Texto
. Como hoje se ignora o que se entende por "encantamentos", isso será dito em poucas palavras. Os "encantamentos" de que se trata aqui participam do oitavo preceito do Decálogo "Não dirás falso testemunho", já tendo os três outros "homicídios, prostituições e furtos" sido nomeados. Por "dizer falso testemunho", no sentido natural, é significado agir como falsa testemunha, mentir e difamar, e, no sentido espiritual, é significado confirmar e persuadir que o falso é verdadeiro e que o mal é o bem. Daí é evidente que praticar "encantamentos" significa incutir a falsidade e, assim, destruir a verdade.
Os encantamentos estiveram em uso entre os antigos e se faziam de três modos:
PRIMEIRO: Eles mantinham o ouvido e, assim, a mente de um outro em suas palavras e em seus discursos sem interrupção, sem nada relaxar deles, ao mesmo tempo aspirando e inspirando o pensamento unido com a afeição pelo sopro no som da linguagem, de modo que aquele que escutava não podia pensar em cousa alguma por si mesmo. Deste modo, os autores das falsidades introduziam suas falsidades violentamente.
SEGUNDO: Eles introduziam a persuasão, o que faziam desviando a mente de tudo o que era contrário e conservando-a fortemente na idéia única das coisas que eles diziam. Conseqüentemente, a esfera espiritual da mente de quem falava expulsava a esfera espiritual da mente daquele que escutava e a sufocava. Isso era a fascinação espiritual de que os magos se serviam outrora e isso se chamava encadear e ligar o entendimento. Esse gênero de encantamento pertencia somente ao espírito ou pensamento, mas o primeiro pertencia também à linguagem ou discurso.
TERCEIRO: Quem ouvia conservava a mente tão fixamente em sua opinião que quase tapava suas orelhas para nada ouvir de quem falava. Isso se fazia retendo o sopro da boca e, às vezes, por um fraco murmúrio e, assim, negando continuamente a opinião do adversário. Esse gênero de encantamento era praticado pelos que ouviam os outros, mas os dois primeiros eram praticados pelos que falavam aos outros.
Esses três gêneros de encantamentos existiam entre os antigos e ainda existem entre os espíritos infernais. No caso dos homens no mundo, entretanto, existe somente o' terceiro gênero entre aqueles que, pelo orgulho da própria inteligência, confirmaram neles as falsidades da religião. Com efeito, quando ouvem coisas que são contrárias, não as admitem em mero contacto com seu pensamento e, então, do recesso interior de suas mentes, lançam como um fogo que os consome, o que outra pessoa não percebe de forma alguma, a não ser por indícios da face e do tom da resposta, pois o encantador, por simulação, não lança tal fogo, isto é, a ira de seu orgulho. Esse encantamento faz com que hoje as verdades não sejam aceitas e não sejam compreendidas em grande número. Que nos tempos dos antigos tinha havido muitas artes mágicas, entre outras, os encantamentos, vê-se claramente em Moisés: "Quando vieres a essa terra, não aprenderás fazer segundo as abominações; não se achará entre ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem prognosticador de prestígio, adivinho, nem vaticinador, nem envenenador, nem encantador, nem quem consulte os mortos; porque todas essas coisas são abominação a Jehovah" (Deuteronômio 18; 9 a 12).
A persuasão da falsidade e, por conseguinte, a destruição da verdade são significadas pelos "encantamentos" nas seguintes passagens: "A tua sabedoria e a tua ciência, isso te seduziu; daí virá sobre ti um mal; persiste nos teus encantamentos e na multidão dos teus prestígios" (Isaías 47; 10 a 12); "Pelo encantamento de Babilônia foram seduzidas todas as nações" (Apocalipse 18; 23); "Fora estarão os cães, os encantadores, os escortadores, os homicidas" (Apocalipse 22; 15); "Jeorão disse a Jeú: É a paz? Ele disse: Que é a paz enquanto durarem as escortações de Isabel, tua mãe, e os seus muitos encantamentos?" (II Reis 9; 22).
Por suas "escortações" são significadas as falsificações (nº 134) e por seus "encantamentos" são significadas as destruições da verdade pelas persuasões da falsidade. Que, por outro lado, "encantamento" significa a rejeição das falsidades pelas verdades, o que também é feito pensando e resmungando segundo o zelo da verdade contra a falsidade, isso é evidente pelas seguintes passagens: "Jehovah afastará de Sião o forte, o homem de guerra, o conselheiro, o sábio em murmuração, o hábil em encantamento" (Isaías 3; 1 a 3); "O veneno deles é como o veneno da áspide surda, que tapa a orelha para não ouvir a voz dos murmuradores, do encantador perito em encantamentos" (Salmo 58; 4 e 5); "Eis Eu mando contra vós serpentes, basiliscos, contra os quais não há encantamento" (Jeremias 8; 17); "Na angustia procuraram-Te, clamaram em murmuração" (Isaías 26; 15).
MEMORÁVEL