. (ii.) Se o homem visse manifestamente a Divina Providência, interferiria na ordem e no curso de sua progressão, e os perverteria e destruiria. Para que isso chegue claramente à percepção racional e também natural do homem, deve ser ilustrado por meio de exemplos, nesta ordem: Primeiro: Os externos têm uma ligação tal com os internos que em toda operação fazem um só. Segundo: O homem está somente em alguns externos com o Senhor, e se estivesse ao mesmo tempos nos internos, perverteria e destruiria toda a ordem e o curso da progressão da Divina Providência. Mas, como se disse, isso será ilustrado por meio de exemplos.
[2] Primeiro: Que os externos tenham uma ligação tal com os internos que em toda operação façam um só. A ilustração por meio de exemplos aqui se faz por algumas coisas que estão no corpo humano. Em tudo e em toda parte existem externos e internos. Os externos ali se chamam peles, membranas e invólucros; os internos são formas variadamente compostas e tecidas de fibras nervosas e vasos sangüíneos. O invólucro que cerca entra por extensões em todas as coisas interiores até às íntimas. Assim, o externo, que é o invólucro, se conjunta a todos os internos, que são as formas orgânicas das fibras e dos vasos. Disso se segue que, assim como o externo age ou é posto em ação, também os internos agem ou são postos em ação, pois existe um enfeixamento perpétuo de todos.
[3] Toma somente algum invólucro comum no corpo, por exemplo, a pleura, que é o invólucro comum do peito ou do coração e pulmão, e examina-o com olho de anatomista, ou, se isso não for de teus estudos, consulta um anatomista, e ouvirás que esse invólucro comum, por meio de varias circunvoluções e, daí, por extensões de si mesmo cada vez mais tênues, entra nos íntimos dos pulmões, até às menores ramificações bronquiais e nos folículos mesmos, que são os começos dos pulmões, sem falar de sua progressão posterior, por meio da traquéia, na laringe em direção à língua. Pelo que é evidente que há uma conexão perpétua dos mais externos com os íntimos. Por isso, assim como o exterior age ou é posto em ação, assim também os interiores agem ou são postos em ação desde os íntimos. Esta é a razão pela qual, quando esse invólucro exterior, que é a pleura, é inundado ou inflamado, ou cheio de ulcerações, o pulmão se fadiga desde os íntimos; e, se a fadiga aumenta, toda a ação dos pulmões cessa e o homem morre.
[4] Dá-se o mesmo por toda parte em todo o corpo, por exemplo, no peritônio, o invólucro comum de todas as vísceras do abdômen, daí também com os invólucros em torno de cada uma delas, como o estômago, o fígado, o pâncreas, o baço, os intestinos, o mesentério, os rins, e também com cada órgão da geração de ambos os sexos. Toma algum destes e examina tu mesmo, e verás; ou consulta os peritos dessa ciência, e ouvirás. Toma, por exemplo, o fígado e nota que há conexão do peritônio com o invólucro dessa víscera e, pelo invólucro, com os seus íntimos, pois existem perpétuas extensões dali e inserções para os interiores, assim, continuações até os íntimos, por conseguinte, um enfeixamento de todas as coisas. Isto é assim a fim que, quando o invólucro agir ou for posto em ação, a forma toda aja igualmente e seja posta em ação. Dá-se o mesmo com as vísceras restantes. A razão disso é que, em toda forma, o comum e o particular, ou o universal e o singular, agem como um só, por uma admirável conjunção.
[5] Ver-se-á abaixo que nas formas espirituais e nas mudanças e variações de seus estados, que se referem às operações da vontade e do entendimento, acontece de modo semelhante que nas formas naturais e suas operações, que se referem aos movimentos e ações. Ora, visto que o homem está juntamente com o Senhor em algumas operações externas, e de ninguém é suprimida a liberdade de agir segundo a razão, segue-se que o Senhor só pode agir nos internos conforme o homem age juntamente nos externos. Por isso, se o homem não foge dos males como pecados e não os tem em aversão, o externo do pensamento e da vontade ficará viciado e enfraquecido ao mesmo tempo que os internos da vontade e do pensamento, por comparação com a pleura por sua moléstia que se chama pleurite, de que o corpo morre.
[6] Segundo: Se o homem estivesse ao mesmo tempos nos internos, perverteria e destruiria toda a ordem e o curso da Divina Providência. Isto também será ilustrado por exemplos do corpo humano. Se o homem conhecesse todas as operações de um e outro cérebros nas fibras, das fibras nos músculos, e dos músculos nas ações, e, pela ciência disso, dispusesse todas as coisas conforme dispõe as ações, não perverteria e destruiria todas as coisas?
[7] Se o homem soubesse de que maneira o estômago digere, as vísceras em torno absorvem sua porção, elaboram o sangue e o distribuem para todas as necessidades da vida, e tivesse a disposição delas como tem dos externos, para comer e beber, não destruiria todas as coisas? Como não pode dispor o externo, que parece ser uma só coisa, sem que o ponha a perder pela luxúria e pela intemperança, o que seria então se dispusesse os internos, que são infinitos? Por isso, a fim de que o homem não entre nos internos por qualquer vontade e os submeta ao seu controle, eles foram completamente excluídos de sua vontade, exceto no caso dos músculos, que fazem o revestimento, e mesmo assim o homem ignora de que maneira os músculos agem, sabendo somente que eles agem.
[8] Ocorre semelhantemente com tudo o mais: se o homem dispusesse os interiores do olho para ver, os interiores do ouvido para ouvir, os interiores da língua para sentir o paladar, os interiores da pele para sentir o tato, os interiores do coração para fazer a sístole, os interiores do pulmão para respirar, os interiores do mesentério para distribuir o quilo, os interiores dos rins para segregar, os interiores dos órgãos de geração para proliferar, os interiores do útero para aperfeiçoar o embrião, e assim por diante, não perverteria e destruiria nestes, por infinitos modos, a ordem da progressão da Divina Providência? Sabe-se que o homem está nos externos, pois vê pelo olho, ouve pelo ouvido, tem paladar pela língua, tem o tato pela pele, respira com o pulmão, a esposa engravida com o útero, e assim por diante. Não lhe basta conhecer os externos e dispô-los para a sanidade do corpo e da mente? Quando nem isso pode fazer, o que faria se também dispusesse os internos? Por aí se pode ver que se o homem visse manifestamente a Divina Providência, ele se imiscuiria na ordem e no curso de sua progressão e, assim, a perverteria e destruiria.
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