. “[E] animais de carga e ovelhas”. Que isto signifique o culto pelos veros e bens que são de origem espiritual natural, profanado, vê-se pela significação de ‘animais de carga’, que são os veros que visam a caridade (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘ovelhas’, que são os bens da caridade, como se pode ver por todas as passagens na Palavra onde elas são nomeadas (como nas seguintes: Mt. 7:15; 9:36; 10:5, 6, 16; 12:10-12; 15:21-29; 18:12, 13; 25:31-41; 26:31; Mc. 6:34; 14:27; Jo. 10:1-18, 26-31; 21:15-17, além de muitas passagens nos Profetas). Aí, pelas ‘ovelhas’ são significados os que estão no bem da caridade; assim, num sentido abstrato, pelas ‘ovelhas’ são significados os bens da caridade. Mas pelos ‘animais de carga’ são significados os veros que visam os bens da caridade, e entende-se principalmente os asnos que eram montados e levavam cargas, pelos quais são significadas coisas tais que são de uso e de instrução. Como em Isaías:
“Carregam sobre o ombro dos animais de carga as suas riquezas” (Is. 30:6);
as ‘riquezas’ são as cognições. E, em Lucas:
O samaritano ergueu o ferido pelos ladrões [e pô-lo] em seu próprio animal de carga (Lc. 10:34).
Que ‘pô-lo sobre o próprio animal de carga’ signifique instruí-lo segundo a sua faculdade vê-se nos n. 375, 376 e 444, onde essas coisas foram explicadas. O que se entende pelos ‘animais de carga’ quando por estes são significados os asnos vê-se nos n. 31 e 140. Foi dito que pelos ‘animais de carga’ e pelas ‘ovelhas’ são significados os veros e bens de origem espiritual natural porque se entendem os veros e bens como são naqueles que estão na igreja externa do Senhor e, assim, no primeiro céu ou o mais externo. Eles são naturais, mas recebem o espiritual, pelo que são chamados espirituais naturais. Aqui, como em outras passagens, entende-se que o culto por esses veros e bens foi profanado.
* * * * * * *
[2] Continuação a respeito da Fé Atanasiana e sobre o Senhor
A operação da Divina providência, sem que o homem a conheça, será ilustrada por meio de duas comparações. É assim como um homem, jardineiro, recolhe sementes de arbustos, frutos e flores de todo gênero, e adquire para si enxadas, ancinhos e muitas ferramentas de mão para trabalhar a terra, e depois aduba o jardim, cava-o, divide-o em leiras, lança a semente e aplaina o humo. Estas coisas são do homem como por si mesmo. Mas o Senhor faz com as sementes lancem raiz, saiam da terra, germinem em folhas, em seguida em flores e, finalmente, em novas sementes que são dadas ao jardineiro. É, também, como o homem que vai edificar uma casa e adquire para si as coisas necessárias, como madeira, pranchas, pedras e cal e várias coisas. Mas o Senhor, sem que o homem o saiba, edifica a casa do alicerce ao teto, plenamente acomodada ao homem. Disto se seque que, se o homem não adquire para si as coisas necessárias para o jardim ou para a casa, ele não tem jardim e, assim, tampouco o uso do fruto, ou não tem casa e, assim, tampouco a habitação.
[3] Assim é na reforma. As coisas que o homem deve adquirir para si são as cognições do vero e do bem da Palavra, da doutrina da igreja, do mundo e do próprio labor; as demais coisas o Senhor opera sem que o homem o saiba. Cumpre saber, porém, que todas as coisas necessárias para plantar um jardim ou para edificar uma casa, que são, como foi dito, as cognições do vero e do bem, são somente despensas [penaria], que não são vivas antes que o homem as pratique ou viva segundo elas como por si mesmo. Quando faz isto, então o Senhor entra, vivifica e edifica, isto é, reforma. Esse jardim, ou essa casa, é o entendimento do homem, pois aí está a sua sabedoria, que deriva do amor tudo o que é seu.
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