. (iii.) O adorador de si mesmo e da natureza se confirma contra a Divina Providência quando pensa que as guerras são permitidas e que então tantos homens são mortos e suas riquezas depredadas. Não é da Divina Providência que as guerras existam, porque estão associadas a homicídios, depredações, violências, sevícias, além de outros males enormes que são diametralmente opostos à caridade cristã. No entanto, elas não podem deixar de ser permitidas, porque o amor da vida dos homens, depois dos antiqüíssimos - que se entendem por Adão e sua esposa (de que tratou acima, n° 241) - tornou-se tal que quer dominar sobre os outros e, enfim, sobre todos, como quer também possuir as riquezas do mundo e, enfim, todas elas. Esses dois amores não podem ser mantidos em vínculos, visto que é segundo a Divina Providência que a cada um seja permitido agir pelo livre segundo a razão (sobre isso, vide acima, n° 71-99), e sem as permissões o homem não pode ser desviado do mal pelo Senhor, por conseguinte, não pode ser reformado e salvo. Pois, se não for permitido que os males venham à tona, o homem não os vê, portanto, não os reconhece e, assim, não pode ser levado a resistir a eles. Assim é que, por algum ato da Providência, os males não podem ficar latentes, pois assim permaneceriam inclusos e, como as doenças que se chamam câncer e gangrena, se espalhariam ao redor e consumiriam todo vital humano.
[2] De fato, o homem é, de nascença, como um pequeno inferno, entre o qual e o céu existe uma perpétua discordância. Nenhum homem pode ser tirado de seu inferno pelo Senhor, a não ser que veja que está ali e a não ser que queira ser conduzido, e isto não pode ser feito sem as permissões, cujas causas são as leis da Divina Providência. É por essa razão que existem guerras pequenas e grandes; as pequenas entre proprietários de moradias e os seus vizinhos, e as grandes entre os monarcas dos reinos e os seus vizinhos. Pequena ou grande não faz com que haja diferença alguma, senão que as pequenas são mantidas nos limites pelas leis da nação, e as grandes pelas leis das nações, e tanto as pequenas como as grandes querem transgredir suas leis; as pequenas não o podem, enquanto as grandes podem, todavia não além do possível.
[3] Que as grandes guerras, por serem associadas a homicídios, depredações, violências e sevícias, não sejam impedidas pelo Senhor aos reis e líderes, nem no seu início nem em sua progressão, mas no fim, quando o poder de um ou de outro se torna tão fraco que haja perigo iminente de destruição, isso se deve a muitas razões que estão encerradas nos tesouros da Divina Sabedoria, sendo que algumas delas me foram reveladas, entre as quais se acham as seguintes: todas as guerras, mesmo quando são civis, são representativas, no céu, do estado da igreja e são correspondências. Tais foram todas as guerras descritas na Palavra e tais também são todas as guerras de hoje. As guerras descritas na Palavra são as que os filhos de Israel travaram contra várias nações, como os amorreus, amonitas, moabitas, filisteus, sírios, egípcios, caldeus e assírios. E quando os filhos de Israel, que representaram a igreja, se afastavam dos preceitos e estatutos, e caíam nos males que eram significados por aquelas nações - pois cada uma daquelas nações contra as quais os filhos de Israel travaram guerra significava um gênero de mal - então, pela guerra aquela nação era punida. Por exemplo, como tinham profanado as coisas santas da igreja com horrendas idolatrias, foram punidos pelos assírios e caldeus, visto que pela Assíria e pela Caldéia era significada a profanação do que é santo. O que é significado pelas guerras com os filisteus, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Fé (n° 50-54).
[4] Coisas semelhantes são representadas pelas guerras de hoje, onde quer que ocorram, pois todas as coisas que se fazem no mundo natural correspondem a coisas espirituais no mundo espiritual, e todas as coisas espirituais são concernentes à igreja. Não se sabe no mundo que reinos no cristianismo se referem aos moabitas e amonitas, que reinos aos sírios e filisteus, que reinos aos caldeus e assírios, e os restantes, contra os quais os filhos de Israel travaram guerras, todavia há reinos que a eles se referem. Mas qual é a igreja nas terras e quais são os males em que ela cai e por cujo motivo é punida pelas guerras, isso não se pode absolutamente ver no mundo natural, porquanto neste mundo somente as coisas externas se mostram, e elas não fazem a igreja; mas isso é visto no mundo espiritual, onde aparecem os internos em que a igreja está, e ali todos são conjuntos segundo os seus vários estados. Os conflitos destes no mundo espiritual correspondem às guerras, que são governadas pelo Senhor em uma e outra partes segundo a Sua Divina Providência.
[5] Que as guerras no mundo sejam governadas pela Divina Providência do Senhor, o homem espiritual reconhece, mas não o homem natural, exceto somente quando celebra festa por causa da vitória, quando então pode de joelhos dar graças a Deus pela vitória que lhe concedeu, e também por umas poucas palavras antes de a batalha iniciar; quando, porém, volta a si, então atribui a vitória ou à prudência do líder, ou a algum plano, ou a alguma coisa no meio da batalha, da qual não tinha pensado, do que, porém, veio a vitória.
[6] Que a Divina Providência, que é chamada sorte, esteja nas coisas mais singulares, até às mais frívolas, vê-se acima (n° 212). Se nelas reconheces a Divina Providência, também a reconhecerás necessariamente nos fatos da guerra. Os sucessos e eventos felizes resultantes da guerra são comumente chamados sorte na guerra e são a Divina Providência, principalmente nos planos e reflexões do líder, embora ele então e depois atribua todas as coisas à sua prudência. Mas isso ele faz se o quiser, pois está na plena liberdade de pensar a favor da Divina Providência ou contra ela, e mesmo a favor de Deus e contra Ele. Saiba, porém, que nenhum de seus planos e reflexões vem dele; tudo influi ou do céu ou do inferno; do inferno por permissão, do céu pela Providência.
Versão Impressa
Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.