. “E um anjo forte levantou uma pedra como uma grande mó e lançou no mar”. Que isto signifique todas as confirmações da doutrina deles pela Palavra lançadas no inferno juntamente com eles, vê-se pela significação de ‘anjo forte’, que é o Divino Vero em seu poder (de que se tratou nos n. 130, 200, 302, 593 e 800); pela significação de ‘mó de pedra’, que é a confirmação do vero pela Palavra e, também, a confirmação do falso por ela (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘lançar no mar’, que é no inferno juntamente com eles. Que pelo ‘mar’ também seja significado o inferno vide nos n. 537 e 538. Que a ‘mó de pedra’ signifique a confirmação pela Palavra em ambos os sentidos é porque o ‘trigo’ significa o bem, e a ‘flor de farinha’, o seu vero; daí, pela ‘mó de pedra’, pela qual o trigo é moído e se torna flor de farinha, ou a cevada se torna farinha, é significada a produção do vero oriundo bem, ou a produção do falso oriundo do mal, assim também a confirmação do vero ou do falso pela Palavra, como também se pode ver pelas seguintes passagens. Em Jeremias:
“Tirarei deles a voz de regozijo e a voz de alegria, a voz do noivo e a voz da noive, a voz das mós e a luz das lâmpadas” (Jr. 25:10).
Aí se descreve também o regozijo do céu e da igreja, e pela ‘voz de regozijo’ é significada a exultação de coração oriunda do bem do amor, e pela ‘voz de alegria’ é significada a glorificação da alma pelos veros da fé, pois ‘regozijo’, na Palavra , se diz do bem, e ‘alegria’, do vero. Pela ‘voz das mós’ é significado o mesmo que pela ‘voz de regozijo’, e pela ‘luz da lâmpada’ é significado o mesmo que pela ‘alegria’, a saber, oriunda do vero da fé. Que a ‘voz das mós’ signifique o regozijo de coração oriundo do bem do amor é porque a mó esmigalha o trigo em farinha, e pelo ‘trigo’ é significado o bem do amor, e pela ‘farinha’, o vero desse bem.
[2] Expressões semelhantes às palavras que foram explicadas logo acima também são ditas neste capítulo do Apocalipse, a saber,
“A voz da mó não se ouvirá mais em ti, e a luz da lâmpada não luzirá mais em ti, e a voz do noivo e a voz da noiva não se ouvirão mais em ti” (vers. 22, 23).
Em Isaías:
“Toma a mó e mói a farinha... desnuda a coxa passando os rios” (Is. 47:2).
Essas palavras são a respeito de Babel e da Caldeia, e por ‘tomar a mó’ e ‘moer a farinha’ é significado produzir falsos a partir do mal e confirma-los pela Palavra; e por ‘desnudar a coxa passando os rios’ é significado adulterar os bens por meio de raciocínios. Nas Lamentações:
“Levaram os jovens para moer, e os meninos caem na madeira” (Lm. 5:13);
‘levar os jovens para moer’ significa compelir aqueles que puderam estar no entendimento do vero para falsificarem os veros; ‘os meninos caem na madeira’ significa compelir aqueles que puderam estar na vontade do bem para adulterarem os bens; ‘moer’ é falsificar os veros, ou confirmar os falsos pela Palavra, ‘madeira’ é o bem. Em Moisés:
“Não tomarás em penhor a mó ou a mão da mó, pois ele recebe a alma em penhor” (Dt. 24:6).
Isto havia entre as leis deles, e todas elas correspondiam a coisas espirituais. Que ‘não tomassem em penhor a mó ou a mão da mó’ significava no sentido espiritual que não tirassem de ninguém a capacidade de pelo bem entender os veros, assim, que a ninguém privassem dos bens e veros. Como eram essas as coisas significadas, por isso se diz que ‘ele toma a alma em penhor’, pelo que é significado que assim perece espiritualmente. No mesmo:
“Morrerá... até o primogênito da escrava que está detrás da mó” (Êx. 11:5);
pelo ‘primogênito da escrava que está detrás da mó’ são significadas as coisas primárias da fé do homem natural, que são falsificadas.
[3] Em Mateus:
Na consumação do século, “duas estarão moendo... uma será tomada, a outra, deixada” (Mt. 24:40, 41);
a ‘consumação do século’ é o último tempo da igreja; por ‘duas moendo’ se entendem os que pela Palavra se confirmam nos veros e os que se confirmam nos falsos; os que se confirmam nos veros se entendem por aquela que ‘será tomada’, e os que se confirmam nos falsos, por aquela que ‘será deixada’. Nos Evangelhos:
Jesus disse: “Quem escandalizar um dos pequenos... que creem em Mim, é-lhe proveitoso que suspenda uma mó de asno em seu pescoço, e mergulhe na profundeza do mar” (Mt. 18:6; Mc. 9:42; Lc. 17:2);
por ‘escandalizar um dos pequenos que creem em Jesus’ é significado perverter aqueles que reconhecem o Senhor; por ‘ser-lhe proveitoso que suspenda uma mó de asno ao pescoço’ é significado que é melhor que não soubesse bem e vero algum, mas o mal e o falso; isto é a ‘mó de asno’; e ‘suspender ao pescoço’ é a interceptação, para que não conheça o bem e o vero; ‘mergulhar na profundeza do mar’ significa ser lançado no inferno. Que isto seja proveitoso é porque conhecer os bens e veros e perverte-los é profanar. O que se entende pelo fato de
Moisés ter queimado o bezerro [de ouro] e tê-lo moído até ao pó, e ter espalhado sobre as faces da águas e ter feito com que os filhos de Israel bebessem (Êx. 32:20; Dt. 9:21),
vê-se explicado nos Arcanos Celestes (n. 10462-10466).
* * * * * * *
[4] Continuação
Dir-se-á agora alguma coisa a respeito da fala dos espíritos com o homem. Muitos creem que o homem possa ser ensinado pelo Senhor por meio de espíritos que falem com ele, mas os que creem nisso e querem isso não sabem que isso vem acompanhado do perigo de suas almas. Enquanto vive no mundo, o homem, quanto ao seu espírito está no meio de espíritos e, no entanto, os espíritos não sabem que estão com o homem, nem o homem sabe que está com os espíritos. A razão disso é que eles são conjuntos quanto às afeições da vontade imediatamente e, quanto aos pensamentos do entendimento, mediatamente; porque o homem pensa naturalmente, mas os espíritos pensam espiritualmente, e o pensamento natural e o pensamento espiritual não fazem um senão pelas correspondências, e fazer um pelas correspondências é um não saber coisa alguma a respeito do outro. Tão logo, porém, os espíritos começam a falar com o homem, eles passam de seu estado espiritual ao natural do homem, e então sabem que estão com o homem, e se conjuntam aos pensamentos de suas afeições e por eles falam com o homem. Eles não podem entrar de outra maneira, pois a afeição semelhante e o pensamento daí conjunge a todos, e a dessemelhante separa. Por isso é que o espírito que fala está nos mesmos princípios que o homem, sejam verdadeiros, sejam falsos, e também os excita e os confirma fortemente por sua afeição conjunta à afeição do homem. Daí é evidente que não há outros espíritos que falam com o homem senão os que são semelhantes a ele, ou operam manifestamente no homem, pois a operação manifesta coincide com a fala. Por isso é que não há outros espíritos que falam com os entusiastas9 que não os espíritos entusiastas, e não há outros espíritos que operam nos quacres10 senão espíritos quacres, e, nos morávios, espíritos morávios. Seria o mesmo com os arianos, socinianos e outros heréticos.
[5] Todos os espíritos que falam com o homem não são outros senão os que foram homens no mundo e, então, são os mesmos. Que seja assim, foi[-me] concedido saber por meio de experiências. E, o que é ridículo, quando o homem crê que o Espírito Santo fala com ele, ou opera nele, também o espírito crê que ele próprio é o Espírito Santo. Isto acontece comumente com os espíritos entusiastas. Por aí é evidente o perigo em que se acha o homem que fala com espíritos, ou que sente a operação manifesta deles. O homem desconhece a qualidade de sua afeição, se é boa ou má, e com que outros ela é conjunta; e, se estiver no orgulho da própria inteligência, o espírito favorece todo pensamento que procede daí, semelhantemente se alguém é a favor dos princípios acesos por algum fogo, o que acontece naqueles que estão nos veros por uma afeição genuína. Quando um espírito favorece os pensamento ou princípios do homem por uma afeição semelhante, então um conduz o outro, como um cego conduzindo outro cego, até ambos caírem na cova. As pitonisas foram assim outrora, e também os magos no Egito e em Babel, os quais, por causa da fala com espíritos e por causa da operação deles sentida manifestamente, foram chamados sábios. Mas desse modo o culto a Deus se converteu em culto aos demônios e a igreja pereceu. Eis porque essa comunicação foi proibida aos filhos de Israel, sob pena de morte.
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