. “E todas as coisas gordas e esplêndidas se foram de ti”. Que isto signifique que todas as coisas boas e verdadeiras, ditosas e grandiosas de que se persuadiram a buscar por essa religiosidade se converteram em coisas contrárias, vê-se pela significação de ‘gordas’, que são as coisas boas e, daí, ditosas (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘esplêndidas’, que são as coisas verdadeiras e, daí, grandiosas. Que ‘esplendidas’ signifique isto é porque o esplendor pertence à luz, e a luz do céu é o Divino Vero ou a Divina Sabedoria. Por isso é que todas as coisas do céu resplandecem com um esplendor tal que existe no mundo; pode ser comparado ao esplendor do diamante voltado para o sol, mas o esplendor no céu o supera em muitas maneiras; supera como a luz do céu supera a luz do mundo. A diferença entre elas é tal pode, de fato, ser ilustrada por meio de comparações, mas não pode ser descrita. Dessa luz existem todas as coisas grandiosas ali, que são tais que não podem ser representadas no mundo nem ser, por isso, descritas. Com efeito, nelas a arte mesma está em sua arte, e a nelas a ciência está em sua sabedoria, pelo que são de uma beleza inefável. Daí é evidente de onde procede que ‘grandiosas ‘ significa as coisas verdadeiras e, daí, grandiosas.
[2] Que o vocábulo ‘gordas’ signifique as coisas boas e, daí, ditosas, é porque a gordura é o melhor da carne e porque é como o óleo, pelo que é significado o bem do amor. Que a ‘gordura’ signifique o bem e as coisas que são do bem, assim, as coisas ditosas e prazerosas, vê-se pelas seguintes passagens na Palavra. Em Isaías:
“Ouvindo ouvi-Me... comei o que é bom, para que vossa alma se delicie com a gordura” (Is. 55:2);
por ‘comer o que é bom’ é significado apropriar o bem a si; assim, por ‘deliciar-se com a gordura’ é significado estar na felicidade e na bem-aventurança. Em Jeremias:
“Encherei de gordura a alma dos sacerdotes, e o Meu povo ficará saciado com o bem” (Jr. 31:14);
também ai, pela ‘gordura’ são significadas a felicidade e a bem-aventurança oriundas do bem do amor. Em David:
“Com banha e gordura minha alma ficará saciada, e minha boca louvará com lábios de cânticos” (Sl. 63:5);
‘com banha e gordura saciar a alma’ significa o bem do amor e daí encher-se de regozijo; ‘louvar com lábios de cânticos’ significa adorar pelos veros que alegram a mente. No mesmo:
“Encher-se-ão da gordura de Tua casa, e do rio de Tuas delícias lhes dá a beber” (Sl. 36:8);
pela ‘gordura’ com que ‘encherão a casa’ é significado o bem do amor e, daí, o que é ditoso; a ‘casa’ são as coisas que são da mente; pelo ‘rio de delícias’ com que ‘lhes dá a beber’ é significada a inteligência e, daí, a felicidade.
[3] Em Isaías:
“Jehovah Zebaoth fará neste monte para todos os povos um banquete de gorduras, um banquete de [vinho] de borra, gordura de tutanos e [vinho] de borra refinada” ??? (Is. 25:6).
Essas palavras são a respeito do estado daqueles que haviam de reconhecer e adorar o Senhor. Por esse ‘monte’ é significada a nova igreja formada deles; pelo ‘banquete de gorduras, gordura de tutanos’ é significado bem, tanto natural quanto espiritual, com regozijo de coração; e pela ‘borra, borra refinada’ são significados os veros desse bem com a felicidade advinda deles. No mesmo:
“Jehovah dará a chuva de tua semente, com que semearás a terra, e o pão do provento da terra, e será gordo e abundante” (Is. 30:23);
pela ‘chuva da semente’ é significada a multiplicação do vero, e pelo ‘pão do provento’ é significada a frutificação do bem; por ‘gordo e abundante’ é significado o bem e vero com tudo o que é ditoso e feliz. Em David:
“Ainda terão provento na velhice; gordos e verdes serão, para anunciar que Jehovah é reto” (Sl. 92:14-15);
‘ser gordos e verdes’ significa estar nos bens e veros da doutrina. No mesmo:
“Jehovah “lembrar-Se-á de todas as tuas ofertas, e fará gordo o teu holocausto” (Sl. 20:3);
pelas ‘ofertas’ e pelo ‘holocausto’ é significado o culto, e por ‘fazer gordo’ é significado o culto pelo bem do amor. (O mesmo é significado pela ‘gordura’ em Ezequiel 34:3, em Gênesis 27:39 e outras passagens). Como a ‘banha’ e a ‘gordura’ significavam o bem do amor, e como todo culto que é verdadeiramente culto deve provir do bem do amor,
Por isso foi estatuído que toda banha e gordura nos sacrifícios fosse queimada sobre o altar (Êx. 29:13, 22; Lv. 1:8; 3:3-16; 4:8-35; 7:3-4, 30-31; 17:6; Nm. 18:17-18), pois pelos ‘sacrifícios’ e ‘holocaustos’ era significado o culto.
[4] Como a nação judaica e israelita estava somente no culto externo e não ao mesmo tempo no interno, não estando, daí, em bem algum do amor, nem em bem algum da caridade e da fé, por isso
Foi-lhes proibido comer gordura e sangue, e [foi-lhes dito] que seriam cortados se os comessem (Lv. 3:17; 7:23, 25).
Mas, aos que estão no culto interno e, daí, no culto externo, tais como os que serão da nova igreja do Senhor, foi dito
Que comessem gordura até se fartarem, e bebessem sangue até se embebedarem (Ez. 39:19);
aqui, pela ‘gordura’ é significado todo bem do céu e da igreja, e pelo ‘sangue’ todo o vero deles. No sentido oposto, por ‘gordos’ são significados os que têm nojo ao bem e que muito o desprezam e rejeitam (Dt. 32:15; Jr. 5:28; 50:11; Sl. 17:10; 20:4; 68:31; 119:70 e outras passagens).
* * * * * * *
[5] Continuação
Essa não é, porém, a sorte dos que são constantemente maus. Todos os que são constantemente maus estão no inferno segundo os amores de sua vida, e ali pensam e pelo pensamento falam, ainda que falsidades; e querem, e pela vontade fazem, ainda que males. E mostram-se entre si mesmos como homens, ainda que em forma monstruosa na luz do céu. Por aí se pode ver por que é da lei da ordem a respeito da reforma, que se chama lei da Divina providência, que o homem não seja introduzido nos veros da fé e nos bens do amor senão à medida que pode ser contido dos males e mantido nos bens até o fim da vida. E que é melhor que o homem seja constantemente mau do que bom e, depois, mal, pois assim se torna profano. O Senhor, que provê todas as coisas e prevê todas as coisas, por essa causa oculta as operações de Sua providência, a ponto de o homem dificilmente saber se há alguma providência, e permite que o homem atribua, antes, à prudência as coisas que se fazem, e ao acaso as coisas que acontecem, e mesmo que atribua muitas coisas à natureza, do que, por sinais visíveis e manifestos da providência e da presença Divina, ele se lance intempestivamente em santidades em santidades nas quais não permanecerá. O Senhor também permite coisas semelhantes por causa das demais leis de Sua providência, a saber, por estas: que o homem tenha o livre e faça o que faz segundo a razão, assim, inteiramente como por si mesmo. Pois é melhor que o homem atribua à prudência e ao acaso as operações da Divina providência do que reconhecê-las e, no entanto, viver como diabo. Por aí é evidente que as leis da permissão, que são muitas, procedem das leis da providência.
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