. (ii.) As afeições do amor da vida do homem são conhecidas pelo Senhor, somente. O homem conhece os seus pensamentos e, assim, as suas intenções, porque os vê em si; e como destes vem toda prudência, ele também a vê em si. Se, então, seu amor da vida é o amor de si, entra no orgulho da própria inteligência e atribui a si a prudência; então reúne argumentos em favor dela e se afasta do reconhecimento da Divina Providência. Acontece do mesmo modo se o amor do mundo é o amor da vida; entretanto, este não o afasta no mesmo grau. Por aí se vê que esses dois amores atribuem todas as coisas ao homem e à sua prudência humana, e, se examinados interiormente, nada a Deus e à Sua Providência. Por isso, quando porventura ouvem - o que é a verdade - que a prudência humana é nula e que é a Divina Providência, sozinha, que governa todas as coisas, riem disso, se forem inteiramente ateus; mas se retêm na memória alguma coisa da religião e se lhes diz que toda sabedoria pertence a Deus, a princípio até afirmam o que ouviram, entretanto o negam interiormente, em seu espírito. Esses são, principalmente, os sacerdotes que se amam mais do que a Deus, e ao mundo mais do que ao céu; ou, o que é o mesmo, que tinham adorado a Deus por causa das honras e do ganho, e mesmo tinham pregado que a caridade e a fé, todo bem e vero, portanto, toda sabedoria, até mesmo a prudência, são provenientes de Deus e não do homem.
[2] Certa vez ouvi no mundo espiritual dois sacerdotes disputando com um embaixador a respeito da prudência humana, se ela vinha de Deus ou do homem. A disputa era acalorada. Os três tinham de coração acreditado de modo semelhante, a saber, que a prudência humana faz todas as coisas e a Divina Providência nada faz. Mas os sacerdotes, que então se achavam no zelo teológico, diziam que nada da sabedoria e da prudência procede do homem, e quando o embaixador replicava que, assim, nem pensamento algum, diziam que nem isso. E como foi percebido pelos anjos que os três estavam em semelhante fé, disseram ao embaixador: "Veste-te com vestes de sacerdote e crê que és um sacerdote, e então fala". Ele se vestiu e creu, e então falou em alta voz que nada da sabedoria e da prudência pode jamais existir no homem, a não ser por Deus, defendendo isso com habitual eloqüência, cheia de argumentos racionais. Em seguida, disseram também aos dois sacerdotes: "Tirai as vestes e vesti-vos como ministros políticos, e crede que sois tais". Fizeram assim e ao mesmo tempo então pensaram e falaram pelos interiores, e falaram por argumentos que antes tinham interiormente favorecido em favor da prudência humana e contra a Divina Providência. Depois disso, os três, como tinham estado na mesma fé, tornaram-se amigos de coração e foram juntos pelo caminho da prudência própria, que dá para o inferno.
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