DIVPROV &250

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

. (ii.) O adorador de si mesmo e da natureza se confirma contra a Divina Providência quando vê ímpios serem elevados às honrarias e se tornarem grandes e primazes, e também abundarem em riquezas e viverem no luxo e na magnificência, enquanto os adoradores de Deus vivem no desprezo e na pobreza. O adorador de si e da natureza crê que as dignidades e as riquezas são as maiores e únicas felicidades que podem existir e, se pelo culto em que foi iniciado desde a infância, pensa alguma coisa a respeito de Deus, ele as chama bênçãos Divinas. Enquanto por elas não aspira coisas mais elevadas, pensa que há um Deus e também O adora, mas no seu culto se encerra algo que ele então ignora, a saber, que seja elevado por Deus a dignidades ainda mais altas e a riquezas ainda maiores; e, se as obtém, seu culto vai cada vez mais para os exteriores até se extinguir e ele finalmente desprezar Deus e negá-Lo. O mesmo ele faz se é privado da dignidade e da opulência em que tinha posto seu coração. O que são, pois, as dignidades e as riquezas senão pedras de tropeço para os maus?
[2] Não são tais, porém, para os bons, porque esses não põem nelas o coração, mas nos usos ou bens, para cujo cumprimento as dignidades e riquezas servem de meios. Por isso, pelo fato de os ímpios serem promovidos às honrarias e riquezas, nenhum outro pode se confirmar contra a Divina Providência a não ser aquele que é adorador de si e da natureza. Além disso, o que é uma dignidade maior e menor? E o que é uma opulência maior e menor? Não é em si mesmo algo imaginário? Acaso um é mais afortunado e mais feliz que outro? Acaso a dignidade de um grande, mesmo sendo um rei e um imperador, depois de decorrido um ano não é considerada como algo comum, que não mais exalta o seu coração com prazer, e que também pode nele envilecer? Acaso estarão, por suas dignidades, num grau maior de felicidade do que os que nelas estão em grau menor, mesmo na mínima dignidade? Estes podem estar num grau de felicidade maior quando vão bem e estão contentes com sua sorte. Quem está mais inquieto de coração, quem está mais freqüentemente indignado e quem está mais profundamente irritado senão o amor de si? Isso acontece todas as vezes que não é honrado segundo a exaltação de seu coração e todas as vezes que não lhe sucede algo de sua vontade e de seus votos. O que é, portanto, a dignidade senão uma idéia, se não for para a coisa ou o uso? Pode essa idéia estar em outro pensamento senão no pensamento a respeito de si e do mundo? E, em si mesma, não é uma idéia de que o mundo é tudo e o eterno nada é?
[3] Agora se dirá alguma coisa sobre a Divina Providência, por que razão ela permite que os ímpios de coração sejam elevados às dignidades e alcancem riquezas. Os ímpios ou maus podem prestar usos igualmente aos piedosos e bons, e mesmo por um ardor mais forte, pois consideram a si mesmos nos usos e consideram as honrarias como usos. Por isso, no mesmo grau em que o amor de si sobe, acende-se nele a cobiça de praticar usos por causa de sua glória. Esse ardor não existe nos piedosos ou bons, a não ser que seja fomentado de baixo pela honraria. Por isso o Senhor governa pela reputação do nome os ímpios de coração, que estão nas dignidades, e excita-os a praticarem usos comuns ou da pátria, da sociedade e da cidade em que estão, e também ao concidadão ou próximo com quem estão. Com esses é assim o governo do Senhor que se chama Divina Providência. Com efeito, o reino do Senhor é o reino dos usos, e onde existem somente uns poucos que prestam usos por causa dos usos Ele faz com os adoradores de si sejam elevados a ofícios mais eminentes, nos quais cada um é excitado por seu amor a fazer o bem.
[4] Imagina algum reino infernal no mundo, ainda que não exista, onde só reinam os amores de si - o amor de si é o diabo - acaso cada um não prestará usos pelo ardor do amor de si e pelo esplendor de sua glória mais do que em outro reino? Entretanto, todos eles trazem na boca o bem público, mas no coração o seu próprio bem. E como cada um considera o seu príncipe para se tornar maior, pois aspira ser o maior de todos, acaso esse pode ver que há um Deus? Há como que uma fumaça de incêndio que o cerca, através da qual nenhum vero espiritual pode passar em sua luz. Vi essa fumaça em volta do inferno dos que são tais. Acende uma lâmpada e examina: quantos são hoje nos reinos, dentre os que aspiram às dignidades, os que não estão nos amores de si e do mundo? Talvez entre mil encontrarás cinqüenta que são amores de Deus e, entre esses, somente alguns que aspiram às dignidades. Portanto, visto que os amores de Deus existem em tão pouco número e os amores de si e do mundo em tão grande número - e esses amores, pelos seus ardores, prestam mais usos do que os amores de Deus pelos seus - como pode então alguém se confirmar pelo fato de os maus estarem na eminência e na opulência mais do que os bons?
[5] Isto também é confirmado por estas palavras do Senhor:
"Louvou [aquele] senhor o injusto mordomo, que agiu prudentemente, porque os filhos deste século são mais prudentes em sua geração do que os filhos da luz. Assim, Eu vos digo: Fazei para vós amigos com o mamon da injustiça, para que, quando vos faltarem, eles os recebam nos tabernáculos eternos" (Lc. 16:8,9).
O que se entende por estas palavras, no sentido natural, é evidente. Mas no sentido espiritual, por 'mamon da injustiça' se entendem os conhecimentos do vero e do bem que os maus possuem e de que se utilizam somente para adquirir dignidades e riquezas. São esses conhecimentos dos quais os filhos da luz devem fazer para si amigos e os quais os receberão nos tabernáculos eternos. Que sejam muitos os amores de si e do mundo, e poucos os amores de Deus, o Senhor também ensina nestas palavras:
"Larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; mas apertada [é a porta] e estreito é o caminho que conduz à vida, e são poucos os que o encontram" (Mt. 7:13, 14).
Que as dignidades e as riquezas sejam ou bênçãos ou maldições, e em quem elas são assim, viu-se acima (n° 217).

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