Texto
. Ao que precede juntarei este MEMORÁVEL.
Foi-me concedido conversar com o Papa Sisto Quinto. Ele saía de uma sociedade do ocidente à esquerda. Disse-me que foi designado, como supremo moderador, para dirigir uma sociedade composta de católicos que excediam todos os outros em juízo e em atividade; e que se tornou seu supremo moderador porque, meio ano antes de sua morte, ele se convencera de que o vicariato era uma invenção destinada a dominar; e de que "Deus, o Senhor Salvador Só, é Aquele que deve ser adorado e receber culto", e, ainda, de que "a Escritura Santa é Divina e, assim, mais santa do que os decretos papais". Disse que ele tinha permanecido na fé desses dois pontos capitais da religião até o fim de sua vida.
Disse, também, que seus santos (dos católicos) nada são. Muito se admirou, quando lhe narrei que fora decretado em um sínodo e confirmado por uma bula que os santos deviam ser invocados.
Disse, ainda, que ele estava numa vida de atividade semelhante a que tivera no mundo e que todas as manhãs ele se propõe nove ou dez coisas que ele deseja terminar antes da noite.
Perguntei-lhe como em tão poucos anos ele acumulara o grande tesouro depositado no Castelo del Angelo. Respondeu que ele escrevera de próprio punho aos chefes de ricos mosteiros, para que lhe enviassem das suas riquezas tanto quanto quisessem, pois era para um uso santo, e, como o temiam, enviaram-lhe riquezas abundantes. E, como eu lhe informasse que esse tesouro ainda existia, ele disse: "Para que uso agora?"
No curso da conversa com ele, relatei-lhe que, desde seu tempo, o tesouro em Loreto tinha sido imensamente aumentado e enriquecido e que a mesma coisa acontecia com tesouros de certos monastérios, principalmente na Espanha, mas hoje em grau menor do que nos séculos precedentes. Acrescentei que eles guardam esses tesouros sem outro fim (uso) senão o de se alegrarem com sua posse. Quando lhe referi isso, disse-lhe também que eles, por conseguinte, eram como os deuses infernais que os antigos chamavam de Plutões. Quando mencionei Plutões, ele respondeu: "Silêncio. Eu sei.".
Disse-me, ainda, que, na sociedade a cuja frente ele está, não são admitidos senão aqueles que têm muito discernimento e que podem receber (a verdade) de que Só o Senhor é o Deus do céu e da terra e de que a Palavra é o Santo Divino. (Disse também) que, todos os dias, ele aperfeiçoa essa sociedade.
E disse que tinha falado com os chamados santos, mas que eles ficam insensatos quando ouvem e crêem que eles são santos. Ele chamou também de estúpidos os papas e cardeais que queriam ser adorados como o Cristo, ainda que não em pessoa, e que não reconhecem a Palavra como o próprio Santo Divino, segundo o qual se deve viver.
Ele expressou o desejo de que eu diga aos que hoje vivem que o Cristo é o Deus do céu e da terra e que a Palavra é o Santo Divino; que o Espírito Santo não fala pela boca de qualquer um, mas que Satanás quer ser adorado como Deus; que aqueles que não prestarem atenção a estas coisas, como os estúpidos, irão para os seus semelhantes e, depois de algum tempo, serão lançados no inferno ao encontro daqueles que vivem na fantasia de que são deuses, os quais não têm outra vida senão a vida das feras.
A isso, eu lhe disse: "Talvez estas coisas sejam muito duras para que eu as escreva." Mas ele retrucou: "Escreve, eu as subscreverei, porque são verdadeiras."
Então ele me deixou e seguiu para a sua sociedade. Subscreveu um exemplar e o transmitiu como bula às outras sociedades ligadas à mesma religião.