AE 1088

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E a mulher que viste é a grande cidade”. Que isto signifique a doutrina nefanda da igreja, vê-se pela significação de ‘mulher’, que é a igreja, aqui, aquela em que os veros e bens da Palavra foram profanados e que não mais uma igreja, mas a religiosidade que é chamada Babilônia; e pela significação de ‘cidade’, que é a doutrina da igreja (de que se tratou no n. 223), aqui, a doutrina da Babilônia, que é uma doutrina nefanda, porque consiste de veros e bens da Palavra – dos quais vêm as coisas santas da igreja – profanados. Essa mulher, pela qual é significada a igreja, é chamada ‘grande cidade’, que significa a doutrina, porque a igreja não procede de outra parte senão da doutrina, pois qual é a doutrina, tal é a igreja; aqui, tal é a religiosidade. É a Babilônia que se entende por ‘cidade’, e por ‘Babilônia’ como metrópole é significado o mesmo que por ‘Babilônia’ como reino, como também em Daniel, onde ela se chama ‘Babel’. As demais cidades metropolitanas também significam o mesmo que os reinos, como o reino judaico por ‘Jerusalém’, o reino israelita por ‘Samaria’, o reino da Síria por ‘Damasco’, e pelo ‘reino’ é significada a igreja, mas pela ‘cidade metropolitana’, a igreja quanto à doutrina.
* * * * * * *
[2] Continuação sobre a Palavra
É o Divino Vero que se chama santo, mas não é santo antes de estar em seu último, e seu último é a Palavra no sentido da letra; por isso o Divino Vero aí é santo, e pode ser chamado de santuário. A razão disso é que esse sentido contém e inclui todas as coisas santas do céu e da igreja. Parece que os Divinos veros nos céus, que se chamam espirituais e celestes, são mais santos do que os Divinos veros no sentido da letra da Palavra, que são naturais. Mas os Divinos veros nos céus, que se chamam espirituais e celestes, são, comparativamente, como o pulmão e o coração no homem, os quais, a menos que fossem rodeados pelas costelas e envolvidos pela pleura e pelo diafragma, não formariam o peito, pois, sem essas coberturas, não poderiam operar suas funções vitais e, de fato, a menos que fossem ligados a eles por vínculos. As coisas espirituais da Palavra são como o fôlego dos pulmões; a suas coisas celestes são como a sístole e a diástole do coração; e as suas coisas naturais são como a pleura, o diafragma e as costelas, juntamente com as fibras motrizes anexas, pelas quais os movimentos são recíprocos.
[3] Além disso, as coisas espirituais e celestes da Palavra são, comparativamente, como as coisas santas do tabernáculo que eram a mesa, sobre a qual havia os pães da proposição, o castiçal com as lâmpadas e, ainda mais interiormente, os querubins, o propiciatório e a arca. Todas essas foram as coisas santas da Igreja Judaica e Israelita. No entanto, elas não poderiam ser chamadas santas e formarem o santuário antes de serem cobertas pelas cortinas e pelos véus, pois, sem essas coberturas, elas estariam nuas sob o céu, expostas às chuvas e tempestades, às aves do céu e às feras da terra, e, também, a ladrões, que as violariam, pilhariam e dispersariam. Assim também os Divinos veros nos céus, que são chamados espirituais e celestes, se não fossem envolvidos pelos veros naturais, como são os veros do sentido da letra da Palavra.
[4] Os veros naturais, que são os veros do sentido da letra da Palavra, não são os veros mesmos do céu, mas, sim, aparências deles; e as aparências do vero envolvem, incluem e contêm os veros do céu, que são os veros genuínos, e fazem com que estejam em conexão e em ordem, e sejam coerentes como as coisas cardíacas e pulmonares com as suas coberturas e costelas, como foi dito. E, quando estão em conexão e em ordem, são, então, santos, e não antes. Isto o sentido da letra de nossa Palavra faz por meio de aparências de vero, das quais consiste o seu último. Daí é que esse sentido é o santo Divino mesmo e o santuário.
[5] Quem, todavia, separa as aparências do vero dos veros genuínos, e elas por si e de si, e não por estes e destes, e unidas a estes, e chama de santo o sentido da letra, está muito enganado. Separa-os aquele que vê somente o sentido da letra e não o examina com o entendimento, como fazem os que leem a Palavra sem doutrina. Pelos ‘querubins’, na Palavra, se entende a guarda e a proteção, para que as coisas santas do céu não sejam violadas e não haja acesso ao Senhor senão pelo amor. Assim, pelos ‘querubins’ é significado o sentido da letra da Palavra, pois este guarda e protege. Guarda e protege de tal modo que o homem, quando é probo, simples e criança, possa pensar e falar segundo as aparências do vero, mas deve ter cuidado para não confirmar as aparências até a destruição do vero genuíno nos véus.
&1089. “Que tem reino sobre os reis da terra.” Que isto signifique a sua dominação sobre os veros da igreja, vê-se pela significação de ‘ter o reino’, que é a dominação, e se diz dos veros ou dos falsos; que o ‘reino’ seja a igreja quanto aos veros ou falsos, vê-se nos n. 48, 684 e 685); e pela significação de ‘reino da terra’, que são os veros (de que se tratou nos n. 31, 625, 1034, 1063 e 1073); e pela significação de ‘terra’, que é a igreja (de que se tratou muitas vezes). Daí é evidente que ‘ter o reino sobre os reis da terra’ significa a dominação sobre os veros da igreja. A dominação sobre os veros da igreja é porque o maioral deles, que se chama papa e pontífice, considera os seus ditames de igual santidade e mesma inspiração que os veros da Palavra; depois, que é da doutrina que se lhe permite alterar os veros da Palavra segundo as mudanças de estado da igreja e, assim, convertê-los em coisas tais que são meios para a dominação, os quais são falsos, pois todas as coisas que viam à dominação são falsas, ou veros falsificados. Com efeito, o fim escolhe os meios e os aplica a si, e os meios aplicados ao fim, que é a dominação sobre as almas dos homens, sobre todas as coisas da igreja e sobre o céu, não podem ser veros. E, se forem veros, os fins, todavia, os falsifica, mas naqueles que estão no domínio.
* * * * * * *
[2] Continuação sobre a Palavra
É uma verdade assente que ninguém pode entender a Palavra sem a doutrina, pois pode ser levado a quaisquer erros para os quais se inclina por algum amor, ou por algum princípio concebido, pelo que a mente se torna vaga e incerta, e, finalmente, fica como que desprovida de vero. Quem, porém lê a Palavra pela doutrina, esse vê todas as coisas que a confirmam e, também, muitas que estão ocultas perante os olhos dos outros, sem se deixar desviar por coisas estranhas. Assim a sua mente se torna determinada, para ver o que é certo. Que a Palavra possa ser arrastada para confirmar heresias, a menos que seja lida pela doutrina, é porque o seu sentido da letra consiste de meras correspondências, e elas, quanto à maior parte, são aparências de vero, e quanto a alguma parte, veros genuínos que não podem ser vistos e discernidos senão pela doutrina como lâmpada.
[3] Mas a doutrina não deve ser adquirida de nenhuma outra parte senão da Palavra, e somente por aqueles que estão na iluminação pelo Senhor. Estão na iluminação aqueles que amam os veros porque são veros, e os fazem de sua vida. Além disso, todas as coisas da doutrina devem ser confirmadas pelo sentido da letra da Palavra, porque neste sentido o Divino Vero está em seu pleno e em seu poder, e por ele o homem está em conjunção com o Senhor e em consociação com os anjos. Em suma, quem ama o vero porque é um vero, esse pode como que perguntar ao Senhor, nas dúvidas da fé, e ter a resposta d’Ele, mas não de outra parte que não seja a Palavra, pelo fato de que o Senhor é a Palavra.
* * * * * * *

Fim do Capítulo 17

[VERSAO IMPRESSA]

Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.