. O homem pode mesmo refletir sobre o prazer de suas afeições externas, quando esse prazer age com o prazer de algum sentido do corpo, mas não reflete que esse prazer vem do prazer de sua afeição no pensamento. Por exemplo: o devasso, quando vê uma meretriz, a vista de seu olho cintila pelo fogo da lascívia e por isto sente o prazer no corpo, mas, no entanto, não sente o prazer das afeições ou das suas concupiscências no pensamento, a não ser alguma cupidez unida ao corpo. Do mesmo modo é com um ladrão na floresta quando vê viajantes, o pirata no mar quando vê navios, assim como também acontece com outros. Que esses prazeres governem seus pensamentos, e que os pensamentos sem eles não sejam coisa alguma, é evidente; mas ele pensa que são somente pensamentos, quando, porém, os pensamentos não são mais que afeições compostas em formas do amor de sua vida, a fim de que apareçam na luz, pois toda afeição está no calor e o pensamento na luz.
[2] Estas são as afeições externas do pensamento, que até se manifestam nas sensações do corpo, mas raramente no pensamento da mente. Mas as afeições internas do pensamento, das quais as externas existem, nunca se manifestam diante do homem; a respeito delas o homem não tem mais noção do que alguém que, dormindo num carro, tem noção do caminho, ou mais do que alguém sente a rotação da terra. Ora, pois que o homem nada sabe das coisas que se passam nos interiores de sua mente - as quais são tão infinitas que não podem ser definidas em números, e todavia essas poucas coisas externas que chegam à vista do pensamento, são produzidas pelos interiores, e os interiores são governados pelo Senhor, somente, por meio de Sua Divina Providência, e essas poucas externas juntamente com o homem - de que maneira, pois, alguém pode dizer que sua própria prudência faz todas as coisas? Se visses somente uma única idéia do pensamento exposta, verias coisas mais extraordinárias do que a língua pode expressar.
[3] Que nos interiores da mente do homem haja coisas tão infinitas que não podem ser definidas em números, vê-se pelas coisas infinitas no corpo, das quais nada chega à vista e ao sentido senão somente a ação com muita simplicidade, para a qual, todavia, concorrem milhares de fibras motrizes ou musculares, milhares de fibras nervosas, milhares de vasos sangüíneos, milhares de coisas do pulmão, que cooperam em toda ação, milhares de coisas nos cérebros e na espinha dorsal; e muito mais ainda no homem espiritual, que é a mente humana, de que todas as coisas são formas de afeições e, daí, formas de percepções e de pensamentos. A alma, que dispõe os interiores, porventura não dispõe por eles também as ações? A alma do homem não é outra coisa senão o amor de sua vontade e, assim, o amor de seu entendimento. Qual é esse amor, tal é todo o homem; e se torna tal segundo a disposição nos externos, nos quais o homem está ao mesmo tempo com o Senhor. Por isso, se atribui todas as coisas a si mesmo e à natureza, a alma se torna amor de si. Mas se atribui todas as coisas ao Senhor, a alma se torna amor ao Senhor; este é o amor celeste e aquele é o amor infernal.
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