. (iv.) Os males no homem externo não podem ser afastados pelo Senhor a não ser por intermédio do homem. Em todas as igrejas cristãs se aceita a doutrina de que homem, antes de se aproximar da santa comunhão, se examine, veja e reconheça seus pecados e pratique a penitência, desistindo dos males e rejeitando-os porque vêm do diabo; e que, de outro modo, os pecados não lhe são perdoados e ele está condenado. Os ingleses, ainda que estejam na doutrina da fé só, ensinam abertamente, todavia, na oração para a santa comunhão, o exame, o reconhecimento, a confissão dos pecados, a penitência e a renovação de vida, e advertem nesses termos os que não os fazem: que o diabo entrará neles assim como em Judas, os encherá de toda iniqüidade e os destruirá quanto ao corpo e à alma. Os alemães, os suecos e os dinamarqueses, que também estão na doutrina da fé só, na oração para a santa comunhão ensinam coisas semelhantes, advertindo também que, de outro modo, os crentes estarão sujeitos às penas dos infernais e à danação eterna, por causa da mistura do que é santo com o que é profano. Essas coisas são pronunciadas em alta voz pelo sacerdote diante dos que devem tomar a Santa Ceia e são por eles ouvidas com o reconhecimento de que assim são.
[2] Entretanto, as mesmas pessoas, quando ouvem no mesmo dia a pregação sobre a fé só e, então, que a lei não os condena, porque o Senhor já a cumpriu por eles, e que não podem por si mesmos fazer nenhum bem senão o meritório, e, assim, que as obras nada têm em si de salvação, mas a fé só, voltam para casa com pleno esquecimento da confissão anterior e com a rejeição dela, quando pensam pela pregação da fé só. O que é, então, a verdade: isso ou aquilo? Não podem ser verdadeiras duas coisas que são contrárias, como que sem o exame, o conhecimento, o reconhecimento, a confissão e a rejeição dos pecados, assim, sem penitência, não existe remissão deles, portanto, não existe salvação, mas a condenação eterna; ou que tais coisas nada fazem para a salvação, porque se fez a satisfação plenária por todos os pecados dos homens pelo Senhor por meio da paixão da cruz, para aqueles que estão na fé, e que estão sem pecados aqueles que estão na fé só com a confiança de que isso é assim e na confiança da imputação do mérito do Senhor, pelo que aparecem diante de Deus como aquele cuja face está lavada e brilhante. Por aí é evidente que é comum à religião de todas as igrejas no mundo cristão que o homem deve se examinar, ver e reconhecer seus pecados e, em seguida, desistir deles, e que de outro modo não há salvação, mas condenação. Que esta seja também a Divina verdade mesma, vê-se pelas passagens na Palavra em que se manda o homem praticar penitência, como nestas:
Jesus disse: "Dai... frutos dignos de penitência... já... está posto o machado à raiz da árvore; toda ... árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo" (Lc. 3:8, 9).
Jesus disse: "Se não fizeres penitência, todos... perecereis" (Lc. 13:3, 5).
Jesus pregou o "evangelho do reino de Deus; ... fazei penitência e crede no evangelho" (Mc. 1:14, 15).
Jesus enviou os discípulos que, saindo, pregaram que "fizessem penitência" (Mc. 6:12).
Jesus disse aos apóstolos que importa pregar "a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações" (Lc. 24:47).
João pregou "o batismo da penitência na remissão dos pecados" (Mc. 1:4; Lc. 3:3).
Pensa nisso também por algum entendimento, e, se tens religião, verás que a penitência dos pecados é o caminho para o céu; que a fé separada da penitência não é fé; e que aqueles que não estão na fé por causa da impenitência estão no caminho para o inferno.
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