BREVE ANÁLISE
Os chefes da igreja insistem em que o entendimento esteja submetido à obediência da fé. Ainda mais, eles dizem que a fé do desconhecido, que é uma fé cega ou noturna, é propriamente a fé. Esse é o primeiro paradoxo, pois a fé pertence à verdade e esta pertence à fé. E a verdade, para que pertença à fé, deve estar na luz e ser vista, pois de outro modo à falsidade pode ser crida.
Os paradoxos que provêm de uma tal fé são em grande número. Por exemplo: que Deus Pai gerou um Filho de toda eternidade; que o Espírito Santo procede de um e de outro, e que cada um é uma Pessoa por si mesmo, e é Deus; que o Senhor, tanto quanto a alma como quanto ao corpo, saiu de uma mãe; que essas três Pessoas, assim esses três Deuses, criaram o universo; que um deles desceu e tomou o Humano, para reconciliar os homens com o Pai, e assim para os salvar; que há salvação pela imputação, aplicação e translação da justiça do Filho nos que pela graça adquirem a fé e crêem em tais paradoxos; que o homem na primeira recepção dessa fé, é como uma estátua, um tronco de árvore ou uma pedra, e que a fé influi somente pela audição da Palavra; que é a fé só que dá a salvação sem as obras da Lei, e sem ter sido formada pela caridade; que ela opera a remissão dos pecados, sem ter sido precedida da penitência; que por essa única remissão dos pecados, o impenitente é justificado, regenerado e santificado, e que depois a caridade, as boas obras e o arrependimento seguem por si mesmos; além de muitos paradoxos semelhantes. Todos esses paradoxos provêm da doutrina fundada sobre a idéia de três Deuses, como a prole que é propagada por uma união ilegítima.
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