. Qualquer um, pela racionalidade não obstruída, pode ver ou compreender que o homem não pode estar em afeição alguma de saber, nem em afeição alguma de entender, sem a aparência de que isso é seu, pois todo prazer e desejo, assim, toda vontade, provém da afeição que é do amor. Quem pode querer saber alguma coisa e querer entender, se não tem algum desejo da afeição? E quem pode ter esse desejo da afeição se aquilo que o afeta não parece como se fosse seu? Se nada fosse seu, mas tudo fosse de um outro, isto é, se alguém por suas afeições incutisse algo na mente de outro que não tivesse por si afeição alguma de saber e de entender como se isso viesse dele mesmo, isso não seria recebido, e como poderia receber? Não seria como aquele que é chamado bruto e estúpido? Por aí se pode ver claramente que, ainda que influam todas as coisas que o homem percebe e, assim, pensa e sabe, e, segundo a percepção, quer e faz, não obstante é da Providência Divina do Senhor que isso pareça como se vindo do homem, pois, como foi dito, de outra maneira o homem nada receberia; por conseguinte, a inteligência e a sabedoria não lhe poderiam ser dadas. Sabe-se que todo bem e todo vero não pertencem ao homem, mas ao Senhor; e, todavia, parecem ao homem como se fossem seus; e como todo bem e todo vero assim parecem, também assim parecem todas as coisas da igreja e do céu, por conseguinte, todas as coisas do amor e da sabedoria, bem como da caridade e da fé; e, todavia, nada disso pertence ao homem. Ninguém pode receber essas coisas do Senhor se elas não parecerem e não forem percebidas como provenientes de si. Por aí se pode ver a verdade deste ponto, a saber, que tudo o que o homem faz pelo livre, quer seja da razão ou não, contanto que seja segundo a sua razão, parece-lhe como sendo seu.
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