. (i.) Se o homem percebesse e sentisse a operação da Divina Providência não agiria pelo livre segundo a razão nem coisa alguma lhe pareceria como vinda de si. Seria do mesmo modo se ele previsse os eventos. Mostrou-se acima, nos seus artigos específicos, para evidência do entendimento, que é uma lei da Divina Providência que o homem aja pelo livre segundo a razão, e também que tudo que o homem quer, pensa, fala e faz lhe pareça como vindo de si; e que sem essa aparência não haveria para homem algum o que é seu ou a sua individualidade [homo suus], por conseguinte, não teria um proprium e, assim, nenhuma imputação, sem a qual lhe seria indiferente fazer o mal ou o bem, ou ter a fé de Deus ou a persuasão do inferno; numa palavra, não seria homem.
[2] Agora se mostrará aqui que o homem não teria liberdade alguma para agir segundo a razão nem aparência alguma de que fosse como por si mesmo, se ele percebesse e sentisse a operação da Divina Providência, pois que, se a percebesse e sentisse, também seria conduzido por ela, pois o Senhor a todos conduz por Sua Divina Providência, e o homem não conduz a si mesmo a não ser aparentemente, como se mostrou acima. Por isso, se fosse conduzido com viva percepção e sensação, não seria consciente da vida e, assim, seria movido a ressoar e a agir quase como uma estátua. Se, pois, fosse consciente da vida, então não seria conduzido diferentemente de um acorrentado pelas mãos e pelos pés, ou de um animal de carga diante da carroça. Quem não vê que assim o homem não teria livre algum? E se não fosse livre, tampouco razão alguma teria, pois cada um pensa pelo livre e no livre, e tudo o que pensa não sendo no livre e pelo livre não lhe parece como vindo de si, mas de outrem. E mesmo, se examinares isso interiormente, perceberás que ele nem teria pensamento e muito menos razão, pelo que não seria homem.
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