. “E comerão as suas carnes”. Que isto signifique a rejeição dos seus males, que são os bens adulterados, e, então, a manifestação de que eram desprovidos de todo bem, vê-se pela significação de ‘carne’, que é bem da Palavra da igreja, e, no sentido oposto, o seu mal; aqui, as ‘carnes’ são os males, que são bens adulterados; e pela significação de ‘comer’, que é consumir, mas, aqui, rejeitar completamente, porque se trata dos reformados, que rejeitaram as obras ou os bens de Babel, que são principalmente as ofertas aos ídolos dos santos, aos sepulcros deles, também aos mosteiros e aos próprios monges, ofertas que são dadas e oferecidas por diversas expiações. Segue-se que pelas mesmas palavras se entende também a manifestação de que eram desprovidos de todo bem, pois quando são rejeitados os bens espúrios e meritórios, que são significados pelas ‘carnes’ que eles comeriam, então se manifesta que eles são desprovidos de todo bem.
[2] A ‘carne’ significa várias coisas na Palavra. Significa o proprium do homem, por conseguinte, ou seu bem ou seu mal, e, assim, significa todo o homem. No sentido supremo, porém, significa o Divino Humano do Senhor, especificamente o Divino Bem do Divino Amor procedente d’Ele. Que a ‘carne’ signifique o Divino Humano quanto ao bem do amor vê-se em João:
“Jesus disse: Eu sou o pão vivo, que desce do céu. Se alguém comer desse pão, viverá eternamente. ... O pão que Eu darei é a Minha carne, a qual Eu darei para a vida do mundo. Os judeus disputaram entre si, dizendo: Como pode Este dar a carne a comer? Disse-lhes, pois, Jesus: Amém, vos digo, se não comerdes a carne do Filho do homem, e [não] beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a Minha carne, e bebe o Meu sangue, tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no derradeiro dia, porque a Minha carne é verdadeiramente comida, e o Meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem como a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim, e Eu nele. ... Este é o pão que desce do céu” (Jo. 6:51-58).
Que a ‘carne’, aqui, seja o proprium do Divino Humano do Senhor, que é o Divino Bem do Divino Amor, é claramente evidente, e isto é que na Santa Ceia se chama ‘corpo’; (que o ‘corpo’ aí, ou a ‘carne’, seja o Divino Bem, e o ‘sangue’ o Divino Vero, vê-se acima, n. 329; e como o ‘pão’ e o ‘vinho’ significam o mesmo que a ‘carne’ e o ‘sangue’, o ‘pão’ o Divino Bem, e o ‘vinho’ o Divino Vero, por isso estes foram ordenados em lugar daqueles.
[3] O Divino Bem do Senhor também era significado pela carne dos sacrifícios, a qual Aarão, seus filhos, os que sacrificavam e os outros, que estivessem limpos, comeriam. E que ela fosse santa, vê-se em Êx. 12:7-9; 29:31-34; Lev. 7:15-21; 8:31; Dt. 12:27; 16:4; por isso, se um imundo comesse dessa carne,
Seria cortado de seu povo (Lv. 7:21);
Estas coisas foram chamadas “pão” (Lv. 22:6-7);
Essa carne foi chamada “carne de santidade” (Jr. 11:15; Ag. 2:12);
E “carne da oferta, que estava sobre as mesas” no reino do Senhor (Ez. 40:43).
O Divino Humano do Senhor também foi chamado “Carne”, em João:
“A Palavra se fez Carne, e habitou entre nós; e vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai” (Jo. 1:14).
[4] Que a ‘carne’ também signifique o bem no homem, pode-se ver pelas seguintes passagens. Em Ezequiel:
“Dar-lhes-ei um coração, e um espírito novo porei no meio de vós; e removerei o coração de pedra da carne deles, e dar-lhes-ei um coração de carne” (Ez. 11:19; 36:26);
‘coração de carne’ é a vontade e o amor do bem. Em David:
“Ó Deus, meu Deus [és] Tu; de manhã Te busco; [minha] alma tem sede de Ti, minha carne anseia por Ti numa terra de sequidão e cansada, sem águas” (Sl. 63:1).
No mesmo:
“Anseia... a minha alma pelos átrios de Jehovah; meu coração e minha carne clamam ao Deus vivo” (Sl. 84:2);
pela ‘carne’ que anseia por Jehovah e que ‘clama ao Deus vivo’ é significado o homem quanto ao bem da vontade, pois a carne do homem correspondente ou ao bem ou ao mal de sua vontade, e o sangue corresponde ou ao vero ou ao falso de seu entendimento. Aí, a ‘carne’ corresponde ao bem da vontade, porque anseia por Jehovah e clama a Deus.
[5] Em Jó:
“Sei que o meu Redentor vive, e que por fim surgirá sobre o pó; e depois estas coisas serão envoltas por minha pele, e da minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-27);
‘de sua carne ver a Deus’ significa do seu proprium voluntário, feito novo pelo Senhor, e, assim, bom. Em Ezequiel:
“Porei sobre” os ossos, que foram vistos no meio do vale, “nervos, e farei subir sobre” eles “carne, e porei sobre” ela “a pele, e porei” neles “um espírito, para que vivam” (Ez. 37:6, 8);
pela ‘carne’, aí também, é significado o proprium da vontade, que é feito novo pelo Senhor e, assim, bom. O que é significado aí pelos ‘ossos’ e pelas demais coisas, vê-se acima (n. 418, 419 e 665). No Apocalipse:
“Vinde, e ajuntai-vos à ceia do grande Deus, para comerdes a carne dos reis, e as carnes dos comandantes, e as carnes dos fortes, e as carnes dos cavalos e dos que se sentam sobre eles, e as carnes de todos os livres e servos... de pequenos e grandes” (Ap. 19:17-18; . 39:17-19);
que pelas ‘carnes’ aí não se entendam carnes, mas os bens de todo gênero, é claramente evidente.
[6] Mas, por outro lado, que pela ‘carne’ seja significado o proprium voluntário do homem, que, considerado em si mesmo, é mau, vê-se por estas passagens que se seguem. Em Isaías:
“O varão, a carne do seu braço comerão” (Is. 9:20);
no mesmo:
“Alimentarei os teus opressores com a carne deles” (Is. 49:26);
em Jeremias:
“Alimentar-vos-ei com a carne dos filhos deles, e com a carne das filhas deles, e comerão, [cada] varão a carne de seu companheiro” (Jr. 19:9).
em Zacarias:
“Os restantes comerão, cada um a carne do outro” (Zc. 11:9);
em Moisés:
“Castigar-vos-ei ao sétuplo por causa de vossos pecados, e comereis a carne de vossos filhos, e a carne de vossas filhas” (Lv. 26:28-29).
[7] Em Jeremias:
“Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço” (Jr. 17:5);
pela ‘carne’, aqui, é significado o proprium do homem, que em si é mau; apropriá-lo a si é significado por ‘comê-lo’ e ‘alimentar-se dele’. Semelhantemente, o proprium do homem é significado em Mateus:
“Jesus disse: ... Bem-aventurado és, Simão... porque carne e sangue não [o] revelou a ti” (Mt. 16:17);
em João:
“A todos quantos receberam, deu-lhes a autoridade de serem filhos de Deus, os que nasceram não de sangues, nem da vontade da carne, mas de Deus” (Jo. 1:12-13);
em Ezequiel:
“Jerusalém cometeu escortação com os vizinhos filhos do Egito, de grande carne” (Ez. 16:26);
em Isaías:
“O Egito é homem, e não Deus; e seu cavalo, carne, e não espírito” (Is. 31:3);
em João:
“O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita” (Jo. 6:63);
no mesmo:
“O que é nascido da carne é carne, o que é gerado do espírito é espírito” (Jo. 3:6);
em David:
“Deus Se lembrou de que eles são carne, um vento que vai e não volta” (Sl. 78:39);
o mal da vontade do homem, que é seu proprium de nascença, é significado nessas passagens pela ‘carne’, assim também pela
Carne que os filhos de Israel desejaram no deserto, e pela qual foram feridos com grande praga, pelo que o lugar foi chamado “sepulcro de concupiscências” (Nm. 11:4-34).
Além disso, em várias passagens na Palavra se nomeia ‘toda carne’, e por ela se entende todo o homem (como em Gn . 6:12, 13, 17, 19; Is . 40:5, 6; 49:26; 66:16, 23, 24; Jr. 25:31; 32:27; 45:5; Ez. 20:48; 21:4, 5; e outras passagens).
* * * * * * *
[8] Continuação sobre a Palavra
Que o espiritual, pelo influxo, apresente um correspondente a si no natural é para o fim se torne causa, a causa se torne efeito, e, assim, que o fim, pela causa, se apresente visível e perceptível no efeito. Este trino, a saber, o fim, a causa e o efeito, existe por criação em cada céu; o fim é o bem do amor, a causa é o vero desse bem, e o efeito é o uso. O amor é o que produz, o produto daí vem do amor do bem por meio do vero, e os produtos finais, que estão em nosso mundo, são diversos, tão numerosos quantos são os objetos [subjecta] nos três reinos da natureza do mundo: o animal, o vegetal e o mineral. Todas as coisas produzidas são correspondências.
[9] Uma vez que em cada céu existe esse trino, a saber, o fim, a causa e o efeito, por isso, também, em cada céu existem as coisas produzidas, que são correspondências, que, quanto à forma e à aparência, são semelhantes aos objetos [subjecta] nos três reinos de nossa terra, pelo que é evidente que, quanto à face externa, cada céu é semelhante à nossa terra, com diferença quanto à excelência e a beleza, segundo os graus. Ora, como a Palavra não pode deixar de consistir de correspondências para ser plena, a saber, para que ela consista de efeitos nos quais estejam as causa e os fins, ou de usos nos quais o vero é a causa, o bem é o fim e o amor é o que produz, segue-se que a Palavra em cada céu é semelhante à Palavra em nosso mundo, com diferença quanto à excelência e a beleza segundo os graus. Qual é essa diferença, dir-se-á em outro lugar.
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