28:33).
Visto que o ‘escarlate duas vezes tingido’ significava o vero do bem celeste, por isso
Um pano de escarlate duas vezes tingido era estendido sobre a mesa onde estavam os pães das faces, e, depois, era coberto com uma cobertura de pele de texugo (Nm. 4:8),
pois os íntimos do reino celeste eram significados pelas coisas que estavam sobre a mesa, que eram os pães, mas os exteriores pelas coisas que cobriam, as quais se referem aos veros do bem.
[6] Como o vero oriundo do bem celeste, que é o vero do sentido da letra da Palavra, é significado pelo ‘escarlate’, por isso o mesmo era empregado, para lembrança, como:
Que os filhos de Israel fizessem para si franja sobre as abas das vestes, e pusessem sobre a franja da aba um cordão escarlate, para que por ele se lembrassem de todos os preceitos de Jehovah, e os cumprissem (Nm. 15:38, 39).
Pela mesma razão foi também um costume nos tempos antigos, quando as coisas significativas foram usadas, ligar um cordão escarlate para lembrança ou recordação de uma coisa, como se lê a respeito de Perez, filho de Tamar,
Sobre cuja mão a parteira amarrou um cordão [de escarlate] duas vezes tingido (Gn. 38:28, 30);
e, a respeito da meretriz Raabe,
Que na janela amarrou um cordão escarlate, para que os exploradores se lembrassem da promessa (Js. 2:17, 21).
[7] Visto que todas as purificações dos males se fazem por meio dos veros da Palavra, por isso
Nas purificações se empregavam madeira de cedro, escarlate e hissopo (Lv. 14:4-7, 49-52);
E nas águas da separação e da expiação por uma vaca vermelha se empregava escarlate (Nm. 19:6).
A razão pela qual tais coisas são representadas pela ‘púrpura’ e pelo ‘escarlate’ vem das cores delas, pois no céu há cores, e elas são mais brilhantes do que no mundo, oriundas da luz ali. E, também, é porque a cor vermelha deriva sua origem ali do ígneo ou flamejante, e o ígneo e o flamejante ali vêm do bem do amor; daí a ‘púrpura’ significa o bem de origem celeste. O ‘escarlate’, porém, deriva sua cor do flamejante e do branco ao mesmo tempo, e o ‘branco’ significa o vero; daí essa cor significa o vero do bem celeste.
[8] Assim como a maioria das coisas na Palavra tem um sentido oposto, assim também se dá com ‘púrpura’ e ‘escarlate’, e então significam os males e falsos opostos a esses bens e veros. Como em Isaías:
“Se os vossos pecados tiverem sido como o escarlate, ficarão alvos como a neve; se tiverem sido vermelhos como a púrpura, como a lã serão” (Is. 1:8).
Como pelo ‘escarlate’ é significado o vero, semelhantemente a ‘neve’, e como pela ‘púrpura’ é significado o bem, semelhantemente a ‘lã’, e por ‘escarlate’ e ‘púrpura’ no sentido oposto é significado o falso e o mal, por isso, como o falso e o vero, e o mal e o bem, se correspondem pelo oposto, por isso se diz: ‘Se os pecados tiverem sido como o escarlate, ficarão alvos como a neve; se tiverem sido vermelhos como a púrpura, como a lã serão’.
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