. “E a queimarão no fogo.” Que isto signifique a rejeição de tudo dessa religião que profanou as coisas santas da igreja pelo amor de dominar sobre ela e sobre o céu, vê-se pela significação de ‘queimar no fogo’, que é destruir as coisas dessa igreja que foram profanadas pelo amor de dominar. Com efeito, a punição da profanação das coisas santas da igreja foi ser queimado no fogo, porque esse fogo representava o fogo do inferno, e ‘ser queimado’ significava perecer por ele, e o fogo do inferno é o amor de dominar. Que ‘ser queimado no fogo’, aqui, seja a punição da profanação das coisas santas da igreja é porque se entende a ‘meretriz’, e pela ‘Babilônia’ como ‘meretriz’ é significada a profanação das coisas santas da igreja pelo amor diabólico de dominar sobre elas. O mesmo que ‘ser queimado no fogo’ é significado por ‘Tophet’ no vale de Hinnom, onde eram queimados os filhos e filhas, pelos quais, no sentido espiritual, também eé significada a profanação dos veros e dos bens da igreja; pelos ‘filhos’, os seus veros, e pelas ‘filhas’, os seus bens. Quase a mesma coisa é significada pelo ‘vale de Achor’, onde Acã, que havia tomado do anátema, foi queimado, depois de ser apedrejado. Por aí se pode quer que ‘queimarão a meretriz no fogo’ significa a rejeição de tudo da religiosidade que profanou as coisas santas da igreja pelo amor de dominar sobre elas e sobre o céu. Entende-se a rejeição pelos reformados, como acima.
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[2] Continuação sobre a Palavra
Uma vez que há esse trino em cada coisa da Palavra, um dentro do outro, e esse trino é como são o efeito, a causa e o fim, segue-se que há três sentidos na Palavra, um dentro do outro, a saber, o natural, o espiritual e o celeste; o natural é para o mundo, o espiritual é para os céus do reino espiritual do Senhor, e o celeste é para os céus do Seu reino celeste. (Que todos os céus sejam distintos em dois reinos, espiritual e celeste, vê-se na obra O Céu e o Inferno, n. 20-28). Ora, como um sentido está dentro do outro, o primeiro, que é o sentido da letra, para o mundo natural, o segundo, que é o sentido interno, para o reino espiritual, e o terceiro, que é o íntimo, para o reino celeste, segue-se que o homem natural tira o seu sentido, o anjo espiritual o seu, e o anjo celeste o seu, assim, cada um tira o que é análogo e conveniente à sua essência e natureza. Isto acontece quando o homem, a quem o Senhor conduz, lê a Palavra.
[3] Mas este assunto será ilustrado por meio de exemplos. Quando o homem no mundo lê este preceito do Decálogo, ‘Honrarás teu pai e tua mãe’, por ‘pai e mãe’ ele entende o pai e a mãe na terra, como também todos estão ou podem estar no lugar de pai e mãe; e por ‘honrar’ ele entende dar-lhes honra. Já os anjos do reino espiritual, por ‘pai’ entende o Divino Bem, e por ‘mãe’ o Divino Vero, e por ‘honrar’ ele entende amar. Mas o anjo do reino celeste entende, por ‘pai, o Senhor, e por ‘mãe’, o céu e a igreja, e por ‘honrar’ ele entende fazer.
[4] Quando lê o quinto preceito do Decálogo, ‘não roubarás’, por ‘roubar’ o homem entende roubar, defraudar e tomar do próximo os seus bens sob algum pretexto. Mas o anjo do reino espiritual entende, por ‘roubar’, privar os outros de seus veros e bens por meio de falsos e males. O anjo do reino celeste, porém, por ‘roubar’ entende não atribuir a si as coisas que são do Senhor, como os bem do amor e o vero da fé, pois assim o bem não é bem, nem o vero é vero, porque vêm do homem.
[5] Quando lê o sexto preceito, ‘não adulterarás’, por ‘adulterar’ o homem entende cometer adultério e escortação, como também pensar coisas impuras, falar coisas lascivas e fazer coisas obscenas. Mas o anjo do reino espiritual, por ‘adulterar’ entende falsificar os veros da Palavra e adulterar os seus bens. O anjo do reino celeste, porém, por ‘adulterar’ entende blasfemar contra o Senhor, o céu e a igreja.
[6] Quando lê o sétimo preceito, ‘não matarás’, por ‘não matar’ o homem também entende [não] ter ódio nem desejar vingança até à morte. Mas o anjo do reino espiritual, por ‘matar’ entende matar a alma do homem por meio de escândalos da vida e de raciocínios, pelos quais o homem tem a morte espiritual. E o anjo celeste, por ‘matar’, entende induzir no homem a fé que não há Deus, nem céu, nem inferno, pois assim o homem perece quanto à vida eterna.
[7] Quando o oitavo preceito é lido, ‘não testemunharás falsamente’, por ‘testemunhar falsamente’ o homem entende também mentir e difamar. Já o anjo do reino espiritual, por ‘testemunhar falsamente’ entende dizer, confirmar e persuadir que o falso é o vero e o mal é o bem, ou, por outro lado, que o vero é o falso e o bem é o mal. Mas o anjo do reino celeste, por ‘testemunhar falsamente’ entende todo falso contra o Senhor e contra o céu, e a favor do inferno.
[8] Por aí é evidente de que maneira o homem haure e evoca da Palavra na letra o sentido natural, o anjo espiritual o sentido espiritual, e o celeste o sentido celeste, quase como a madeira da árvore tira o seu sumo, a folha o seu e o fruto o seu, da mesma terra. E, o que é admirável, isto se faz num instante, sem que o anjo siba o que o homem pensa, nem o homem saiba o que o anjo pensa; e, no entanto, os pensamentos são um só pelas correspondências, como o fim, a causa e o efeito são um só. Além disso, os fins estão, em realidade, no reino celeste, as causas no reino espiritual, e os efeitos no mundo natural.
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