AE 1145

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E toda madeira de tuia”. Que isto signifique todo bem conjunto ao vero no homem natural, vê-se pela significação de ‘madeira’, que é o bem do homem natural (de que se tratará a seguir), mas ‘madeira de tuia’ significa o bem conjunto ao vero no homem natural, pois ‘thyinum’ é derivado de ‘dois’ na língua grega, e dois significa essa conjunção. Que a ‘madeira de tuia’ signifique o bem conjunto ao vero é evidente também pelas coisas que antecedem e pela que seguem; pelas que antecedem, pelo fato de serem nomeadas coisas tais que significam os bens e veros celestes e os bens e veros espirituais, que são ‘linho fino e púrpura, e seda e escarlate’; e pelas que seguem, por serem nomeadas coisas tais que significam os bens e veros naturais, que são ‘vaso de marfim e vaso de madeira preciosa, e bronze, ferro e mármore’. Daí é evidente que ‘madeira de tuia’ significa o bem conjunto ao vero no homem natural, oriundo dos bens e veros que foram mencionados acima. Porque há no homem três graus de vida que, considerados em sua ordem, se chamam celestes, espirituais e naturais; nessa mesma ordem, neste versículo, são nomeadas as coisas tais que significa os bens e veros do segundo grau. Como, porém, pelas coisas que foram citadas acima são significados os veros e bens profanados, os quais são, em si, falsos e males, assim, também pelo bem conjunto ao vero, que aqui é a ‘madeira de tuia’, é significado esse bem profanado, que é o mal conjunto ao falso. Esse bem, visto é que do homem natural, é profanado principalmente pela veneração a ossos e sepulcros, pela santificação de muitas coisas que são para o culto, por muitas coisas relativas às procissões e, em geral, por todas as coisas idolátricas, que são prazeres do homem natural e, daí, sentidas como bens e chamadas veros.
[2] Que a ‘madeira’ signifique o bem é porque ela vem da árvore, da qual vêm os frutos; e porque a madeira pode ser queimada e servir de uso para aquecimento do corpo, como também para se construírem casas e para diversos artefatos de uso e comodidade; também porque da madeira se extrai o óleo, pelo qual é significado o bem do amor, e encerra em si o calor. Por outro lado, porém, a ‘pedra’ aqui significa o vero do homem natural, pelo fato de ser fria e não poder ser queimada. Como a ‘madeira’ significa o bem, por isso também entre os antiquíssimos, que estiveram no bem do amor, os templos eram de madeira e não eram chamados templos, mas casas de Deus, e muitas a tiveram em seu tabernáculos, nos quais não somente habitaram, mas, também, tiveram o culto santo. Por isso também os anjos do terceiro céu habitam em casas de madeira, e isto porque eles estão bem do amor Senhor e a madeira corresponde a isso. Eles também têm madeiras segundo a correspondência das árvores de que elas vêm, pois a ‘árvore’ significa o homem, e o fruto, o bem do homem. Por isso é que na Palavra são nomeadas madeiras de várias árvores, como da oliveira, da videira, do cedro, do choupo e do carvalho; a ‘madeira da oliveira’ significa o bem celeste; ‘da videira’, o bem espiritual; ‘do cedro’, o bem racional; ‘do choupo’ o bem natural, e do ‘carvalho’, o bem sensual.
[3] Ora, como todas as coisas da Palavra são correspondências, e como a madeira corresponde ao bem e, no sentido oposto, ao mal, por isso a ‘madeira’ aí significa o bem e, no sentido oposto, o mal, como se pode ver pelas passagens seguintes. Nas Lamentações:
“Nossas águas bebemos por prata, e nossas madeiras vêm por preço” (Lm. 5:4).
Assim é descrita a falta de cognições do vero e do bem; a falta de cognições do vero por ‘beberem águas por prata’, e a falta de cognições do bem por ‘as madeiras virem por preço’. Em Ezequiel:
“Pilharão as tuas riquezas... depredarão as tuas mercadorias... destruirão os teus muros, e derribarão as casas de teus desejos; ... tuas pedras, e tua madeira, e teu pó, porão no meio do mar” (Ez. 26:12).
Essas palavras tratam da devastação de todo vero e bem da igreja pelos males e falsos; as ‘riquezas’ que pilharão são as cognições do vero; as ‘mercadorias’ que depredarão são as cognições do bem; os ‘muros’ que destruirão são os doutrinais; as ‘casas de desejo’ que derribarão são as coisas que pertencem à mente, assim, as são do entendimento e da vontade, pois aí o homem habita; ‘pedras, madeira e pó’, que porão no meio do mar, são os veros e bens do homem natural; as ‘pedras’ são os seus veros, as ‘madeiras’ são os seus bens, e o ‘pó’ são os seus ínfimos, que são do homem sensual.
[4] No mesmo:
“Filho do homem, toma para ti uma madeira e escreve sobre ela: De Judah e dos filhos de Israel, seus companheiros; depois toma uma madeira e escreve sobre ela: De José, madeira de Efraim, e das tribos de Israel de seus companheiros; em seguida ajunta-a à outra para ti numa só madeira;... para que ambas sejam uma só em Minha mão, e [Eu] faça delas uma só madeira” (Ez. 37:16, 17, 19, 20).
Por essas palavras era representada a conjunção do reino celeste e do reino espiritual do Senhor pelo bem do amor; por ‘Judah e os filhos de Israel, seus companheiros’ é significado o reino celeste do Senhor; por ‘Judah, esse reino quanto ao bem, e pelos ‘filhos de Israel, seus companheiros’, o mesmo quanto ao vero; mas por ‘José’ e pelas ‘tribos de Israel, seus companheiros’ é significado o reino espiritual do Senhor; por ‘José’, esse reino quanto ao bem, e pelas ‘tribos de Israel, seus companheiros’, o mesmo quanto ao vero; por ‘Efraim’ é significado o entendimento do vero; e visto que aqueles que estão no entendimento do vero pelo bem espiritual estão no reino espiritual do Senhor, por isso este é chamado ‘madeira de Efraim’. Que esses dois reinos sejam conjuntos em um só pelo Senhor por meio do bem do amor a Ele e por meio do bem da caridade para com o próximo entende-se prelo fato de esses dois reinos serem conjuntos, um ao outro, numa só madeira, ‘para que ambos sejam um só na mão de Jehovah e se tornem uma só madeira’. Que as coisas que se derivam dos falsos sejam corrigidas pelo bem, é representado e significado pelo fato de
As águas amargas em Mara se tornarem doces pela madeira lançada (Êx. 15:25);
as ‘águas amargas’ são as coisas que aparentemente são veros e se derivam dos falsos; a ‘madeira’ é o bem do homem natural. Como a ‘madeira’ signifique o bem do amor pela correspondência, pois as tábuas de pedra, nas quais foi inscrita a lei, foram depositadas numa arca feita de madeira schittim; e também por isso várias coisas do tabernáculo foram feitas com mesma madeira e o tempo de Jerusalém foi revestido de madeira.
[5] Ora, assim como a maioria das coisas na Palavra tem também um sentido oposto, também a ‘madeira’ o tem, e nesse sentido significa o mal, porque o mal é oposto ao bem. Isto é significado por
Servir à madeira e à pedra Dt. 4:23-28; Is. 37:19; Jr. 3:9; Ez. 20:32 e outras passagens).
Em Isaías:
“Uma madeira, que não apodrece, escolhe; busca para si um artífice sábio, para preparar a imagem de escultura que não seja movida” (Is. 40:20);
pela ‘madeira’ aqui é significado o mal, que é adorado como se fosse o bem, pois a ‘imagem de escultura’ é o mal do culto; ‘escolher madeira que não apodreça’ significa algum bem da Palavra, que é adulterado e daí se torna mal; é escolhido porque aquilo que vem da Palavra persuade e, assim, não perece nas mentes, pois assim é com todo mal e falso confirmado pela Palavra; ‘buscar artífice sábio’ significa buscar quem tem o dom de confirmar e falsificar pela própria inteligência.
[6] Em Jeremias:
“Os estatutos das nações são vaidade, se corta madeira da floresta, obra das mãos do artífice pelo machado... enlouquecem e se tornam estúpidos; doutrina de vaidades é a madeira” (Jr. 10:3, 8);
pelos ‘estatutos das nações’, que são vaidade, são significadas todas as coisas do culto dos que estão no mal; pela ‘madeira’ que se corta ‘da floresta’ e pela ‘obra das mãos do artífice pelo machado’ é significado o mal de procede o culto, que é moldado pela própria inteligência por meio de falsos; ‘madeira’ é o mal do culto, que se entende pela ‘imagem de escultura’; ‘obra das mãos do artífice’ é o que vem da própria inteligência, e ‘machado’ é o falso que destrói o bem e confirma o mal.
[7] No mesmo:
“A voz... como de serpente irá... e com os machados virão, como os cortares de madeiras” (Jr. 46:22);
pela ‘voz de serpente’ se entende a astúcia e o dolo; ‘com machados’ significa com os falsos que destroem o bem; ‘como os cortadores de madeiras’ significa como os que querem extirpar mal, quando, porém, extirpam o bem. Em Moisés:
Se alguém matar seu companheiro por erro, como se com o companheiro entrar na floresta, e machado cair da madeira no companheiro, fugirá para a cidade de refúgio (Dt. 19:5).
A alguém que pecasse por erro ser permitido fugir para a cidade de refúgio é ilustrado por um exemplo que raramente acontece, mas é citado para ilustrar o que se entende por matar por erro. É citado porque a ‘madeira’ é significativa, assim como o ‘machado’ e também a ‘floresta’; a ‘madeira’ é o bem, o ‘machado’ é o falso e a ‘floresta’ é o homem natural. Por isso, por este exemplo é significado que, se alguém estiver no bem natural e por um falso que ele ignora ser falso, destruir alguém quanto à alma, isto se deu erro, porque não foi proveniente do mal.
[8] Em Habacuque:
“A pedra clama da parede, e a trave responde da madeira” (Hb. 2:11),
pelo que se entende que o mal confirma o falso e o instiga; pela ‘parede’ da qual a pedra clama é significado o homem vazio de veros e que assim quer ser instruído pelo falso; pela ‘trave’ que responde da madeira é significado o homem desprovido de bem, e pela ‘madeira’ é significado o mal que confirma o falso que lhe dá assentimento. Em Jeremias:
“Os que dizem à madeira: Tu és meu pai; e à pedra: Tu me geraste; porque voltaram para Mim a cerviz e não a face” (Jr. 2:27);
que ‘digam à madeira, Pai’ significa que foram concebidos do mal; que ‘digam à pedra, tu me geraste’ significa que nasceram do falso do mal; que ‘voltem a cerviz e não a face’ significa que se desviaram de todo bem e vero. ‘Fogo’ e ‘madeira’ são mencionados em Zacarias (12:6) e em Isaías (30:33), e são mencionados porque ‘fogo’ significa o amor mau, e ‘madeira’ os males daí.
[9] Como as ‘espadas’ significam os falsos que destroem os veros, e ‘madeiras’ significam os males que destroem o bem, por isso, por ordem do sumo sacerdote,
A turba saiu com Judas Iscariotes contra Jesus com espadas e paus (Mt. 26:47; Mc. 14:43, 48; Lc. 22:52).
Isto aconteceu porque todas as coisas da paixão do Senhor foram representativas da destruição de todo bem e vero pelos judeus. Havia com os filhos de Israel duas punições comuns: o apedrejamento e a suspensão num madeiro; o apedrejamento por causa do vero ferido e destruído, e a suspensão no madeiro por causa do bem ferido e destruído. Daí a suspensão na madeira uma maldição (Dt. 21:22-23). Por aí é evidente que a ‘madeira’ significa o bem, em especial o bem do homem natural, e, no sentido oposto, o seu mal.
* * * * * * *
[10] Continuação sobre a Fé Atanasiana e sobre o Senhor
No mundo há homens anjos e homens diabos. De homens anjos consiste o céu, e de homens diabos, o inferno. No homem anjo todos os graus de sua vida foram abertos até o Senhor; no homem diabo, porém, foi aberto somente o último grau, e os superiores foram fechados. O homem anjo é conduzido pelo Senhor tanto de dentro quanto de fora, mas o homem diabo é conduzido por si mesmo de dentro e pelo Senhor, de fora. O homem anjo é conduzido pelo Senhor segundo a ordem, de dentro desde a ordem e de fora para a ordem, mas o homem diabo é conduzido pelo Senhor, de fora, para a ordem, para por si mesmo, de dentro, contra a ordem. O homem anjo é continuamente retirado do mal pelo Senhor e conduzido ao bem, mas o homem diabo é também continuamente retirado do mal pelo Senhor, mas de um mal mais grave a um menos grave, porquanto não pode ser conduzido ao bem. O homem anjo é continuamente tirado do inferno pelo Senhor e conduzido ao céu cada vez mais interiormente, mas o homem diabo é também continuamente retirado do inferno, mas de um mais grave a um menos grave, porquanto não pode ser conduzido ao céu.
[11] O homem anjo, como é conduzido pelo Senhor, é conduzido pela lei civil, pela lei moral e pela lei espiritual, por causa do Divino nelas; o homem diabo é conduzido pelas mesmas leis, mas por causa do que é seu nelas. O homem anjo ama, pelo Senhor, os bens da igreja, que também são bens do céu, porque são bens, do mesmo os seus veros porque são veros, mas por si mesmo ama os bens do corpo e do mundo, porque são de uso e são da volúpia, do mesmo modo que aos veros que são das ciências; todavia, ama estes e aqueles aparentemente por si, mas realmente pelo Senhor. Já homem diabo também ama por si os bens do corpo do corpo e do mundo porque são de uso e são da volúpia, do mesmo modo que aos veros que são das ciências, mas ama estes e aqueles aparentemente por si, mas realmente pelo inferno. O homem anjo está no livre e no prazer de seu coração quando age pelo bem e, também, quando não faz o mal, mas o homem diabo está no livre e no prazer de seu coração quando faz o bem pelo mal e, também, quando faz o mal. O homem anjo e o homem diabo parecem semelhantes entre si quanto aos externos, mas inteiramente dessemelhantes quanto aos internos; por isso, quando os externos são depostos pela morte, são plenamente dessemelhantes. Um é levado ao céu e o outro é precipitado no inferno.

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