AE 1138

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 11) “E os mercadores da terra chorarão e prantearão sobre ela”. Que isto signifique o pranto e a dor daqueles que adquirem para si as coisas que são dessa religiosidade, para obterem honras e riquezas, vê-se pela significação de ‘mercadores’, que são os que adquirem para si as cognições do vero e do bem da igreja, e, no sentido oposto, os que adquirem cognições do mal e do falso; aqui, pois, são aqueles que adquirem para si as coisas dessa religiosidade por causa dos ganhos, que são tanto as honras quanto as riquezas (que estes sejam significados pelos ‘mercadores’ vê-se nos n. 840 e 1104); e pela significação de ‘chorar e prantear’, que é ter dor e lamentar-se. Há quatro gêneros de homens dessa religiosidade, que são descritos aqui, a saber, os que são chamados ‘reis da terra’, os que são chamados ‘mercadores da terra’, os que são chamados ‘mercadores de mercadorias’ e os que são chamados ‘pilotos de navios com os marinheiros’. Dos ‘reis da terra’ tratou-se nos versículos 9 e 10; dos ‘mercadores da terra’, nos versículos 11 a 14; dos ‘mercadores de mercadorias’, versículos 15 e 16; e dos ‘pilotos de navios com os marinheiros’, versículos 17 a 19.
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[2] Continuação sobre a Fé Atanasiana e sobre o Senhor
Por aí é evidente que o Senhor não pode conduzir o homem ao céu senão por meio dessas leis, ainda que Ele tenha o Divino Amor pelo qual quer, a Divina Sabedoria, pela qual sabe todas as coisas, e o Divino poder, que é a onipotência, pela qual Ele pode o que quer. Porque essas leis, chamadas da providência, são as leis da ordem a respeito da reforma e da regeneração, assim, a respeito da salvação do homem, contra as quais o Senhor não pode agir, pois agir contra elas seria agir contra a Sua sabedoria, e contra o Seu amor, assim, contra si mesmo. No que concerne à primeira lei, isto é, que o homem, pelo sentido e pela percepção, não deva saber outra coisa senão que a vida está nele, mas que deva reconhecer que os bens e veros pertencentes ao amor e à fé que ele pensa, quer, fala e faz não vêm d’Ele, mas do Senhor. Esta lei pressupõe outra, isto é, que o homem tenha o livre e que isto também deva lhe parecer como se fosse seu, mas reconheça que não é seu, mas do Senhor nele.
[3] Esta lei resulta da anterior porque o livre faz um com a vida, pois sem o livre o homem não pode sentir e perceber a vida como se estivesse nele. É pelo livre que ele sente isso e percebe isso, pois pelo livre é que tudo o que a vida opera parece ao homem como se lhe fosse próprio e seu, uma vez que o livre é o poder de pensar, de querer, de falar e de fazer por si; aqui, como por si. E isto principalmente em relação à vontade, pois o homem diz: ‘Posso o que quero, e quero o que posso, ou seja, estou no livre’. Além disso, quem é que não pode pensar pelo livro que isto é um bem e aquilo é um mal? E que isto é um vero e aquilo é um falso? Por esse motivo, ao homem é dado o livre juntamente com sua vida e nunca lhe pode ser tirado, pois quanto mais lhe é tirado ou diminuído, mais o homem sente e percebe que não é ele que vive, mas um outro nele, e mais lhe é tirado e diminuído o prazer de tudo de sua vida, pois ele se torna um servo.
[4] Que pelo sentido e pela percepção o homem não saiba outra coisa senão que a vida está nele, assim, como se ela fosse sua, é o que não precisa de outra confirmação senão a própria experiência. Quem é que sente e percebe de outro modo senão que pensa por si quando pensa, que quer por si quando quer, e que fala e age por si quando fala e age? Que, porém, o homem não deva saber de outro modo é pela lei da Divina providência, porque sem esse sentido e sem essa percepção ele não pode receber coisa alguma para si, apropriar a si e produzir por si, pois assim ele não seria recipiente da vida do Senhor e agente da vida do Senhor; seria como um autômato, ou como uma imagem parada, sem entendido e vontade, com as mãos recolhidas à espera do influxo que não lhe seria dado. Pois a vida sem recepção e a apropriação como se fosse do homem não seria mantida, mas fluiria através dele. Daí, de vivo o homem se tornaria como que morto, e de alma racional ele se tornaria não racional, assim, ou um bruto ou um toco. Com efeito, ele seria desprovido do prazer da vida, a saber, o prazer que cada um tem pela recepção como por si, pela apropriação e pela produção como por si, e, todavia, o prazer e a vida agem como um só. Tira todo o prazer da vida, e esfriarás e morrerás.
[5] Se não fosse pela lei da Divina providência que o homem sentisse e percebesse que a vida e tudo o que é dela estivesse como que nele, e somente reconhecesse que o bem e o vero não vêm dele, mas do Senhor, então nada seria imputado ao homem, nem o bem nem o vero, por conseguinte, nem o amor nem a fé. E se nada lhe fosse imputado, tampouco o Senhor ordenaria na Palavra que o fizesse o bem e fugisse do mal, e que, se fizesse o bem, teria o céu, e se fizesse o mal, teria o inferno. Nem mesmo haveria céu nem inferno, porque sem essa percepção o homem não seria homem, portanto, não seria habitáculo do Senhor, pois o Senhor quer ser amado pelo homem como se isto viesse do homem; assim o Senhor habita no homem no que é Seu, que Ele deu ao homem, a fim de ser amado reciprocamente. Com efeito, nisto consiste o Divino Amor: deseja que aquilo que é seu seja do homem, o que não haveria se o homem não sentisse e percebesse como se fosse seu aquilo que vem do Senhor.
[6] Se não fosse pela lei Divina que o homem, pelo sentido e pela percepção, não saiba outra coisa senão que a vida está nele, não poderia haver no homem o fim pelo qual agisse. Este existe nele porque o fim pelo qual se age lhe parece como se estivesse nele. O fim pelo qual age é o seu amor, que é sua vida, e o fim para o qual age é de seu amor e do prazer de sua vida; e o efeito no qual o fim se apresenta é o uso. O fim para o qual ele age, que o prazer do amor da vida, é sentido e percebido no homem porque o fim do qual age lhe concede senti-lo e percebê-lo, que é, como foi dito, o amor, que é a vida. Mas àquele que reconhece que todas as coisas da vida vêm do Senhor, Ele dá o prazer e a bem-aventurança de Seu amor na proporção que ele reconhece e na proporção que presta usos, assim, quando o homem, pelo reconhecimento e pela fé oriunda do amor, como por si mesmo atribui ao Senhor todas as coisas de sua vida, e, vice-versa, o Senhor atribui ao homem o bem de sua vida, que traz consigo toda felicidade e bem-aventurança; e também concede que do interior e de um modo apurado o homem percebe isto em si como se fosse seu, e de modo cada vez mais apurado na proporção que o homem que de coração aquilo que reconhece pela fé. A percepção é então recíproca: grata ao Senhor por Ele estar no homem e o homem nele, e feliz ao homem, por ele estar no Senhor e o Senhor nele. Assim é a união do Senhor com o homem e do homem com o Senhor pelo amor.

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