. (vi.) O homem meramente natural se confirma contra a Divina Providência pelo fato de terem existido e ainda existirem no mundo cristão tantas heresias, como a dos quakers, dos moravianos, dos anabatistas e muitas outras. Pode, com efeito, pensar consigo mesmo: "Se a Divina Providência estivesse nas coisas mais singulares e tivesse como fim a salvação de todos, faria com que existisse uma única religião em todas as terras do mundo e que ela não fosse divida, e ainda menos dilacerada em heresias". Mas, usa a razão e pensa mais profundamente, se puderes. Acaso o homem pode ser salvo se não for antes reformado? Pois nasce no amor de si e do mundo, e como esses amores não trazem em si mesmos coisa alguma do amor a Deus e do amor para com o próximo, a não ser por causa de si, por isso ele também nasce em todos os gêneros de males. Que amor ou misericórdia há nesses amores? Pois não considera como nada defraudar a outrem, blasfemar contra ele, ter-lhe ódio até à morte, adulterar com sua esposa, tratá-lo com crueldade quando na vingança, pois carrega uma disposição tal que quer ser maior do que todos e possuir todos os bens dos outros, assim, considerando os outros como vis e de nenhuma importância em relação a si. Porventura, para ser salvo, não deve ser tirado primeiro desses males e ser assim reformado? Que isso não possa ocorrer a não ser conforme muitas leis, que são as leis da Divina Providência, mostrou-se muitas vezes acima. Essas leis são ignoradas quanto à maior parte e, todavia, são leis da Divina Sabedoria e ao mesmo tempo do Divino Amor, contra as quais o Senhor não pode agir, uma vez que agir contra elas seria perder o homem, ao invés de salvá-lo.
[2] Examina as leis que foram citadas, confere-as e verás. Por conseguinte, é também segundo essas leis que nenhum influxo imediato existe do céu, mas mediato, por meio da Palavra, das doutrinas e das pregações. E a Palavra, como é Divina, não pôde ser escrita senão por meras correspondências, do que se segue que dissensões e heresias são inevitáveis, e essas heresias são também segundo as leis da Divina Providência. E, ainda mais, porquanto a igreja mesma tomou como essenciais as coisas que são apenas do entendimento - portanto, as que são da doutrina, e não as que são da vontade, isto é, as que são da vida - e visto que quando as coisas que são da vida não são os essenciais da igreja, por isso o homem está em meras trevas pelo entendimento, erra como um cego que esbarra em toda parte e cai em fossos. Porque a vontade deve ver no entendimento e não o entendimento na vontade, ou, o que é o mesmo, a vida e seu amor devem conduzir o entendimento a pensar, falar e agir, e não o contrário. Se for o contrário, o entendimento pode, pelo amor do mal, mesmo diabólico, apreender tudo o que lhe cai sob os sentidos e forçar a vontade a fazê-lo. Daí se pode ver de onde surgem as dissensões e heresias.
[3] Todavia, foi provido que cada um, em qualquer heresia que esteja quanto ao entendimento, possa no entanto ser reformado e salvo, contanto que fuja dos males como pecados e não confirme em si os falsos heréticos, pois por fugir dos males como pecados a vontade é reformada e pela vontade é reformado o entendimento, que então passa pela primeira vez das trevas para a luz. Há três essenciais da igreja: o reconhecimento do Divino do Senhor, o reconhecimento da santidade da Palavra e a vida que se chama caridade. Segundo a vida, que é a caridade, cada homem tem a fé; da Palavra vem o conhecimento sobre o que a vida deve ser; e do Senhor vem a reforma e a salvação. Se esses três, como essenciais, existissem na igreja, então as dissensões intelectuais não a dividiriam, mas seriam apenas variações, como a luz varia em cores nos objetos belos e como as pedras preciosas fazem a beleza na coroa de um rei.
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