. (i.) Todo adorador de si mesmo e da natureza se confirma contra a Divina Providência quando vê no mundo tantos ímpios e as tantas impiedades deles, e ao mesmo tempo as glórias que alguns deles daí têm, sem que Deus lhes inflija punição alguma por causa disso. Todas as impiedades, como também toda glória com elas obtida, são permissões cujas causas são leis da Divina Providência. Todo homem pode livremente - e até muito livremente - pensar o que quiser, tanto contra Deus quanto a favor de Deus, e quem pensa contra Deus é raramente punido no mundo natural, porque aí está sempre no estado de reforma, mas é punido no mundo espiritual, o que acontece após a morte, porque então não pode mais ser reformado.
[2] Que as causas sejam leis da Divina Providência, vê-se pelas leis mencionadas anteriormente, se forem lembradas e esclarecidas, as quais são: Que o homem aja pelo livre segundo a razão, lei de que se tratou acima (n° 71-97). Que o homem não seja constrangido por meios externos a pensar e a querer, por conseguinte, a crer nas coisas que são da religião e a amá-las, mas a si mesmo se leve a isso e por vezes se constranja (sobre essa lei, n° 129-153). A prudência própria é nula; somente parece que é alguma coisa e deve também parecer assim, mas a Divina Providência é universal por meio das coisas mais singulares (n° 191-213). A Divina Providência considera as coisas eternas, e as temporais não considera de outro modo senão tanto quanto façam um com as eternas (n° 214-220). O homem não é introduzido interiormente nos veros da fé e nos bens da caridade a não ser tanto quanto possa ser mantidos neles até o fim da vida (sobre essa lei, n° 221-233).
[3] Que as causas das permissões sejam leis da Divina Providência, ver-se-á pelo que se segue, como por isto: Os males são permitidos por causa de um fim, que é a salvação. Depois, por isto: A Divina Providência é contínua, nos maus e nos bons igualmente. E, finalmente, por isto: O Senhor não pode agir contra as leis de Sua Divina Providência, porque agir contra elas seria agir contra Seu Divino Amor e contra Sua Divina Sabedoria, portanto, contra Si mesmo. Estas leis, se forem discutidas, podem manifestar as razões de as impiedades serem permitidas pelo Senhor e não serem punidas enquanto estiverem somente no pensamento e, raramente, também na intenção e, por conseguinte, na vontade, mas não no fato. Não obstante, todo mal é acompanhado de sua pena; é como se no mal estivesse inscrita a sua pena, que o ímpio sofre após a morte.
[4] Pelo que foi agora citado são também explicadas as coisas que foram referidas na seqüência acima, n° 237, que são: O adorador de si mesmo e da natureza se confirma ainda mais contra a Divina Providência quando vê que ocorrem maquinações, astúcias e dolos, até contra os piedosos, justos e sinceros, e que a injustiça triunfa sobre a justiça nos julgamentos e nos negócios. Todas as leis da Divina Providência são necessidades, e como são as razões por que tais coisas são permitidas, vê-se que, para que o homem possa viver como homem, ser reformado e salvo, elas não podem ser tiradas do homem pelo Senhor senão mediatamente, pela Palavra, e especialmente pelos preceitos do Decálogo, naqueles que reconhecem como pecados todos os gêneros de homicídios, adultérios, furtos e falsos testemunhos. Naqueles que não reconhecem isso como pecados Ele o faz mediatamente, pelas leis civis e pelo temor de suas penas, depois pelas leis morais e pelo temor de perder a reputação, a honra e o lucro por causa dessas coisas. Por estes meios o Senhor desvia os maus de praticar os males, porém não de pensar neles e desejá-los. Mas pelos meios anteriores o Senhor desvia os bons não somente de praticá-los, mas também de pensar nelas e desejá-los.
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