. O homem natural que não crê na Divina Providência pensa em si mesmo: "O que é a Divina Providência, quando os maus são elevados às honras e adquirem riquezas mais do que os bons, e muitas coisas semelhantes acontecem aos que não crêem na Divina Providência, mais do que aos que crêem? E, mesmo, que infiéis e ímpios podem provocar injúrias, danos e infortúnios, e às vezes morte aos fiéis e piedosos, e isso por astúcias e malícias". E assim pensa: "Acaso não vejo pela experiência, como na claridade do dia, que as maquinações dolosas prevalecem sobre a fidelidade e a justiça, se tão somente o homem, por engenhoso ardil, puder fazer com que pareçam coisas leais e justas? Que são as outras coisas senão necessidades, conseqüências e coisas fortuitas, nas quais nada aparece da Divina Providência? Não são as necessidades naturais, as conseqüências causas fluentes da ordem natural ou civil, e as fortuitas de causas que se ignoram ou de nenhuma causa?" Essas coisas pensa em si mesmo o homem natural que atribui todas as coisas à natureza e nada a Deus, pois quem nada atribui a Deus, tampouco atribui alguma coisa à Divina Providência, pois Deus e a Divina Providência fazem um.
[2] Mas de modo diferente diz ou pensa em si mesmo o homem espiritual. Esse, ainda que não perceba no pensamento nem sinta pela visão do olho, conhece e reconhece, contudo, a Divina Providência em sua progressão. Ora, como as aparências e por conseguinte as ilusões acima mencionadas cegaram o entendimento, e este só pode receber alguma visão se as falácias que induziram a cegueira e os falsos que induziram a escuridão forem dissipados, e como isso só pode ser feito por meio das verdades, que têm em si mesmas poder para dissipar os falsos, por isso elas precisam ser expostas; mas, para que o sejam distintamente, isso se fará na seguinte ordem:
(i.) Se o homem percebesse e sentisse a operação da Divina Providência, não agiria pelo livre segundo a razão nem coisa alguma lhe pareceria como vinda dele. Seria do mesmo modo se ele previsse os eventos.
(ii.) Se o homem visse manifestamente a Divina Providência, interferiria na ordem e no curso de sua progressão, e os perverteria e destruiria.
(iii.) Se o homem visse manifestamente a Divina Providência, ou negaria a Deus ou far-se-ia um deus.
(iv.) É concedido ao homem ver a Divina Providência por trás e não pela face; também, num estado espiritual e não num estado natural.
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