CL &78

O Amor Conjugal
Emanuel Swedenborg
As Delicias da Sabedoria sobre o Amor Conjugal e as Volupias da Loucura sobre o Amor Escortatório

- Quarto Memorável: Dois dias depois, o Anjo me falou de novo, dizendo: "Acabemos o Período das Idades; nos resta a última Idade, que tem o nome do Ferro. 0 povo desta Idade, mora no Setentrião sobre o lado do Ocidente dentro dele ou em largura; todos eles são antigos habitantes da Ásia, que possuíam a Antiga Palavra, e tinham tirado dela seu culto; por conseqüência antes da vinda do Senhor ao Mundo; isso é evidente pelos Escritos dos Antigos, nos quais estes tempos são, assim mencionados. Estas mesmas Idades são entendidas pela estátua, que Nabuchadnessor viu em sonho, "cuja Cabeça era de Ouro, o Peito e os Braços, de Prata; o Ventre e as Coxas, de Bronze; as Pernas de Ferro; e os Pés, de Ferro e também de Argila". (Daniel 11, 32 e 33). 0 Anjo me referiu estas particularidades no caminho, que era encurtado e antecipado pelas mudanças de estado introduzidos em nossos mentais segundo os gênios dos habitantes para o meio dos quais nós passávamos; pois os espaços e por conseguinte as distâncias, no Mundo espiritual, são aparências segundo os estados dos mentais. Quando levantamos os olhos, eis que estávamos em uma Floresta de faias, de castanheiros e de carvalhos; e quando olhamos em torno de nós, vimos Ursos à esquerda e Leopardos à direita; como me admirasse, o Anjo disse: "Não são ursos nem leopardos, mas são homens que guardam estes Habitantes do Setentrião; eles apreendem pelo cheiro as esferas de vida daqueles que passam, e se lançam contra todos que são Espirituais, porque os Habitantes são naturais; aqueles que lêem apenas a Palavra, e dela nada tiram da doutrina, aparecem de longe como Ursos, e os que depois confirmam os falsos aparecem como Leopardos". Mas estes, nos tendo visto, se afastaram, e nós passamos. Depois da Floresta se apresentaram Charnecas, e em seguida Campos de grama divididos por tábuas e bordados de luxo; depois destes campos, a terra se abaixava obliquamente em um vale, onde havia cidades e aldeias; passamos algumas e entramos em uma grande; as ruas eram irregulares; as casas igualmente; estas eram construídas, de tijolos entremeados de barrotes, e cobertos com uma argamassa; nas Praças públicas havia Templos de pedra calcárea talhada, cuja construção inferior estava sob a terra, e a construção superior acima da terra; descemos em um destes templos por três degraus, e vimos em torno nas paredes ídolos de diversas formas, e a multidão que os adorava de joelhos; no meio estava o Coro, donde se oferecia à vista a cabeça do Deus tutelar desta cidade. Ao sair o Anjo me disse, que entre os Antigos, que tinham vivido no século da Prata, de que se falou acima, estes ídolos tinham sido as imagens representativas de Verdades espirituais e de Virtudes morais; e que, quando a Ciência das Correspondências apagou-se da memória e se extinguiu, estas imagens se tornaram a princípio objetos de culto, e foram em seguida adoradas como Deidades; daí as Idolatrias. Quando estávamos fora do Templo, examinamos os homens e suas roupas; tinham a face como de aço, de cor acinzentada; e estavam vestidos como comediantes, tendo em torno dos rins manteletes que pendiam de uma túnica fechada no peito, e na cabeça traziam bonés anelados de marinheiros. Mas o Anjo disse: "É bastante; instruamo-nos sobre os Casamentos dos povos desta Idade". E entramos na casa de um Magnata, que tinha na cabeça um boné em forma de torre; recebeu-nos polidamente, e disse: "Entrai e conversaremos". Entramos no Vestíbulo, e aí nos sentamos; e lhe fiz perguntas sobre os Casamentos desta cidade e da região; e ele disse: "Nós vivemos não com uma única esposa, mas uns com duas ou três, e os outros com maior número; e isso, porque a variedade, a obediência e a honra, como marca de Majestade, nos agradam; e nós as obtemos de nossas esposas, quando temos várias; com uma só não teríamos o prazer da variedade, mas o tédio da identidade; nem a satisfação de ser obedecidos, mas o desgosto da igualdade; nem o encanto da dominação e da honra que dela resulta, mas o tormento de querelas pela superioridade; e o que é a mulher? Não, nasceu ela para ser submissa à vontade do homem; e também para servir e não para dominar? Aqui portanto, cada Marido em sua casa goza. como que de uma majestade real; isso, estando conforme com o nosso amor, faz também a felicidade de nossa vida". Mas eu lhe fiz essa pergunta: "Onde está então o amor conjugal, que de duas almas faz uma, e que conjunta as mentes e torna o homem feliz? Este Amor não pode ser dividido; se é dividido torna-se em ardor que faz efervescência e passa". A isto ele replicou: "Não compreendo o que dizes; há outra coisa que torna o homem feliz que não seja a emulação das esposas pela honra da proeminência junto de seu marido". Depois de ter pronunciado estas palavras, o homem entrou no Apartamento das mulheres e abriu os dois batentes da porta; mas saiu de lá uma exalação libidinosa que tinha um cheiro de lodo; isso provinha do amor poligâmico, que é conubial e ao mesmo tempo escortatório; por isso me levantei e fechei os batentes da porta. Em seguida disse: "Como podeis subsistir sobre esta terra, pois que não tendes nenhum amor verdadeiramente conjugal, e também uma vez que adorais ídolos?" Ele respondeu: "Quanto ao Amor conubial, nós temos por nossas esposas um ciúme tão violento, que não permitimos a quem quer que seja entrar em nossas casas além do vestíbulo, e uma vez que há ciúme há também amor; quanto aos ídolos, nós não os adoramos; mas não podemos pensar no Deus do Universo senão por imagens oferecidas aos nossos olhos, pois não podemos elevar os nossos pensamentos acima dos sensuais do corpo, nem a respeito de Deus acima das cousas visíveis". Então fiz ainda uma pergunta: "Os vossos ídolos não são de diversas formas? como podem .elas apresentar à vista um único Deus?" Ele respondeu: "Isso é um mistério para nós; há escondido em cada forma alguma cousa do culto de Deus". E, eu disse: "Vós sois puramente sensuais - corporais; não tendes nem o amor de Deus, nem um amor da mulher, que tenha alguma cousa de espiritual; e estes amores formam em conjunto o homem, e de sensual o fazem celeste". Quando acabei de dizer isso apareceu através da porta como um relâmpago; e eu perguntei: "0 que é isso?" Ele disse: "Um tal relâmpago é para nós um sinal que vai chegar do Oriente um Ancião, que nos ensina, a respeito de Deus, que Ele é Um, o único Onipotente, que é o Primeiro e o último; ele nos adverte também para não adorarmos os ídolos, mas encará-los somente como imagens representativas de virtudes procedentes de um único Deus, os quais formam juntos seu culto; este Ancião é nosso Anjo, que reverenciamos, e ao qual obedecemos; ele vem a nós, e nos reergue, quando caímos em um tenebroso culto de Deus segundo a fantasia concernente às imagens! Depois de ter ouvido estas cousas, salmos da casa e da cidade; e no caminho, segundo o que tínhamos visto nos Céus, tiramos conclusões sobre o Circulo e a Progressão do Amor Conjugal; sobre o circulo, que ele tinha passado do Oriente ao Sul, e do Sul ao Ocidente, e daí ao Setentrião; sobre a Progressão que ele tinha declinado segundo a Circulação, a saber, que no Oriente, tinha sido celeste, no Sul, espiritual, no Ocidente, natural; e no Setentrião, sensual; e também, que ele tinha declinado no mesmo grau que o amor e o culto de Deus. Daí foi além disso concluído, que este Amor na Primeira Idade tinha sido como o Ouro, na Segunda como a Prata, na Terceira como o Bronze, e na Quarta como o Ferro, e que enfim tinha cessado: e então o Anjo, meu guia e meu companheiro, disse: "Entretanto concebo a esperança de que este Amor será ressuscitado pelo Deus do Céus, que é o Senhor, porque ele pode ser ressuscitado.

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