CL &79

O Amor Conjugal
Emanuel Swedenborg
As Delicias da Sabedoria sobre o Amor Conjugal e as Volupias da Loucura sobre o Amor Escortatório

- Quinto Memorável. 0 Anjo que tinha sido meu guia e meu companheiro nas moradas dos Antigos que tinham vivido nos quatro Séculos, do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro, veio de novo e me disse: "Queres ver qual foi, e qual é ainda, o Século que sucedeu a estes quatro Séculos antigos? Segue-me e tu verás. São aqueles sobre quem Daniel profetizou nestes termos: "Elevar-se-á um Reino, depois destes quatro, no qual o Ferro será misturado com a Argila dó oleiro; eles se misturarão por semente de homem, mas não terão coerência um com o outro, do mesmo modo que o ferro não se mistura com a argila. (Daniel 11, 41, 42, 43). E ele disse: "Pela semente de homem pela qual o ferro será misturado com a argila, sem entretanto ter coerência, é entendido o vero da Palavra falsificado". Depois que disse essas palavras, eu o segui; e, no caminho, ele me contou estas particularidades: "Estes habitam nos confins entre o Sul e o Ocidente, mas a uma grande distância por trás daqueles que viveram nas quatro Idades precedentes, e também a uma maior profundidade". E avançamos pelo Sul para a região que toca o Ocidente, e atravessamos uma Floresta medonha; pois havia lá Pântanos de onde Crocodilos elevavam as cabeças, e dirigiam para nós suas vastas guelas armadas de dentes; e, entre os pântanos, havia Cães terríveis, dos quais alguns tinham três cabeças como Cérbero, outros duas cabeças, todos nos olhavam com uma horrível guela e olhos ameaçadores, em quanto passávamos. Entramos no país Ocidental desta região, e vimos Dragões e Leopardos, tais como são descritos no Apocalipse (Cap. XII, 3; XIII, 2); e o Anjo me disse: "Todas estas bestas ferozes, que vistes, não são bestas ferozes; mas são correspondências e assim formas representativas das cobiças, em que estão os Habitantes que vamos visitar; as cobiças mesmas são representadas por esses horríveis cães; as suas velhacarias e suas astúcias, pelos crocodilos; as suas falsidades e suas inclinações depravadas pelas cousas que pertencem a seu culto, pelos dragões e pelos leopardos; mas os Habitantes representados aqui moram não imediatamente perto da Floresta, mas além de um grande Deserto, que é intermediário, a fim de que sejam plenamente afastados e separados dos Habitantes das Idades precedentes; pois eles lhes são absolutamente estranhos, ou diferem deles totalmente: eles têm, é verdade, a cabeça acima do peito, o peito acima dos lombos, e os lombos acima dos pés, como os homens das primeiras idades, entretanto em sua cabeça não há cousa alguma de ouro, em seu peito coisa alguma de prata, em seus lombos coisa alguma de bronze, e mesmo nos pés cousa alguma do ferro puro; mas em sua cabeça há ferro misturado com argila, em seu peito ferro e argila misturados com bronze, em seus lombos ferro e argila misturados com prata, e em seus pés ferro e argila misturados com ouro; por esta inversão, de homens foram mudadas em esculturas de homens, nas quais não há interiormente cousa alguma coerente; pois o que era o, supremo tornou-se o ínfimo, assim o que era a cabeça tornou-se o calcanhar, e vice-versa; eles nos aparecem do Céu semelhantes a histriões que se põem sobre os cotovelos com o corpo invertido, e andam; ou como bestas que se deitam sobre o dorso e levantam os pés para o ar, e com a cabeça, que eles escondem na terra, olham o Céu". Atravessamos a floresta, e entramos no, Deserto, que não era menos assustador; consistia em montões de pedras, entrecortados de fossos, de onde se lançavam hidras e víboras, e de onde partiam serpentes voadoras; todo este deserto ia continuamente se abaixando; e nós descemos por uma longa rampa, e enfim nos vimos em um Vale habitado pelo povo desta região e desta idade; havia aqui e ali cabanas que por fim apareceram aproximadas e juntas formando uma cidade; entramos aí e eis que as casas eram construídas de galhos de árvores queimados em volta, e ligados com barro; eram cobertos com ardósias negras; as ruas eram irregulares, muito estreitas no começo, mas alargando-se para diante, e espaçosas no fim, onde havia praças públicas, daí, tantas as ruas quantas as praças públicas. Quando entramos na cidade, se fez espessa treva, porque o Céu não aparecia; por isso olhamos para cima, e a luz nos foi dada, e vimos; e então perguntei aos que encontrava: "Será que podeis ver, visto como o céu acima de vós não aparece?" E eles responderam: "Que pergunta fazes tu? Nós vemos claramente, caminhamos em plena luz". 0 Anjo, tendo ouvido esta resposta, me disse: "As trevas são para eles a luz, e a luz é para eles a treva; é como para os pássaros noturnos, pois eles olham para baixo e não para cima. Entramos aqui e ali nas cabanas, e vimos em cada uma um homem com sua mulher, e perguntamos se, nesta cidade todos viviam em suas casas com uma única esposa; e eles responderam com um assobio: "0 que! Com uma única esposa; Por que não perguntais se é com uma única cortesã? 0 que é uma esposa; senão uma cortesã? Segundo nossas leis não nos é permitido viver com várias mulheres, mas unicamente com uma; entretanto, não é para nós uma desonra, nem uma indecência viver com várias, mas fora de casa; fazemos glória disso entre nós; assim gozamos, da licença, e da volúpia que ela produz, mais do que os polígamos; por que a pluralidade das esposas nos foi recusada, quando entretanto foi concedida, e o é ainda hoje, em todas as regiões do globo em torno de nós? 0 que é a vida com uma única esposa senão um cativeiro e uma prisão? Mas nós, aqui, quebramos os ferrolhos desta prisão, e nos libertamos da servidão, e recuperamos nossa liberdade; quem pode se irritar contra um prisioneiro que se escapa quando pode?". Nós lhe respondemos: "Tu falas amigo, como alguém que não tem religião; há alguém, dotado de alguma razão, que não saiba que os adultérios são profanos e infernais, e que os casamentos são santos e celestes? Não estão os adultérios entre os diabos no inferno, e os casamentos entre os Anjos no Céu? Não leste o sexto preceito do Decálogo, e, em Paulo, que os que são adúlteros não podem de maneira alguma ir para o Céu?" A essas palavras, o nosso hóspede se pos a rir desbragadamente, e me considerou como um homem simples e quase como um insensato. Mas no mesmo instante acorreu um enviado do chefe da cidade e disse: "Leva os dois estrangeiros à praça pública, e se não quiserem ir, arrasta-os para lá nós os vimos na sombra da luz; eles entraram secretamente; são espiões". E o Anjo disse: "Se fomos vistos na sombra é porque a luz do Céu, em que estamos, é para eles a sombra, e a sombra do inferno é para eles a luz; e isso tem lugar porque eles não consideram cousa alguma como pecado, nem mesmo o adultério; e por conseguinte eles vêem o falso absolutamente como vero, e o falso brilha no inferno diante dos satãs, em quanto que o vero obscurece seus olhos como a sombra da noite". E dissemos ao enviado: "Não é necessário nos constranger, e ainda menos nos arrastar à praça pública; mas iremos de bom grado contigo". E fomos. E eis que havia uma multidão numerosa, donde saíram alguns legistas, que nos disseram ao ouvido: "Guardai-vos bem de dizer alguma cousa contra a Religião, a forma de Governo e os bons Costumes". E respondemos: "Nada diremos contra eles, mas falaremos a favor deles e segundo eles". E fizemos esta pergunta: "Qual é a vossa Religião a respeito do Casamento?". A essas palavras a multidão murmurou e disse: "Que tendes que fazer aqui com os Casamentos? Os casamentos são casamentos". E fizemos esta outra pergunta: "Qual é a vossa Religião a respeito das Escortações?" A multidão murmurou ainda dizendo: "Que tendes que fazer aqui com as escortações? As escortações são escortações; quem estiver inocente delas que atire a primeira pedra". E fizemos uma terceira pergunta: "A vossa Religião não ensina, a respeito dos casamentos, que eles são santos e celestes, e a respeito dos adultérios que eles são profanos e infernais? A estas palavras, alguns da multidão desataram a rir; zombaram e gracejaram, dizendo: "Dirigi-vos, para as cousas da religião aos nossos Sacerdotes, e não a nós; nós concordamos plenamente com tudo que eles nos dizem, porque cousa alguma da religião é da alçada do entendimento; não tendes ouvido dizer que a respeito dos mistérios, de que se compõe toda Religião, o entendimento desarrazoa? E o que tem as Ações de comum com a Religião? Não é murmurando com um coração devoto palavras sobre a expiação, a satisfação e a imputação, que as almas são beatificadas, e não pelas Obras?" Mas então se aproximaram alguns dos pretensos sábios da cidade, e disseram: "Retirai-vos daqui, a multidão se esquenta, o tumulto está eminente; conversemos a sós sobre este assunto; há um passeio por trás do Palácio, retiremo-nos para lá; vinde conosco". E nós os seguimos. E então nos perguntaram quem nós éramos, e que negócio nos tinha levado ao meio deles. E nós dissemos: "Viemos para ser instruídos a respeito dos Casamentos, se entre vós, como entre os Antigos que viveram nos Séculos de Ouro, de Prata e de Bronze, são cousas santas, ou se não o são". E eles responderam: "0 que! cousas santas! não são eles obras da carne e da noite?" E nós respondemos: "Não são eles também obras do espírito? E o que a carne faz segundo o espírito, não é espiritual? E tudo que faz o espírito, ele o faz segundo o casamento do bem e do vero; não é esse Casamento espiritual que entra no Casamento natural, isto é, de um Marido e de uma Esposa?" A isso os pretensos sábios responderam: "Vós tratais este assunto com sutileza e demasiada sublimidade, passais acima dos racionais para os espirituais; quem pode começar a uma tal elevação, descer de lá e assim tomar alguma decisão? "Depois, zombando, acrescentaram: "Talvez tenhais azas de águia, e podeis voar na suprema região do Céu, e aí fazer tais descobertas? quanto a nós, não o podemos". E então nós lhes pedimos para dizer do alto ou da região em que voavam as idéias aladas de suas mentes, se sabiam ou podiam saber, que existe um Amor Conjugal de um único marido com uma única esposa, no qual foram reunidas todas as beatitudes, todos os prazeres, todos os encantos, e todas as volúpias do Céu; e que este amor vem do Senhor segundo a recepção do bem e do vero procedente d'Ele, assim segundo o estado da Igreja". Ouvindo estas palavras, eles se desviaram e disseram: "Estes homens são loucos, entram no éter com seu julgamento, e fazendo vãs conjecturas espalham disputas". Em seguida se voltaram para nós, e disseram: "Responderemos diretamente às vossas conjecturas empoladas e aos vossos sonhos". E disseram: "0 que é que o Amor conjugal tem de comum com a Religião e com a inspiração vinda de Deus? Este amor não está em cada um segundo o estado de sua potência? Não está ele igualmente nos que estão fora da Igreja, como nos que estão na Igreja; entre os gentios como entre os Cristãos; e mesmos entre os ímpios como entre os piedosos? A força deste amor não está em cada um segundo o hereditário, ou segundo a saúde, ou segundo a temperança da vida, ou segundo o calor do clima? Não pode ela também ser aumentada e estimulada por drogas? Não há a mesma cousa nas bestas, sobretudo nos pássaros que se amam por par? Não é este amor carnal? 0 que é que o carnal tem de comum com o estado espiritual da Igreja? Será que este amor, quanto ao último efeito com a esposa, difere na menor cousa do amor quanto a esse efeito com uma cortesã? 0 prazer não é semelhante, e a delícia semelhante? É portanto injurioso tirar das cousas santas da Igreja a origem do amor conjugal". Depois de ter ouvido estas palavras, nós lhes dissemos: "Vós raciocinais por um delírio de lascividade, e não pelo amor conjugal; vós não sabeis absolutamente o que é o Amor conjugal, porque este amor em vós é frio; por vossas palavras, estamos convencidos de que sois do Século que é chamado e se compõe de ferro e de argila, os quais não tem coerência, segundo a predição de Daniel, (II, 43); pois fazeis um do Amor conjugal e do amor escortatório; será que os dois têm mais coerência do que o ferro e a argila? Acreditam que sois sábios e vos chamam de sábios, entretanto vós nada sois menos do que sábios". A estas palavras, arrebatados de cólera, eles gritaram e chamaram a multidão para nos expulsar, mas então, pelo poder que nos foi dado pelo Senhor, nós estendemos as mãos, e eis que serpentes voadoras, víboras e hidras, e também dragões do deserto, se apresentaram, e invadiram e encheram a cidade, o que lançou o terror entre os habitantes que fugiram; e o Anjo me disse: "Nesta Região chegam cada dia recém-vindos da Terra, e de tempos em tempos os que os precederam são relegados e precipitados nos abismos do Ocidente, que de longe aparecem como Pântanos de fogo e de enxofre; todos lá, são adúlteros espirituais, e adúlteros naturais".

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