AE 1175

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 19) “E lançaram pós sobre as suas cabeças, e clamaram, chorando e pranteando”. Que isto signifique a dor e a confissão de que foram condenados por causa da vida segundo a sua religiosidade e doutrina vê-se pela significação de ‘lançar pó sobre a cabeça’, que é o lamento por terem sido condenados; (que seja por causa da vida segundo essa religiosidade e a sua doutrina é o que segue como consequência); e pela significação de ‘clamar, chorando e pranteando’, que é a dor por terem sido condenados por causa da vida segundo elas, pois ‘clamar’ se refere à doutrina, e ‘chorar’ e ‘prantear’ significa a dor de alma e de coração (como acima, n. 1164). Que ‘lançar pó sobre a cabeça’ seja o lamento por causa da condenação é porque o ‘pó’ significa o que é condenado, e, pela cabeça, o homem mesmo. Que o ‘pó’ signifique o que é condenado é porque os infernos estão embaixo e os céus, acima, e dos infernos exala perpetuamente o falso do mal; daí, o ‘pó’ sobre eles significa o que é condenado (assunto de que também se tratou acima, n. 742). Por causa dessa significação do ‘pó’ é que foi aceito nas igrejas representativas o costume de lançar pó sobre a própria cabeça quando faziam o mal e se arrependiam, pois desse modo testemunhavam isso.
[2] Que seja assim, pode-se ver pelas seguintes passagens. Em Ezequiel:
“Clamarão amargamente, e farão subir pós sobre as suas cabeças; revolver-se-ão na cinza” (Ez. 27:30);
por ‘fazer subir pós sobre as suas cabeças’ é significado o lamento por causa da condenação; e por ‘revolver-se na cinza’ é significado um lamento ainda mais profundo, pois as ‘cinzas’ significam o que é condenado, uma vez que o ‘fogo’ de que elas vêm significa o amor infernal. Nas Lamentações:
“Sentam-se na terra, ficam calados os anciãos da filha de Sião; fizeram subir pó sobre a sua cabeça... fizeram descer à terra a cabeça... as virgens de Jerusalém” (Lm. 2:10);
por tais atos eram representados a dor e o lamento por causa dos males e falso, dos quais se arrependiam, assim, a confissão de que estavam condenados; a ‘filha de Sião’ significa a igreja, e as ‘virgens de Jerusalém’ significam os veros da doutrina; ‘sentar-se na terra’ e ‘ficar calado’ significa a dor da mente, e ‘fazer subir pós sobre as cabeças’ significa a confissão de que estavam condenados; ‘fazer descer a cabeça à terra’ significa a confissão de que estão no inferno. Em Jó:
Os amigos de Jó, “rasgaram [cada um] a sua túnica, e espalharam o pó sobre as suas cabeças em direção ao céu” (Jó 2:12);
por ‘espalhar pó sobre a cabeça em direção ao céu’ significa o lamento por causa de Jó, que era visto como condenado; o lamento por causa da condenação do mal é significado pelo ‘pó sobre a cabeça’, e por ‘rasgar a túnica’ é significado o lamento por causa da condenação do falso. Algo semelhante é significado por
Revolver-se no pó (Mq. 1:10).
Que a penitência tenha sido representada por isto, vê-se em Jó:
“Faço penitência sobre o pó e sobre a cinza” (Jó 42:6).
Como o ‘pó’ significava a condenação, por isso foi dito à serpente:
“Sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias de tua vida” (Gn. 3:14);
pela ‘serpente’ é significado o mal infernal naqueles que pervertem os veros da Palavra e por esse meio enganam astuta e dolosamente. Semelhantemente, em Isaías:
“O pó [será] o pão da serpente” (Is. 65:25).
Por aí é evidente que o ‘pó’ é o que é condenado, e que ‘lançar pó sobre a cabeça’ é atestar a condenação.
* * * * * * *
[3] Continuação
Feitas essas premissas, dir-se-á agora o que á a afeição e, em seguida, o porquê de o homem ser conduzido pelo Senhor por meio de afeições e não por meio de cognições; finalmente, que o homem não possa ser salvo de outra maneira. O que é a afeição. Por afeição se entende o mesmo que pelo amor, mas o amor é como a fonte, e as afeições são como os rios vindos dali, por conseguinte, são também os seus contínuos. O amor como fonte está na vontade do homem; as afeições que são os seus rios fluem pelo contínuo no entendimento e, aí, por meio da luz dos veros, produzem as cognições, exatamente como as emanações de calor num jardim produzem as germinações por meio dos raios de luz. Além disso, o amor em sua origem é o calor do céu, e os veros em sua origem são os raios da luz do céu, enquanto os pensamentos são as germinações oriundas do casamento deles. De tal casamento procedem todas as sociedades do céu, as quais são inumeráveis e, em sua essência, são afeições, porque vêm do calor, que é o amor, e da sabedoria, que é luz, ambos provenientes do Senhor como sol. Daí, aquelas sociedades são afeições do bem e do vero, conforme o calor ali é unido à luz e a luz é unida ao calor. São daí os pensamentos de todos naquelas sociedades. Por aí é evidente que as sociedades do céu não são pensamentos, mas afeições; consequentemente, ser conduzido por aquelas sociedades é ser conduzido por meio de afeições, ou, ser conduzido por meio de afeições é ser conduzido pelas sociedades. Por isso, no que agora se segue, em lugar de sociedades dir-se-ão afeições.
[4] Dir-se-á agora o porquê de o homem ser conduzido pelo Senhor por meio de afeições e não por meio de pensamentos. Quando o homem é conduzido pelo Senhor por meio de afeições, ele pode ser conduzido segundo todas as leis de Sua Divina providência, mas não se for conduzido por meio de pensamentos. As afeições não se manifestam diante do homem, mas os pensamentos se manifestam. Também, as afeições produzem pensamentos, mas os pensamentos não produzem afeições. Parece que produzem, mas é uma falácia. E como as afeições produzem pensamentos, também produzem todas as coisas do homem, porque elas são de sua vida. Isto é até conhecido no mundo: se conservares um homem em sua afeição, conservá-lo-á preso e o levarás aonde quiseres; e, então, uma razão vale por mil. Se, porém, não conservares um homem em sua afeição, de nada valerão as razões, porque a afeição, não concordando, ou as perverte, ou as rejeita, ou as extingue. O mesmo aconteceria se o Senhor conduzisse o homem imediatamente por meio de pensamentos e não por meio de afeições. Além disso, quando o homem é conduzido pelo Senhor por meio de afeições, ao homem parece que pensa livremente como por si mesmo, e como por si mesmo livremente fala e, também, age. Assim é, pois, que o Senhor não ensina o homem imediatamente, mas mediatamente, pela Palavra, pelas doutrinas e pelas pregações da Palavra, pelas conversas e comunicações, por daí o homem pensa livremente como por si mesmo.
[5] Que o homem não possa ser salvo de outra maneira é o que se segue tanto do que foi dito a respeito das leis da Divina providência, quanto do fato de que os pensamentos não produzem afeições no homem. Porque, se o homem soubesse todas as coisas da Palavra, e todas as coisas das doutrinas, até os arcanos da sabedoria que os anjos têm, e pensasse e falasse sobre isso, e as suas afeições fossem concupiscência do mal, ele não poderia, contudo, ser tirado do inferno pelo Senhor. Daí é evidente que se o homem fosse ensinado do Senhor por um influxo em seu pensamento seria como aquele que lança a semente no caminho, ou nas águas, ou na neve, ou no fogo.

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