. Estas são as causas pelas quais existe essa enormidade. Mas, como elas estão na obscuridade por causa da ignorância a seu respeito, serão explicadas, para que se manifestem diante do entendimento. Primeiro: Tudo o que o homem pensa, diz e faz pela vontade lhe é apropriado e permanece, tanto o bem quanto o mal. Isso foi mostrado acima (n° 78-81). Com efeito, o homem tem uma memória externa ou natural e uma memória interna ou espiritual, na qual foram inscritas todas e cada uma das coisas que no mundo ele pensou, falou e fez pela vontade, e tantas e cada uma delas que não falta coisa alguma. Esta memória é o livro de sua vida que se abre após a morte e segundo o qual ele é julgado. A respeito dessa memória, na obra O Céu e o Inferno (n° 461-465) foram citadas muitas coisas pela experiência.
[2] Segundo: Mas o Senhor, por Sua Divina Providência, continuamente provê e dispõe que o mal seja por si mesmo e o bem por si mesmo, e possam assim ser separados. Todo homem está tanto no mal quanto no bem; no mal está por si mesmo e no bem pelo Senhor. O homem não pode viver a menos que esteja em um e outro, pois se estivesse somente em si mesmo e, assim, somente no mal, não teria vida alguma, e se estivesse somente no Senhor e, assim, somente no bem, tampouco teria vida alguma, pois o homem nessa vida estaria como que sufocado, continuamente ofegante, ou como um moribundo em agonia, e nessa vida se extinguiria, pois o mal sem algum bem é em si mesmo morto, pelo que todo homem está em um e outro. A diferença, porém, é que um está interiormente no Senhor e exteriormente como que em si, enquanto o outro está em si, mas exteriormente como que no Senhor; este está no mal e aquele está no bem, embora ambos estejam em um e outro. Que o mau também esteja em ambos é porque está no bem da vida civil e moral, e também, exteriormente, em algum bem da vida espiritual. Além disso, é mantido pelo Senhor na racionalidade e na liberdade, para que possa estar no bem. É por esse bem que todo homem, mesmo o mau, é conduzido pelo Senhor. Por aí é evidente que o Senhor separa o mal do bem, para que um seja interior e outro exterior, provendo, assim, que não sejam misturados.
[3] Terceiro: Mas isso não se pode fazer se o homem primeiro reconhece os veros da fé, vive segundo eles e em seguida volta atrás e os nega. Isto é evidente pelo que agora se disse: primeiro, que todas as coisas que pela vontade o homem pensa, fala e faz lhe são apropriadas e permanecem; segundo, que o Senhor, por Sua Divina Providência, provê continuamente que o bem seja por si mesmo e o mal por si mesmo, e possam assim ser separados. Também são separados pelo Senhor, após a morte. Naqueles que estão interiormente no mal e exteriormente no bem, o bem é tirado e eles são assim deixados em seu mal; acontece o contrário nos que estão interiormente no bem e exteriormente, como os outros homens, adquiriram riquezas, procuraram dignidades, deleitaram-se com diversas coisas mundanas e foram indulgentes com algumas cobiças. Nesses, porém, o bem e o mal não foram misturados, mas separados como o interno e o externo. Assim, na forma externa foram semelhantes aos maus em muitas coisas, mas não na interna. Por outro lado, também nos maus que na forma externa aparentavam ser como os bons na piedade, no culto, na linguagem e nos feitos, enquanto na forma interna eram todavia maus, também nesses o mal foi separado do bem. Mas naqueles que antes tinham reconhecido os veros da fé e tinham vivido segundo esses veros, mas em seguida andaram na direção contrária e os rejeitaram, e principalmente se os negaram, os bens e males não podem mais ser separados, pois estão misturados, porquanto tal homem apropriou-se do bem e também apropriou-se do mal; por conseguinte, os conjuntou e misturou.
[4] Quarto: Então ele mistura o bem e o mal a ponto de não poderem ser separados. Isto se segue do que há pouco se disse. E se o mal não pode ser separado do bem e o bem do mal, ele não pode estar no céu nem no inferno. Todo homem deve estar ou em um ou no outro; não pode estar em ambos; assim, estaria ora no céu, ora no inferno, e quando estivesse no céu agiria a favor do inferno, e quando no inferno, agiria a favor do céu; assim destruiria a vida de todos os que estivessem ao seu redor, a vida celeste nos anjos e a vida infernal nos diabos, pelo que pereceria a vida de cada um, pois a vida de cada um deve ser sua; ninguém vive na vida de outrem, ainda menos numa oposta. Assim é que em todo homem, após o óbito, quando se torna homem espiritual, o Senhor separa o bem do mal e o mal do bem; o bem do mal naqueles que são interiormente maus, e o mal do bem naqueles que são interiormente bons. Isto é segundo as Suas palavras:
"A todo aquele que tem será dado para que tenha em abundância, mas daquele que [não] tem, até o que tem lhe será tirado" (Mt. 13:12; 25:29; Mc. 4:25; Lc. 8:18; 19:26).
[5] Quinto: E como o bem e o mal em cada indivíduo devem ser separados, mas nele não podem ser separados, por isso ele é destruído quanto a tudo que é verdadeiramente humano. Cada um tem o verdadeiramente humano pela racionalidade, pelo fato de poder ver e saber, se o quiser, o que é o vero e bem, e também pelo fato de poder, pela liberdade, querer, pensar, falar e fazer o vero e o bem, como anteriormente se mostrou. Mas essa liberdade com sua racionalidade foi destruída naqueles que em si misturaram o bem e o mal, pois esses não podem pelo bem ver o mal, nem pelo mal conhecer o bem, pois que os fazem como se fossem um só. Assim, não têm mais racionalidade na faculdade ou em potência e, por conseguinte, não têm liberdade alguma. Esta é a razão de serem meros delírios fantasiosos, como se disse acima, e não aparecerem mais como homens, mas como ossos cobertos com alguma pele. E assim, quando são nomeados, não são chamados este ou esta, mas isto. Tal é a sorte daqueles que misturam dessa maneira as coisas santas com as profanas. Mas há muitos gêneros de profanação que não chegam a ser tais, dos quais se tratará no artigo seguinte.
Versão Impressa
Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.