DIVPROV &73

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

. (i.) O homem tem a razão e o livre, ou a racionalidade e a liberdade, e essas duas faculdades são do Senhor no homem. No tratado Divino Amor e Divina Sabedoria (n° 264-270 e 425) e também acima (n° 43 e 44) mostrou-se que o homem tem a faculdade de entender, que é a racionalidade, e a faculdade de pensar, querer, falar e fazer aquilo que entende, que é a liberdade, e que essas duas faculdades são do Senhor no homem. Como, porém, podem surgir muitas dúvidas sobre uma e outra faculdades quando se pensa nelas, quero neste começo expor somente alguma coisa sobre o livre do homem de agir segundo a razão.
[2] Cumpre, porém, antes de tudo, saber que todo livre pertence ao amor, de tal modo que o amor e o livre são um só; e como o amor é a vida do homem, o livre é também de sua vida, porque todo prazer do homem vem de seu amor; não existe prazer algum de outra origem, e agir pelo prazer do amor é agir pelo livre, pois o prazer conduz o homem assim como um rio conduz o que nele é levado em sua correnteza. Ora, visto que existem muitos amores, alguns concordantes e outros discordantes, segue-se que existem, do mesmo modo, muitos livres. Em geral, porém, existem três livres: o natural, o racional e o espiritual.
[3] O livre natural existe em cada homem pela hereditariedade; por ele o homem ama somente a si mesmo e ao mundo; sua primeira vida não é outra coisa. E como todos os males existem por esses dois amores, e daí os males também se tornam do amor, segue-se que pensar e querer os males é o seu livre natural. E quando ele os confirma em si mesmo pelos raciocínios, age pelo livre segundo sua razão. Fazer isso é fazê-lo por sua faculdade que se chama liberdade, e confirmar isso é fazê-lo por sua faculdade que se chama racionalidade.
[4] Por exemplo: pelo o amor em que nasce é que ele quer adulterar, fraudar, blasfemar e fazer vingança; quando confirma em si os males e por isso os considera lícitos, então pensa neles e os deseja livremente pelo prazer do amor deles como segundo a razão, e quanto mais as leis civis não o restringem, mais os quer e faz. É da Divina Providência que ao homem seja permitido assim agir, porque tem o livre ou a liberdade. Nesse livre o homem está por natureza, pois está pela hereditariedade, e nesse livre estão aqueles que o confirmaram em si pelo prazer dos amores de si e do mundo, por meio dos raciocínios.
[5] O livre racional é proveniente do amor da reputação por causa da honra ou lucro. O prazer desse amor é apresentar-se na forma externa como um homem moral; e como ama essa reputação, não defrauda, não adultera, não comete vingança e não blasfema; e como faz essas coisas por sua razão, também pelo livre segundo a sua razão age de modo sincero, justo, casto e amigável, podendo mesmo falar bem em favor disso, pela razão. Se, porém, o seu racional é somente natural e não ao mesmo tempo espiritual, o livre é somente um livre externo, mas não um livre interno, porque, no entanto, não ama interiormente esses bens, mas apenas exteriormente por causa da reputação, como se disse. Por isso os bens que faz não são bens em si. Pode até dizer que devem ser feitos por causa do bem público, mas não diz isso pelo amor ao bem público, mas pelo amor de sua honra ou seu ganho. Por este motivo, seu livre nada tem do amor ao bem público nem da razão, porque esta dá assentimento ao amor. Por conseguinte, esse livre racional é, interiormente, um livre natural. Esse livre também é consentido a qualquer um pela Divina Providência do Senhor.
[6] O livre espiritual vem do amor da vida eterna. A esse amor e ao seu prazer não vem outro senão aquele que pensa que os males são pecados e, por isso, não os quer, enquanto visa ao mesmo tempo o Senhor. Tão logo o homem faz isso, está nesse livre, pois ninguém pode deixar de querer os males por serem pecados e, assim, deixar de fazê-los, a não ser pelo livre interior ou superior, que é do seu amor interior ou superior. Esse livre não se mostra, a princípio, como livre, ainda que o seja; mas em seguida se mostra assim; e então o homem age pelo livre mesmo segundo a razão mesma, pensando, querendo e fazendo o bem e o vero. Esse livre aumenta conforme o livre natural diminui, torna-se servo e conjunta-se ao livre racional, o que o purifica.
[7] Qualquer um pode chegar a esse livre se tão somente pensar que há uma vida eterna e que o prazer e a beatitude da vida no tempo e para os tempos não são mais do que uma sombra que passa, comparados aos prazeres e à bem-aventurança da vida na eternidade e para a eternidade. Isso o homem pode pensar, se o deseja, porque tem racionalidade e liberdade, e porque o Senhor, de Quem essas duas faculdades procedem, concede continuamente que ele o possa fazer.

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